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A Microsoft cancelou o acesso das forças armadas israelitas (IDF, na sigla inglesa) a um programa de vigilância desenvolvido pela empresa e que era usado pelas IDF para vigiar “chamadas telefónicas de civis palestinianos todos os dias em Gaza e na Cisjordânia”, avançou o jornal britânico The Guardian.
O jornal, citando fontes próximas, escreve que a empresa norte-americana de informática informou Israel que a agência de elite de espionagem das IDF, conhecida por Unidade 8200, “violou os termos de serviço da empresa ao armazenar uma vasta quantidade de dados de vigilância na sua plataforma de nuvem Azure”.
O The Guardian, numa investigação conjunta com a publicação israelo-palestiniana +972 Magazine e o órgão de comunicação social israelita Mekomit, tinha avançado a 6 de agosto que esta unidade estava a “armazenar e processar” um arquivo de cerca de oito mil terabytes de “comunicações palestinianas num programa de vigilância em massa” na plataforma na nuvem da empresa Azure.
A Unidade 8200 usava uma área personalizada e segregada da Azure para armazenar estas comunicações por “um período alargado de tempo“, sendo o arquivo depois analisado com tecnologias usando inteligência artificial. Todo o repositório das chamadas na nuvem estava armazenado num centro de dados da Microsoft nos Países Baixos. Pouco depois da reportagem de agosto, as forças israelitas moveram todos os dados para fora do país, ainda no início do mês.
Depois da revelação, a empresa norte-americana terá sofrido intensa pressão interna, quer de funcionários, quer de investidores. Edifícios da empresa nas cidades norte-americanas de Seattle e Redmond. e no próprio centro de dados nos Países Baixos, perto da localidade de Middenmeer, foram alvo de fortes protestos de antigos funcionários e de ativistas.
Num e-mail a que o jornal britânico teve acesso, o presidente da Microsoft Brad Smith assegurou que tinham terminado uma “série de serviços prestados a uma unidade do Ministério da Defesa de Israel”, garantindo ainda que “não fornecem tecnologia para facilitar a vigilância em massa de civis“.
“Temos aplicado este princípio em todos os países do mundo e temos insistido nisto repetidamente por mais de duas décadas”, continuou.
Mesmo antes de julho, os três órgãos noticiosos tinham exposto que a Microsoft e as IDF estavam a aprofundar a colaboração, incluindo o uso da Azure e das ferramentas de inteligência artificial, para os vários braços das forças, incluindo a Unidade 8200.
Em maio, lê-se, a empresa disse ter não ter encontrado “nenhuma evidência” de que os termos de serviço tinham sido quebrados pelas IDF. Porém, depois das revelações entretanto desenvolvidas sobre a colaboração, os alarmes soaram e o tom mudou.
No e-mail de Brad Smith, o presidente sublinhou a sua “gratidão” ao jornal pelas suas descobertas, que trouxeram à superfície “informações que não podiam aceder” devido aos seus “compromissos de privacidade dos clientes“.
Apesar do cancelamento, fontes na espionagem israelita garantiram que os dados que tinha recolhido não iam ficar órfãos. O Guardian apontou que a Unidade 8200, queria agora transferir estes dados para os serviços de outra empresa norte-americana: a plataforma de nuvem da Amazon Web Services. Nem as IDF, nem a Amazon, comentaram o assunto.