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Rua onde ocorreu o ataque a 20 de dezembro
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▲Rua onde ocorreu o ataque a 20 de dezembro

José Carlos Duarte/Observador

▲Rua onde ocorreu o ataque a 20 de dezembro

José Carlos Duarte/Observador

Magdeburgo. O "medo" e como o ataque ao mercado de Natal ajudou a imigração a estar no "centro" destas eleições

Ataque ao mercado de Natal de Magdeburgo, a dois meses das eleições, gerou "medo" entre a população da cidade. E deu ainda mais força à mensagem anti-imigração da AfD, que se expandiu a mais partidos.

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Ainda há decorações de Natal a 20 de fevereiro. Na praça em que está situado o edifício da Câmara Municipal de Magdeburgo, há poucos sinais do ataque terrorista no mercado de Natal que fez seis mortos e quase 300 feridos. Esta quinta-feira, passados dois meses exatos daquele dia, havia dois pequenos memoriais na rua em que o cidadão saudita Taleb Al-Abdulmohsen conduziu o seu BMW prego a fundo, atropelando várias pessoas. Mas o trágico atentado, que ocorreu já num clima de campanha para as eleições federais alemãs, gerou outras repercussões, especialmente em termos políticos.

A Alternativa para a Alemanha (AfD) organizou um grande protesto três dias após o ataque. Os dirigentes do partido, que apostam numa narrativa contra as migrações, destacaram que o ataque terrorista é uma prova de que o país deve fechar as fronteiras, principalmente aos requerentes de asilo. Quem participou nessa manifestação, que reuniu cerca de 3.500 pessoas, foi Konrad Weichsel. O homem de 43 anos, que esta quinta-feira estava perto do lugar do atentado, conta ao Observador que considera que o país “chegou a um ponto sem retorno”. “Os imigrantes que vêm para cá querem apenas causar o caos. Não se integram, vivem à nossa custa e muitos são terroristas”, diz, sublinhando que defende as políticas da AfD. “São o único partido com coragem para dizer estas coisas.” 

▲ Um dos memorais perto do lugar do ataque

José Carlos Duarte

O tema da imigração e do asilo domina há anos o espaço mediático alemão, principalmente antes das eleições. Entre todos os partidos políticos, a Alternativa para a Alemanha é aquele que mais faz deste tópico a sua bandeira. Aliás, a sua política contra a imigração sustentou muito do seu crescimento ao longo dos últimos anos. Porém, este assunto deixou apenas de ser exclusivo da AfD. Durante estas eleições, a imigração tornou-se no “tema central”, diz ao Observador Conrad Ziller, académico no Instituto de Ciência Política na Universidade de Duisburg-Essen, que se debruça sobre a interseção entre política e migrações.

“Outros partidos”, refere o especialista, seguem a mesma tendêndia da AfD. “Isso tem a ver com os trágicos ataques em Magdeburgo e também com os de Aschaffenburg e Munique, que deixaram a população em sobressalto”, explica Conrad Ziller. “É um tema que gera emoções e pode ser usado numa campanha eleitoral. Os partidos entraram numa espécie de competição para ver qual vai adotar as medidas mais restritivas”, expõe ainda.

Numa cidade que ainda está a recuperar do choque do atentado, a segurança está no topo da lista de prioridades no momento de votar. A funcionária de uma loja em Magdeburgo, Anette Wies, de 50 anos, confessa que esse assunto vai ser o “mais importante” para ela no momento de definir o seu sentido de voto. Ao Observador, enquanto fazia uma pausa para fumar, a mulher reforça que “não quer ver outra vez imagens idênticas” àquelas que viu na televisão a 20 de dezembro. “Tive uma irmã de uma amiga que tinha planeado ir ao mercado de Natal depois de jantar. Teve sorte, mas ficámos todos em choque”, relata. Sobre o seu voto, prefere não dizer, mas sublinha que votará “em quem quer mudar as coisas”.

▲ O local onde ocorria o mercado de Natal a 20 de dezembro de 2024

José Carlos Duarte

Magdeburgo. A cidade que já vota na AfD e o “medo” que os habitantes sentem

Com cerca de 230 mil habitantes, nas eleições federais, Magdeburgo é uma cidade que já deu a vitória ao centro-direita, ao centro-esquerda e até ao Die Linke, o partido mais à esquerda no panorama político germânico. Nas europeias, no passado mês de junho, a AfD fez, no entanto, história: o partido sagrou-se vencedor nesta cidade do leste da Alemanha. Aliás, naquelas eleições, a formação partidária cuja candidata a chanceler é Alice Weidel dominou quase por completo a região que fazia parte da antiga República Democrática Alemã (RDA).

