O duplo compromisso implicava estar comprometido nos dois compromissos. Depois de golear a Arménia no fim de semana, Portugal visitava a Hungria com o objetivo claro de voltar a ganhar e encaminhar ainda mais o apuramento para o Campeonato do Mundo de 2026 — para isso, porém, era preciso comprovar de que as ideias de Roberto Martínez estão mesmo a atingir o seu melhor momento desde que o espanhol substituiu Fernando Santos como selecionador nacional.

Na verdade, com o élan claro da conquista da Liga das Nações, a Seleção Nacional atingiu em três jogos consecutivos um nível exibicional que ainda não tinha apresentado com Roberto Martínez — entre Alemanha, Espanha e Arménia, com final four e já esta qualificação, Portugal mostrou-se mais afirmativo, assertivo e objetivo do que nunca com o treinador espanhol. Depois de ter chegado a ter a cabeça a prémio antes de levantar o troféu em Munique, o selecionador nacional atravessava o período de maior confiança ao comando da equipa.

Ficha de jogo

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Hungria-Portugal, 2-3

Qualificação para o Mundial 2026

Puskás Arena, em Budapeste (Hungria)

Árbitro: Erik Lambrechts (Bélgica)

Hungria: Balázs Tóth, Loic Négo, Willi Orbán, Attila Szalai, Milos Kerkez (Márton Dárdai, 90′), Callum Styles (Milán Vitális, 82′), Bendegúz Bolla (Zsombor Gruber, 90′), Dominik Szoboszlai, Alex Tóth (Dániel Lukács, 60′), Zsolt Nagy (Bence Otvos, 60′), Barnabás Varga

Suplentes não utilizados: Dénes Dibusz, Péter Szappanos, Attila Osváth, Áron Csongvai, Gábor Szalai, Barna Tóth, Bence Dardai

Treinador: Marco Rossi

Portugal: Diogo Costa, João Cancelo, Rúben Dias, Rúben Neves, Nuno Mendes, João Neves (João Palhinha, 79′), Vitinha (António Silva, 87′), Bruno Fernandes (Francisco Trincão, 66′), Pedro Neto (João Félix, 79′), Cristiano Ronaldo (Gonçalo Ramos, 87′), Bernardo Silva

Suplentes não utilizados: José Sá, Rui Silva, Nuno Tavares, Renato Veiga, Pedro Gonçalves, Gonçalo Inácio

Treinador: Roberto Martínez

Golos: Barnabás Varga (21′ e 84′), Bernardo Silva (36′), Cristiano Ronaldo (gp, 58′), João Cancelo (86′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Barnabás Varga (56′), a João Neves (77′), a João Palhinha (90+6′)

“Temos muito talento individual, depois de trabalhar juntos, experimentar aspetos táticos, olhar para dinâmicas, para ligações. É o 32.º jogo desde que estou aqui e isso cria um aspeto diferente. Não é o mesmo… O Europeu que tivemos na Alemanha e depois ganhar a Liga das Nações, tudo isso faz parte. Aumentámos o grupo, há uma maior competitividade, personalidade, vemos isso nos jogadores que saem do banco para fazer a diferença. Tudo isso é muito importante. Estamos a falar da Hungria, que tem um selecionador já tem 77 jogos. Vamos defrontar uma equipa que tem ideias claras e o desafio é muito claro também: continuar a crescer, mostrar competitividade e mostrar um desempenho como aquele que apresentámos contra a Arménia”, atirou Roberto Martínez na antevisão da partida.

Assim, na Puskás Arena de Budapeste, o selecionador nacional só fazia duas alterações face ao onze que defrontou a Arménia: saíam Gonçalo Inácio e João Félix, entravam Rúben Neves e Bernardo. O jogador do Al Hilal integrava uma espécie de trio de centrais com Nuno Mendes e Rúben Dias, sendo que João Cancelo e Pedro Neto apareciam nas alas e João Neves e Vitinha mantinham-se no meio-campo. Do outro lado, numa Hungria que tinha empatado com a Irlanda em Dublin na primeira jornada, Marco Rossi contava naturalmente com Dominik Szoboszlai e Milos Kerkez como titulares, apostando em Barnabás Varga como referência ofensiva.

