O dólar é um dos fatores apontados pela TAP como justificação para o resultado negativo de 70,7 milhões de euros, apresentado no primeiro semestre deste ano. A desvalorização da moeda americana foi a principal causa para as perdas cambiais de 42,7 milhões de euros registadas. Estas perdas, indica a empresa, “refletem essencialmente o impacto sobre os ativos denominados em dólares como caixa e equivalentes de caixa e contas a receber”.
É uma referência às receitas que a TAP cobra em dólares. No final do ano passado, mais de metade das vendas de bilhetes eram realizadas em geografias nas quais a tarifa (preço dos bilhetes) é determinada em dólares. Só o mercado norte-americano representava, no final do ano passado, 21% do total das receitas de passagens.
Mas a queda do dólar face ao euro também teve um efeito positivo nas contas da companhia no lado do balanço que corresponde às despesas ou encargos futuros que estão valorizados em dólares e que ficam menos onerosos se o euro ganhar face à moeda americana, como tem acontecido este ano. Nesta situação as responsabilidades com passivos de locação são reconhecidas em capital próprio, sob a rubrica de outras reservas. Na primeira metade do ano, “a desvalorização do dólar resultou num impacto positivo de 216,5 milhões de euros, registado em outras reservas”.
No relatório e contas do ano passado, a TAP explica com mais detalhe as implicações da política de cobertura de risco cambial que adotou em 2022 para o dólar.
Para além do já referido peso nas receitas, esta é a moeda de referência no setor da aviação nos custos. Do lado das faturas que chegam em dólares estão os combustíveis — que mesmo quando são faturados em euros o valor cobrado está indexado à moeda americana — os leasings, rendas mensais e depósitos de garantias, bem como materiais para frota e manutenção. Há ainda os encargos com a dívida financeira remunerada (com juros), que no final de 2024, estava em 68% denominada em dólares. E há também as responsabilidades com a compra de aeronaves no quadro do contrato em execução com a Airbus.
“A encomenda de aeronaves firmada com este fabricante, a serem entregues ao longo dos próximos anos, traduz-se numa exposição ao USD (dólar), a médio e longo prazo, de um valor muito significativo, mas significa, ainda num curto prazo, um esforço de investimento anual de montantes elevados em dólares, a título de adiantamentos pagos ao fabricante”.
Para os riscos associados às vendas previstas em dólares é feita uma cobertura que tem por base “uma parte dos passivos de locação de aeronaves denominados em dólares, de acordo com os montantes e datas dos fluxos de caixa futuros das vendas previstas e dos passivos da locação”. Isto significa que quando o item coberto varia num sentido — neste caso a desvalorização do dólar que retira valor às receitas recebidas nessa moeda — o instrumento de cobertura varia no sentido oposto.
A perda cambial provocada pela queda do dólar face ao euro na receita da TAP impactou negativamente os resultados semestrais em 47 milhões de euros que foram levados à demonstração de resultados. Mas o outro lado da moeda, neste caso a valorização do euro face ao dólar nos passivos, resultou num impacto positivo de 216 milhões de euros registado em outras reservas que foi reconhecido no capital próprio da TAP.
Concorrência pressiona receita por passageiro
O tema cambial não é contudo a única explicação para a perda de gás nos resultados da TAP. Apesar de o segundo trimestre ter permitido recuperar uma parte de um arranque de ano que a empresa reconhece ter sido negativo — em particular devido à greve da Portugália, há indicadores operacionais que não estão a evoluir de forma positiva.
É o caso do PRASK. A sigla inglesa do indicador que mede as receitas de passageiros divididas por lugar quilómetro oferecido está a cair, face ao mesmo período do ano anterior, há pelo menos cinco trimestres (desde o segundo trimestre de 2024). No segundo trimestre, a queda foi de 1,6% para 7,27 euros.
É o reflexo da pressão concorrencial nos principais mercados que a própria TAP assinala e que está a “condicionar a evolução das receitas unitárias” e considera que o “foco está em maximizar a qualidade das receitas nos principais mercados, através de load-factors fortes, tirando partido da vantagem geográfica e da rede única da TAP para manter a posição de liderança”.
Por outro lado, o CASK (custo operacional dividida por lugar-quilómetro), excluindo o combustível, está subir há dois trimestres, face a iguais períodos do ano passado. Os custos operacionais recorrentes cresceram 5,8% no segundo trimestre, sobretudo devido a custos com pessoal e custos operacionais de tráfego mais elevados. A ajudar esteve a redução do custo com o combustível.