É nesta região que os imigrantes também criam mais desconfiança e são menos bem recebidos. Um estudo da Universidade de Leipzig mostra que 70% dos inquiridos no leste da Alemanha concordam que os estrangeiros “exploram o estado de bem-estar social” e que 60% acredita que o país se tornou “excessivamente estrangeiro”. Não admira, portanto, que a mensagem da AfD ressoe particularmente bem na região — e que isso se transforme em votos para o partido.

▲ Cartazes da campanha em Magdeburgo, incluindo um da Alternativa para a Alemanha

“Nunca votaria na AfD, mas algumas coisas que eles dizem… Não são completamente mentira”, afirma Norbert Karl ao Observador. O homem de 70 anos que saía de um centro comercial no centro de Magdeburgo esta quinta-feira à tarde, indica que o partido é “demasiado radical”, mas que “tem razão no que diz”. Nas migrações? “Sim, acho que sim. A Alemanha não pode receber toda a gente. Foi um erro que cometemos e estamos a pagar por isso. Há ataques terroristas em Munique, aqui em Magdeburgo, e são cometidos por estrangeiros.”

[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Além dos pequenos memoriais na praça onde ocorreu o ataque, local onde ainda estão vários peluches, cachecóis, uma coroa de flores e velas como recordação do que se passou a 20 de dezembro de 2024, é na majestosa Catedral Gótica de Magdeburgo, um dos símbolos da cidade e um espaço religioso luterano, e que, por conta da sua altura de 104 metros, é visível desde todos os ângulos do centro da cidade, que se fazem mais homenagens. Nos dias a seguir ao ataque, um mar de flores inundou mesmo a porta da catedral. 

Porta da Catedral de Magdeburgo
Coroa de flores em homenagem na Catedral de Magdeburgo
Peluches e velas em jeito de homenagem na Catedral de Magdeburgo

“Não nos vamos esquecer tão rapidamente do que aconteceu. Felizmente, ninguém da minha família estava no mercado de Natal, mas foi terrível. Sinto muito pena pelo que se passou”, destaca Norbert Karl, lembrando as vítimas. “Havia uma criança entre as vítimas mortais. Cinco mulheres. Cinco mulheres inocentes que mais não fizeram do que estar no sítio errado à hora errada”, lamenta, reiterando: “Portanto, apesar de ser um partido extremista, a AfD tem razão. A Alemanha não pode abrir completamente as fronteiras. Temos medo do que pode acontecer”.

Embora seja esta a perceção de muitos habitantes de Magdeburgo, o atacante natural da Arábia Saudita já estava a viver no país há cerca de 20 anos. Taleb Al-Abdulmohsen descrevia-se como um “ex-muçulmano” e expressava simpatia nas redes sociais pela Alternativa para a Alemanha, sendo o seu sonho formar uma “academia para ex-muçulmanos”. Psiquiatra de profissão, o homem de 50 anos sofria de problemas mentais, segundo a ministra da Administração Interna da Alemanha, Nancy Faeser.

Numa conferência de imprensa dias depois do ataque, a governante frisou que “havia sinais evidentes de uma psique patológica” em Taleb Al-Abdulmohsen, que estava “psicologicamente perturbado” e era motivado “por teorias da conspiração confusas”. Nesse sentido, alguns colegas de profissão já tinham advertido que o homem de 50 anos não estava bem psicologicamente. O jornal Die Welt revelou recentemente que o saudita “rosnava para os colegas como um cão” e sugeria “curar psicoses com aparelhos auditivos”.

Saudita, médico, fã da AfD e defensor dos refugiados “anti-Islão”. Tudo o que se sabe sobre o homem que atropelou multidão na Alemanha

Era apenas um “louco” e um “lobo solitário” que até gostava da AfD? Ao Observador, Konrad Weichsel discorda dessa ideia. “Essa versão não me convence. Os jornais e as televisões falam nessa versão, mas eu não me acredito, acho que não é bem assim. Foi um crime de ódio contra os alemães de um muçulmano claramente perigoso”, alega.