Os primeiros instantes da partida mostraram desde logo que era Vitinha quem recuava para o eixo defensivo quando Portugal tinha a bola, com Rúben Neves a subir para o meio-campo, Rúben Dias a descair na esquerda, João Cancelo no lado contrário e Nuno Mendes a ser projetado na mesma ao longo do corredor. A equipa de Roberto Martínez ia dominando de forma clara, registando valores elevados de posse de bola e acerto de passe, mas demonstrava alguma falta de inspiração na hora de entrar no último terço, encerrando o quarto de hora inicial sem uma verdade oportunidade de golo.

De forma totalmente contrária, a Hungria conseguiu marcar na primeira ocasião em que se aproximou da baliza de Diogo Costa. Numa transição rápida perfeita, Szoboszlai conduziu pelo corredor central, abriu em Alex Tóth na esquerda e o avançado cruzou para a área, onde Barnabás Varga apareceu quase sem oposição a cabecear para abrir o marcador (21′). A reação portuguesa demorou cerca de dez minutos a evidenciar-se de forma clara, mas não foi preciso esperar muito mais do que isso para ver a Seleção Nacional a encostar o adversário às cordas.

Cristiano Ronaldo ficou muito perto de empatar com um desvio na área após cruzamento de João Neves (31′), Nuno Mendes cabeceou ao lado logo depois de João Neves atirar para uma defesa atenta de Balázs Tóth (32′) e Bernardo, ao contrário dos companheiros de equipa, não falhou: Neves cruzou prensado na direita, João Cancelo esticou-se para conseguir tocar para o jogador do Manchester City e este atirou certeiro para empatar o jogo (36′). Portugal não manteve o pé no acelerador depois de chegar à igualdade, contando-se apenas um pontapé de Cancelo que passou ao lado da baliza (41′), e já nada mudou até ao fim da primeira parte.

Ao intervalo, Portugal estava a empatar com a Hungria em Budapeste num jogo onde ia claramente tendo algumas dificuldades na hora do último passe ou da última definição, desperdiçando vários lances claros que podiam dar em oportunidades por uma escolha errada ou fora de tempo. Ao mesmo tempo, os húngaros apostavam claramente na transição rápida, defendendo com muitos elementos nos últimos 30 metros e soltando depois o contra-ataque de forma vertiginosa para as costas da defesa contrária.

Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo e a lógica do jogo mantinha-se: Portugal tinha a bola, a Hungria permitia que Portugal tivesse a bola. Os húngaros estavam claramente confortáveis com a ideia de ceder a posse ao adversário para depois disparar em contra-ataque e os portugueses iam apostando demasiado nos cruzamentos, uma ferramenta que não tinha consequências e era também o resultado da ausência de jogo interior.

Ainda antes da hora de jogo, porém, a Seleção conseguiu mesmo chegar à reviravolta. Loic Négo tocou com a mão na bola no interior da grande área da Hungria e Cristiano Ronaldo, na concretização da grande penalidade, não falhou (58′). Marco Rossi respondeu com uma dupla substituição, lançando Dániel Lukács e Bence Otvos, e Roberto Martínez apostou em Francisco Trincão praticamente na mesma altura e em detrimento de Bruno Fernandes.

A Hungria não reagiu propriamente ao golo sofrido, sublinhando-se apenas a subida no terreno do crónico Szoboszlai, mas Portugal também não tinha grande capacidade para asfixiar o adversário. João Cancelo ficou perto de marcar com um remate forte que Balázs Tóth defendeu (69′), mas escasseavam as oportunidades de golo portuguesas e os húngaros iam aproveitando para conquistar alguns metros e explorar o que parecia ser alguma falta de discernimento crescente na equipa de Roberto Martínez.

Já dentro dos últimos dez minutos e com João Palhinha e João Félix já em campo, a apatia foi castigada e o empate apareceu mesmo: Loic Négo cruzou na direita, a bola passou pelo primeiro poste e por Rúben Dias e Barnabás Varga surgiu a cabecear na antecipação a Rúben Neves para bisar (84′). A reação, porém, foi imediata. João Cancelo recuperou uma bola em zona adiantada, combinou com Vitinha e Bernardo e recebeu novamente à entrada da grande área para atirar colocado e recuperar a vantagem (86′).

Portugal sofreu, mas conseguiu vencer a Hungria em Budapeste, somando a segunda vitória em duas jornadas do apuramento para o Campeonato do Mundo e assumindo ainda mais a liderança do Grupo F. Numa dupla jornada em que marcou dois golos e fez duas assistências, João Cancelo voltou a evidenciar-se como um dos principais elementos da Seleção Nacional e tornou-se decisivo numa fase em que o jogo facilmente poderia ter fugido.