O painel era sobre radicalismos e não demorou até o ministro dos Negócios Estrangeiros passar do plano internacional para o nacional. E, tal como Hugo Soares no dia anterior, concentrou-se no tiro a André Ventura a partir da Universidade de Verão do PSD: “Quando vemos alguns vídeos que são verdadeiramente quase caricaturas, isto é um ultraje aos bombeiros e às pessoas que viveram os incêndios, não é nenhum heroísmo“.
O PS não só vai sendo poupado, como é resgatado para o lado da trincheira dos moderados. E, sobre a cobertura do Chega, Paulo Rangel também atira à comunicação social: “Se este vídeo fosse feito por um político do PSD ou do PS, seria altamente criticado pelos media”. E não poupa o comentariado nacional, ao acrescentar que “na panóplia de comentadores, pouca gente critica isto. Se fosse um político tradicional seria absolutamente cilindrado.”
Numa versão 2.0 das críticas do chefe de Governo ao jornalismo ofegante, Paulo Rangel já tinha criticado os jornalistas por se deixarem levar pelo imediatismo: “O jornalismo e os media deixaram de ser mediadores. Querem fazer a pergunta para o momento. Não há meditação. Alguém incendeia qualquer coisa e anda todo o mundo atrás”. Para Rangel, os próprios jornalistas deixam-se levar na “perseguição do imediato, do instantâneo, do que é escândalo, do que põe toda a gente a gritar, em conflito.”. Daí que o governante não tenha dúvidas em concluir que os media “não são isentos de responsabilidade no crescimento de demagogia e populismos, porque procuram likes, das audiências.”
Paulo Rangel secundou a ideia deixada na noite anterior por Carlos Moedas de que não há uma populismos melhores e piores de acordo com o pólo ideológico em que se enquadram. O chefe da diplomacia portuguesa diz mesmo que “sempre houve radicalismo de direita e de esquerda. Não há, de facto, uma diferença de qualidade entre radicalismo de esquerda ou de direita.”
[Meses depois de confessar o crime, o assassino de Sartawi é finalmente julgado. Mas, numa reviravolta, o terrorista do quarto 507 garante que é inocente. Como vai tudo acabar? “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Ouça no site do Observador o sexto e último episódio deste Podcast Plus narrado pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Também o pode escutar na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E ouça o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto episódio aqui]
Rangel acusa PS e BE de não terem feito avanços na solução de dois Estados na geringonça
Enquanto falava de populismos, Rangel aproveitou para ir ao conflito israelo-palestiniano. O ministro dos Negócios Estrangeiros critica que “pessoas que se afirmam os grandes defensores, tiveram oito anos para fazer o reconhecimento da Palestina e não fizeram”, numa alusão ao PS. Que estenderia depois ao BE: “O Bloco de Esquerda que vai nesta causa humanitária – louvável, com certeza -, estas pessoas tiveram influência seis anos sobre o governo socialista. Influência determinante. E elas fizeram alguma coisa? O que é que elas fizeram? É que é fácil falar quando está fora. Mas, quando se está no governo, essas pessoas não o fazem”.
Paulo Rangel disse mesmo que “ninguém fez pela causa dos dois Estados o que fez este governo [de Luís Montenegro] até hoje”, lembrando que revogou a licença para a exportação de armas para Israel há quatro meses. E acrescentaria mesmo que “o segundo Governo que mais fez pela solução foi o de Passos Coelho”, firmando o que considera ser a inoperância e ineficácia da esquerda.
O ministro dos Negócios Estrangeiros diz que a posição do Governo é “moderada” e está a “trabalhar no terreno”, tendo ganhos de causa. Isto ao contrário dos que “estão todos sempre atrás de pessoas que agora vão num barco fazer uma coisa simbólica”. Referia-se à líder do BE, Mariana Mortágua, que vai seguir numa missão humanitária até Gaza.
Paulo Rangel lembrava ainda, para responder às críticas de não estar ao lado dos palestinianos, que teve “seis encontros oficiais com o primeiro-ministro da Palestina. Nunca tive uma crítica do primeiro-ministro da Autoridade Palestiniana ao governo português, pelo contrário”.