Imigrantes em Magdeburgo falam no aumento de “crimes de ódio”

Dois dias após o ataque, a associação cultural síria-alemã de Magdeburgo emitiu um comunicado em que denunciava o aumento das “ameaças contra pessoas com background migratório” na cidade. “Nos últimos dias, os grupos de extrema-direita intensificaram a sua atitude agressiva e propagaram deliberadamente o medo e o ódio na sociedade. São especialmente preocupantes os episódios em que os nossos cidadãos são assediados, ameaçados e atacados.”

O Observador tentou perceber se a associação síria, dois meses após o ataque, tinha dados sobre esses relatos de violência contra imigrantes, mas não obteve qualquer resposta. Ainda assim, em declarações à Associated Press, Saeeid Saeeid, imigrante sírio que chegou à Alemanha há sete anos e que pertence à associação, contou que a “comunidade migrante e os centros de apoio indicam que os ataques aumentaram mais de 70%” em Magdeburgo. “O racismo existe aqui [na cidade] e em todo o lado. Mas aumentou enormemente desde o ataque”, denuncia.

▲ Imigrantes em Magdeburgo denuncia aumento dos crimes de ódio

José Carlos Duarte

Ao Observador, Fadila, que preferiu não revelar o apelido, esperava pelo metro esta quinta-feira no centro de Magdeburgo. A jovem, que usava hijab, relata que sentiu um aumento da discriminação nos últimos meses. Oriunda da Síria e chegada à Alemanha em 2016, Fadila enfatiza que houve um “antes e depois” do ataque ao mercado de Natal.

“As pessoas já não eram particularmente simpáticas com os imigrantes, mas tornou-se pior, sem dúvida. Parecemos quase todos suspeitos de alguma coisa. Há pessoas que não se sentam ao nosso lado no metro de superfície”, lamenta, reforçando: “Estamos aqui para trabalhar e para construir as nossas vidas, não somos todos atacantes”. Fadila lembra ainda um episódio, há cerca de um mês, num café, em que um alemão a “mandou de volta para a sua terra”.

Sobre política alemã, Fadila confessa que “não sabe muita coisa”, mas lamenta que haja um “partido” que “trate todos imigrantes como terroristas”. “Só propagam ódio e não sabem que muitas pessoas tiveram de fugir de uma guerra e que querem apenas viver num lugar tranquilo”, revolta-se. O Observador questionou se o partido em questão era a AfD. A jovem acenou apenas com a cabeça.

"As pessoas já não eram particularmente simpáticas com os imigrantes, mas tornou-se pior, sem dúvida. Parecemos quase todos suspeitos de alguma coisa. Há pessoas que não se sentam ao nosso lado no metro"
Fadila, imigrante síria

Questionada ainda sobre o que podia acontecer após as eleições federais e a sua situação pode ficar ainda pior para os imigrantes na Alemanha, Fadila não espera que as coisas melhorem. “Esse partido tem muitos votos, principalmente aqui em Magdeburgo. Sei que estão cada vez mais fortes. Mas ainda há pessoas boas que entendem que nem todos os muçulmanos são más pessoas”, salienta.

Apesar da mudança de regime na Síria, de onde é natural, Fadila tenciona ficar na Alemanha nos próximos tempos. “A situação está realmente melhor na Síria, os relatos que eu ouço da minha família vão nesse sentido. Felizmente, o ditador [Bashar al-Assad], que tem sangue nas mãos, saiu do poder”, rejubila a jovem. Mas, contrapõe que já tem uma “vida construída na Alemanha”: “Tenho emprego e amigos aqui. Estou em situação legal. Não vou sair do país”.

A imigração está no centro da campanha para estas eleições — e já não é só a AfD que faz disso campanha

Apesar do clima de algum medo que se instalou em Magdeburgo, Conrad Ziller sublinha que existem estudos que revelam que “a imigração geralmente não leva a um aumento significativo da criminalidade”, ainda que “no discurso político” se insista nessa ideia que, frisa o especialista, nem sempre é correta. A AfD é o partido que mais faz questão de envergar a bandeira, relacionando vários tópicos com a problemática migratória que, à partida, não têm a ver com a imigração.

▲ Centro da cidade de Magdeburgo

José Carlos Duarte

Em declarações ao Observador, Matthias Mader, professor em Ciência Política na Universidade de Konstanz, dá um exemplo do modus operandi da AfD: “Uma razão para o problema da falta da disponibilidade de habitação acessível nas grandes cidades deve-se ao facto de existirem muito imigrantes e requerentes de asilo que estão a tirar apartamentos (do ponto de vista do partido) a alemães ‘a sério’”. Assim, continua o especialista, “a AfD contribui significativamente para garantir que a questão da imigração/pedidos de asilo é saliente e está no centro do debate público e político. Se o partido não existisse, outros assuntos dominariam a campanha eleitoral, possivelmente a economia e a política externa.”

