Durante umas férias de família na República Dominicana, em fevereiro de 2024, o antigo primeiro-ministro britânico Boris Johnson tirou um dia para viajar até Los Roques, um arquipélago no norte da Venezuela venezuelano, para uma reunião com Nicolás Maduro. Nos seus anos como inquilino do número 10 de Downing Street, Boris chegou a referir-se ao presidente venezuelano como o “ditador de um regime malvado”. Agora, o The Guardian revela que Johnson terá recebido 240 mil libras (cerca de 300 mil euros) pela sua presença na reunião. Havia um terceiro participante na reunião que durou 45 minutos: Maarten Petermann, o gestor de um fundo de capital de risco.
O encontro de fevereiro do ano passado — realizado quando Johnson já estava afastado de funções há dois anos — terá servido para abrir uma via diplomática alternativa com a Venezuela. O regime chavista vivia um dos seus momentos mais críticos, após Maduro ter bloqueado a candidatura da oposição às eleições presidenciais.
Os ficheiros obtidos pelo jornal inglês revelam que Boris Johnson assinou um contrato, em setembro de 2023, com a Merlyn Advisors, empresa do ex-banqueiro do JP Morgan sediado em Londres. O contrato referia que, para esta consultora, o primeiro-ministro “interag[ia] com várias partes interessadas nacionais e internacionais que beneficiariam das perspetivas e experiências”.
O vínculo previa que por cada reunião o antigo líder do partido conservador britânico recebesse 200 mil libras (cerca de 234 mil euros), num total que podia ascender aos 1,6 milhões de libras (1,87 milhões de euros) anuais por oito reuniões. O The Guardian teve acesso a uma fatura enviada por Boris Johnson à Merlyn Advisors no valor de 200 mil libras (à qual acresciam mais 40 mil), que datava de 15 de março de 2024, semanas depois da reunião. Apesar de todas as indicações nesse sentido, o jornal inglês reconhece que não conseguiu provar que a transação é um pagamento pela presença na reunião com Maduro.
De acordo com a informação obtida, o contrato com Johnson tinha a duração de dois anos e entrou em vigor em outubro de 2023, menos de seis meses antes da reunião com Maduro. A Merlyn Advisors também se comprometia a 35 mil libras por mês (mais de 40 mil euros) para apoiar um think tank que Boris Johnson estava a ponderar criar no Reino Unido. Em resposta ao The Guardian, Maarten Petermann disse não ter comentários a fazer.
O que são os Boris Files?
Boris Johnson também não respondeu diretamente sobre o alegado pagamento pela reunião com Maduro, mas abordou outras suspeitas de que é alvo. Isto, porque os documentos que comprovam o recebimento de 240 mil libras em maio de 2024 fazem parte de um fuga de informação com origem no gabinete do antigo líder conservador que deu origem a uma investigação apelidada Boris Files.
Boris Johnson demitiu-se do cargo de líder do governo britânico em julho de 2022. O que precipitou a decisão foi uma onda de demissões do seu executivo e do grupo parlamentar conservador, após Boris ter promovido Chris Pincher a vice da bancada torie, mesmo quando já eram conhecidas denúncias de que este era alvo por assédio sexual. Mas esta seria apenas a última gota de água numa sequência de casos, nomeadamente o ‘Partygate’, que foram desgastando o seu governo.
A recente fuga de informação do seu gabinete também revela documentos que datam do seu tempo à frente do executivo e levanta dúvidas sobre reuniões secretas e não declaradas oficial assim como possíveis violações das regras de confinamento da Covid, durante a pandemia. No entanto, segunda grande revelação desta investigação do The Guardian é que Johnson terá feito um uso indevido do subsídio público para despesas de representação de que beneficia enquanto antigo chefe de governo. Para financiar o seu gabinete privado, os antigos primeiros-ministros britânicos podem reclamar até 115 mil libras (mais de 130 mil euros) por ano, além de outros subsídios para gastos com salários dos seus funcionários. Em reação à investigação, Boris Johnson disse: “Esta história é um lixo”.
Boris garante que o dinheiro dos contribuintes para os custos de representação “tem sido utilizado inteiramente de acordo com as regras“. O subsídio em causa serva para custos administrativos “derivados da posição especial na vida pública” dos primeiros-ministros e não pode ser gasto em segurança ou para financiar interesses privados. Os dados obtidos mostram que todos os três funcionários a tempo inteiro do atual gabinete de Boris Johnson estão envolvidos nos seus negócios empresariais, levantando dúvidas sobre a utilização da subvenção.
Há outros antigos primeiros-ministros britânicos que reclamam o subsídio em causa para os seus gabinetes privados. Entre eles, John Major, Tony Blair, Gordon Brown, David Cameron e Theresa May e até Liz Truss, que esteve apenas 49 dias no número 10 de Downing Street. No passado, a subvenção dos gabinetes de Tony Blair e David Cameron também levantaram polémica devido às atividades a que estes governantes se dedicaram depois de saírem da política.
No caso de Boris Johnson, o regulador britânico que monitoriza as carreiras profissionais de antigos ministros (Acoba) chegou mesmo a intervir. Semanas após a reunião com Maduro, os reguladores quiseram saber qual era a relação de Johnson com a empresa de Maarten Petermann. O antigo líder dos conservadores britânicos disse à Acoba que não se tinha reunido com a Merlyn Advisors nos seus dois últimos anos como primeiro-ministro.
Os documentos obtidos pelo The Guardian revelam agora que Johnson e Petermann tiveram um almoço de duas horas e meia na última semana do mandato do primeiro-ministro conservador, sem respeitar as normas de transparência para situações semelhantes. Surgem agora fortes dúvidas sobre se Boris Johnson terá mentido nas suas declarações ao regulador, a quem tinha negado ter um relação contratual com a Merlyn Advisors.
O responsável máximo da Acoba já tinha assinalado na altura que Johnson tinha sido “evasivo” nos seus esclarecimentos sobre o caso e que tinha faltado à verdade. O conservador Eric Pickles concluiu que existia uma “preocupação razoável” de que o antigo primeiro-ministro estivesse a agir em nome da Merlyn Advisors “numa função que poderia ser considerada consultoria” e a quebrar as regras por não responder às perguntas do regulador.