Pais de crianças com deficiência saíram esta quarta-feira insatisfeitos de uma reunião no Ministério da Educação, Ciência e Inovação lamentando ter de ficar “mais um ano à espera” de eventuais mudanças nas escolas sem condições para os seus filhos.

“Não saímos satisfeitos”, disse aos jornalistas Lourenço Santos, fundador do Movimento Inclusão Efetiva, no final de um encontro com o secretário de Estado Adjunto e da Educação, Alexandre Homem Cristo.

Apesar de estar agendada apenas para a próxima semana uma reunião entre a tutela e o movimento, o secretário de Estado recebeu esta quarta-feira alguns pais que estiveram concentrados em frente ao MECI em protesto pela falta de professores, auxiliares e técnicos especializados nas escolas. No entanto, os representantes saíram descontentes do encontro.

“Estas crianças não podem continuar à espera nem ficar reféns de estudos ou de eleições. As respostas são urgentes”, disse Lourenço Santos, explicando que o secretário de Estado “disse conhecer as dificuldades, mas aguarda pelas conclusões do estudo pedido ao ISCTE” que deverão ser conhecidas em outubro.

O estudo servirá de bússola para eventuais alterações legislativas, cujas medidas serão implementadas apenas no próximo ano letivo. “Mais um ano que temos de ficar à espera”, desabafou Lourenço Santos.

“Mais uma vez, teremos de esperar mais uns meses para verificar se as alterações serão úteis para os nossos filhos”, criticou o pai de um menino de 10 anos que tem apenas duas horas semanais com uma professora de educação especial numa escola da Bobadela.

Também Gina Veríssimo ficou desapontada com os resultados do encontro. O filho autista também frequenta uma escola na Bobadela, onde os apoios ficam muito aquém das necessidades.

“Ele está no 3.º ano e ainda não sabe ler”, contou à Lusa a mãe que sabe que o menino é, por vezes, “mal tratado pelos colegas porque não há auxiliares nos recreios”.

“Houve uma vez em que a professora se apercebeu que ele estava a ser maltratado no recreio e foi a correr para o socorrer, mas isto não é solução”, recordou.

A escola de Daniel tem uma unidade de ensino especial, mas o menino só tem direito a frequentá-la durante duas horas por semana, além dos 45 minutos por semana com a terapeuta da fala.

“Eu tenho dois empregos para conseguir pagar as terapias em falta, mas nem todos os meses o posso colocar em tudo. Quando vendo uma casa, ganho mais um dinheiro e ele tem mais umas terapias”, disse à Lusa, contando que se o menino frequentasse as terapias necessárias a família gastaria cerca de 600 euros mensais.

Gina Veríssimo explicou que as terapias do Daniel foram há anos definidas pelo Hospital Dona Estefânia, que num relatório apontou a necessidade de três horas de terapia da fala e duas horas de terapia ocupacional semanais.

“Quando cheguei à Segurança Social a funcionária disse-me que só tinha direito a uma hora e tinha de escolher que terapia queria. Eu disse-lhe que isso era o mesmo que dizer a uma criança que tem de escolher com que perna quer andar”, recordou a mãe, sublinhando que a funcionária ficou sensibilizada com o caso, mas “não estava nas suas mãos”.

Há três anos que Daniel não tem terapia ocupacional porque os rendimentos da família não o permitem, mas a mãe diz existirem casos bem mais dramáticos, como “as crianças surdas-mudas que não têm um único amigo para brincar porque os meninos não sabem como falar com eles”.

A implementação de Língua Gestual nas escolas para que “todas as crianças surdas possam estar integradas na sociedade” foi uma das propostas apresentada pelo Livre, recordou esta quarta-feira a deputada Filipa Pinto, que esteve presente no protesto.

Dezenas de famílias manifestaram-se esta quarta-feira para exigir condições para os filhos com necessidades educativas que estão em escolas sem professores nem funcionários suficientes, lembrando que “exclusão é solidão” e que a legislação não está a ser cumprida.

O decreto-lei de 2018 impõe às escolas a elaboração de Relatórios Técnico-Pedagógicos, a intervenção de equipas multidisciplinares e a adoção de medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão, mas os pais garantem que tal nem sempre acontece.

Em declarações aos jornalistas, o ministro da Educação admitiu esta quarta-feira existirem falhas na educação inclusiva e prometeu reforçar os meios.