Dito doutro modo, o partido tornou-se quase monotemático, como também nota Floris Biskamp, cientista político e sociólogo na Universidade de Tübingen. “A migração continua a ser a questão fundamental para mobilizar os seus eleitores e a AfD aborda este assunto sempre que surge a oportunidade”, refere. Nos últimos tempos, ainda assim, tem havido o esforço de o partido liderado por Alice Weidel de se “posicionar de forma mais veemente” noutras questões, como na “economia, na política climática e energética”, ressalva o especialista de Tübingen. Mas os efeitos — e os potenciais ganhos eleitorais — não são tão elevados como a forma como exploram as falhas na política migratória alemã.

O crescimento nas sondagens e a possibilidade de a AfD ficar em segundo lugar leva a que os outros partidos também reajam — e percebam que podem ganhar votos se também explorarem o tema. “A Alternativa para a Alemanha já não está sozinha nisto. O tópico já está em primeiro plano [na política alemã]”, corrobora Floris Biskamp. Houve, por isso, um domínio da agenda mediática da política migratória, que foi inicialmente impulsionado pela Alternativa para a Alemanha — mas que já vai além disso. 

"A migração continua a ser a questão fundamental para mobilizar os seus eleitores e a AfD aborda este assunto sempre que surge a oportunidade"
Floris Biskamp, cientista político e sociólogo na Universidade de Tübingen

As consequências do discurso da AfD nas migrações levou a que “outros partidos tivessem endurecido significativamente as suas posições sobre a política migratória nos últimos dez anos”, destaca Floris Biskamp. Os partidos mainstream da Alemanha, como a CDU/CSU (de centro-direita), os Verdes e o SPD (de centro-esquerda) e os liberais do FDP adotaram os seus programas e “deixaram de defender a ‘cultura de boas vindas’” que foi inicialmente adotada pela ex-chanceler, Angela Merkel.

“A AfD fez da migração a sua questão central e está a definir a agenda”, subscreve Conrad Ziller, sinalizando que outros partidos, em particular a CDU, também estão a promover “impor limites restritivos na política migratória” e, desta forma, “demonstrar a sua força para agir”. “O problema é que isto subverte todo o discurso, o que, por sua vez, beneficia a AfD”, remata o especialista.

As cedências de outros partidos às medidas da AfD na questão migratória normaliza, por isso, a sua agenda que, há alguns anos, era vista como demasiado radical e extremista. “Quase todos os outros partidos ajustaram as suas posições e quase todos assumem posições mais restritivas do que no passado”, aclara Matthias Mader, que aponta para outra estratégia.

"A migração continua a ser a questão fundamental para mobilizar os seus eleitores e a AfD aborda este assunto sempre que surge a oportunidade"
Floris Biskamp, cientista político e sociólogo na Universidade de Tübingen

“Os partidos convenceram-se recentemente de que a melhor estratégia para a abrandar a ascensão da política da AfD passa por representar posições semelhantes, mas menos radicais, às da AfD”, enfatiza Matthias Mader. No entanto, os especialistas duvidam que essa estratégia resulte. Para Floris Biskamp, é AfD é o partido que mais “sai beneficiado” desta tendência.

Em Magdeburgo, nesta quinta-feira nublada e com as ruas com neve, a vida parece ter voltado ao normal. Nas ruas onde ocorreu o ataque, por exemplo, tinha lugar uma pequena feira: vendia-se carne, peixe e roupa. Se à primeira vista as feridas parecem estar a sarar, os efeitos políticos vão ser mais profundos. Mesmo que atentados como estes sejam perpetrados por lobos solitários e que até se associem às ideias do partido, a AfD aproveita para colocar o assunto ainda mais no centro do debate político.

▲ Pequena no feira no local em que ocorreu o ataque a Magdeburgo

Num assunto controverso na Alemanha e suscetível a polarização, a política migratória mantém-se no centro da agenda mediática para estas eleições federais. E, desta vez, apesar de ter dado um forte impulso, todos os partidos alemães parecem seguir a mesma linha: a de endurecer a política migratória, normalizando pelo caminho muitas das ideias da Alternativa para a Alemanha.

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