Na política, no desporto ou na vida, a palavra “nunca” é cada vez mais uma espécie de ratoeira fácil de cair. Porquê? Agora, mais do que no nunca (e aqui sim, faz sentido utilizar a palavra), tudo muda num instante e foi nesse contexto que as eleições do Benfica ganharam um sexto candidato: Luís Filipe Vieira, o mesmo que dizia em junho de 2022 que nunca mais voltaria a ser presidente “nem que Cristo desça à terra”.

Legado destruído, episódios com Rui Costa, dinheiro garantido e o “pequenino” Neves: a entrevista do (agora) candidato Luís Filipe Vieira

“Estarei sempre disponível para ajudar mas presidente do Benfica? Acabou. Agora tenho tempo para tudo, até estou mais novo, estou bronzeado. Em 19 anos só em dois é que tive férias, trabalhei que nem um escravo. Sei o que fiz no Benfica. Não tenho hipótese de voltar. Aquilo que se passou comigo… É impossível para mim. Sacrifiquei a minha família, a mim mesmo. Se fosse a votos ganhava as eleições, não tenho dúvidas nenhumas, eu sei o que se passa na rua. Tenho a convicção que ganhava. Mas não…”, comentou nessa mesma entrevista à CMTV, a primeira desde que saiu no seguimento da Operação Cartão Vermelho.

Aí, entre várias considerações, Vieira foi também explicando o porquê de fechar as portas a esse regresso (ou, pelo menos, à tentativa de regresso). Assegurou que nunca “roubou o Benfica”, assumiu que o dia em que foi detido mudou a sua vida e a da família, considerou-se um “troféu de caça para muita gente”, mostrou algum incómodo pela forma como Rui Costa assumiu o seu lugar sem qualquer alusão ao antecessor (contando o episódio dos dois fisioterapeutas do clube que deixaram de ir a sua casa alegadamente para não passarem informações internas), garantiu que não mais voltaria a colocar a família a passar pelo que passou. Contudo, essa ideia inabalável tinha um prazo de validade e, em termos práticos, acabou por cair em três anos.

Como Luís Filipe Vieira olha para todo o xadrez das eleições (com ou sem Sérgio Conceição como treinador)

Ao longo dos últimos meses, perante aquilo que considerou ser um desvirtuar completo do projeto que tinha deixado na Luz, Vieira foi mantendo vários encontros em almoços e reuniões que prepararam uma eventual candidatura às eleições de outubro. Em paralelo com isso, teve também uma “máquina” que foi apalpando terreno para perceber os cenários em cima da mesa caso fosse a sufrágio, assumindo também pontos de total imprevisibilidade como os resultados desportivos no início da época, a existência de seis candidatos como nunca acontecera na história do clube e a possibilidade de segunda volta. A decisão estava próxima.

“Uma pessoa fraca emocionalmente não pode ser presidente”: Vieira visa Rui Costa e diz que só espera uma resposta para avançar

Na última aparição pública, há pouco mais de duas semanas, o antigo presidente dos encarnados recusou dizer se era candidato mas anunciou que estava apenas pendente de “mais uma resposta” para formalizar essa intenção de ir a votos. Foi isso que chegou nos últimos dias, olhando também para potenciais soluções que irá apresentar tendo em conta o atual estado do Benfica em termos desportivos, financeiros e também patrimoniais, com Vieira a confidenciar que a decisão estava tomada. Ainda teve conversas para que não fosse a jogo, até pelo desgaste que uma campanha eleitoral tão concorrida poderá promover, não se desviou da ideia de voltar a ser candidato para terminar algo que considera estar ainda por acabar na Luz. A confirmação foi dada em direto numa entrevista à TVI/CNN esta terça-feira com as devidas explicações.

O “engano” Rui Costa, o “escondido” Noronha Lopes e um “Benfica a afundar”. Vieira dispara para todos os lados, mas não confirma candidatura

“Não consegui acabar ainda aquilo que pensei. Todos sabem o que se passou comigo mas quero adiantar a todos os benfiquistas que não lesei, nem nunca roubei o Benfica. Que fique claro para toda a gente. Todos os benfiquistas devem ter orgulho do clube, o Benfica nunca teve um património como tem hoje, pago. Sinto-me um homem perseguido, como uma peça de caça a que querem dar um tiro, mas não vão conseguir. Não vou permitir. Conseguiram decapitar o Benfica. Ia projetar o Benfica e isso assustou muita gente”, tinha dito Luís Filipe Vieira à BTV em outubro de 2021, após votar nas eleições que elegeram Rui Costa com quase 90% dos votos. Quatro anos depois, o antigo líder terá pela frente o atual presidente, João Noronha Lopes, Martim Mayer, João Diogo Manteigas e Cristóvão Carvalho para voltar onde esteve entre 2003 e 2021.

[Governo decide que é preciso invadir a embaixada para pôr fim ao sequestro. É chamada uma nova força de elite: o Grupo de Operações Especiais. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. Ouça no site do Observador o quinto episódiodeste podcastplus narrado pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Também o pode escutar na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E ouça o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui]