Quando Donald Trump ganhou as eleições americanas, em 2016, Jens Stoltenberg não queria acreditar. À época era ainda secretário-geral da NATO e estava preocupado com o que vinha aí, por saber que Trump considerava a NATO “obsoleta”. Na primeira chamada telefónica, ficou tranquilizado: pareciam estar ambos na mesma página sobre alguns dos assuntos mais importantes que teriam de debater. Mas dois anos depois, Stoltenberg iria viver um dos momentos mais difíceis do seu mandato: “Esta pode vir a ser a reunião em que a NATO é arruinada”, pensou.

Sete anos depois, Stoltenberg escreveu toda a história da sua relação com Donald Trump no livro “On My Watch — Leading Nato In A Time Of War” (que em português pode ser traduzido como “No meu turno — Liderar a NATO em tempo de guerra”), publicado este mês, do qual o The Guardian publicou um excerto. Na obra lê-se que assim que soube que Trump se ia tornar o próximo Presidente dos EUA, deu instruções claras a todos aqueles que partilhavam gabinete com ele.

“Deixei claro que suspiros por exasperação em reuniões internas seriam inaceitáveis. Não haveria revirar de olhos aos tweets ou às aparições públicas de Trump; não haveria risadas a propósito dos seus vídeos e não haveria piadas sobre golfe ou os seus trejeitos”.

Parecíamos “concordar em grande parte das questões cruciais”

A primeira vez que ouviu a voz de Trump foi pouco depois da sua eleição, em novembro de 2016. E aquilo que poderia ser uma chamada telefónica com algumas tensões, revelou-se, afinal, uma chamada produtiva, em que foram alcançados alguns meios-termos, recorda Stoltenberg: “Sou um grande, grande, grande fã da NATO! Estou ansioso por trabalhar consigo”, disse o novo Presidente norte-americano. O responsável pela NATO assume ter sido apanhado de surpresa, porque esta afirmação ia contra as declarações de Trump (ainda durante a campanha eleitoral) de que esta era uma organização”obsoleta”.

“Fiquei um pouco chocado por parecermos concordar em grande parte das questões cruciais. Trump achava que os países europeus tinham de gastar mais com a Defesa: ‘Nisso concordo plenamente consigo’, respondi. A NATO precisava de estar mais bem preparada na luta contra o terrorismo, disse Trump. ‘Nisso concordo plenamente consigo’, respondi novamente. Trump também queria ouvir a minha opinião sobre as pessoas que estava a considerar para cargos-chave. Fiquei surpreendido, mas não o contradisse”, escreve o antigo secretário-geral. E detalha que concordou com a escolha de Rex Tillerson para secretário de Estado e Jim Mattis para secretário da Defesa.

No livro que agora assina, Stoltenberg assume que após essa primeira conversa sentiu “que o futuro parecia mais promissor”. “Como muitos outros, sempre discordei das opiniões de Trump sobre as alterações climáticas, o direito ao aborto e a política comercial, mas o conteúdo do que ele disse sobre a NATO na nossa conversa era algo com que eu concordava.”

Foi quase um ano depois, em abril de 2017, que finalmente esteve frente a frente com o líder da Casa Branca. Estava preparado para um cumprimento forte e com uma duração algo longa (como aconteceu com o antigo primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, e com o ex-primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau). Stoltenberg esperava um aperto de mão semelhante, mas isto não aconteceu — e até deixou o líder da NATO desapontado.

Neste encontro começa a surgir o primeiro foco de tensão entre ambos. Trump saltava de tema para tema rapidamente e decidiu focar-se bastante na ameaça russa e no perigo que a Coreia do Norte representava. “Mas porque é que vocês da NATO não podem juntar-se a nós relativamente à Coreia? Eles estão a desenvolver armas nucleares, e isso é algo que não podemos aceitar”, disse Trump a certo ponto.

Stoltenberg ficou confuso: “Não tinha a certeza do que ele queria dizer. Queria que a NATO interviesse na Coreia do Norte?”. A seguir responde-lhe que “todos os aliados estão preocupados com as armas nucleares”. “Mas não creio que haja apoio para bombardear a Coreia do Norte”, disse.

A partir deste momento, Trump não só deixou claro que países (e porque motivos) considerava um perigo, como abriu a porta à necessidade de se aumentar os gastos em Defesa. O tema surgiu, pelas mãos de Donald Trump, em vários encontros que se seguiram.

Foi o caso da cimeira da NATO, em julho de 2018, quando Donald Trump afirmou: “Vinte e três dos 28 países da NATO ainda não estão a pagar o que devem pela sua Defesa… Isto não é justo para o povo e para os contribuintes dos Estados Unidos.”

“Vou sair desta reunião. Não há mais motivos para continuar aqui”, disse Trump

No final da cimeira, quando os países achavam que o encontro estava quase a terminar, o líder do EUA afirma que a NATO é importante, mas “é bem mais importante para a Europa dos que para os Estado Unidos”. À época, Stoltenberg considerou isto um aviso claro: Trump estava a questionar, indiretamente, porque é que o seu país devia continuar a pagar para manter uma organização se não precisa realmente dela.

“Fez-se silêncio à volta da mesa. Trump continuou a falar longamente sobre o desequilíbrio comercial com a União Europeia… E depois vieram mais críticas à Europa”, escreve o antigo líder da NATO, lembrando que a seguir Trump foi ainda mais duro. ” Tenho muito respeito pela Europa. Tenho muito respeito pelo secretário-geral, que conseguiu angariar mais dinheiro. Mas é muito pouco em comparação com o que precisamos… Vocês têm de pagar a vossa parte”, deixou claro, acrescentando que a situação que a NATO estava a viver não podia continuar.

“Não quero que as pessoas saiam desta reunião a dizer que todos saíram daqui felizes. Eu não estou feliz… Vocês têm que pagar. Dois por cento [de investimento na Defesa] é muito pouco. É uma piada! Vocês precisam de ter como meta quatro porcento se quiserem proteção adequada” por parte dos EUA, continuou Trump.

A tensão estava a aumentar, tendo até Angela Merkel, à época chanceler alemã, dito ao ouvido de Stoltenberg que era necessário responder à provocação. “Não podemos simplesmente deixar passar”, disse-lhe. O secretário-geral da NATO escreve agora que “era evidente que Merkel temia que a reunião acabasse por ficar fora de controlo”.

Depois de um breve intervalo, a cimeira retoma e Trump deixa claro: “Vou sair desta reunião. Não há mais motivos para continuar aqui.”

“Tudo vai desmoronar desmoronar, pensei. Olhei à minha volta. Todos os líderes estavam com expressões sérias. Todos compreenderam que as coisas estavam à beira do colapso — toda a cimeira e todas as declarações de acordo. Se um presidente americano diz que já não deseja defender os outros aliados e sai de uma cimeira da NATO em protesto, então o tratado da NATO e a sua garantia de segurança não valem muito. Esta pode ser a reunião em que a NATO é destruída, pensei. E isso está a acontecer sob a minha supervisão”, admite agora no seu livro o antigo líder da organização.

A seguir, Angela Merkel assumiu a palavra e fez magia: conseguiu fazer com que todos os líderes presentes aceitassem dar 2% do seu PIB para a Defesa até 2024. Mas, ainda assim, Trump continuava insatisfeito: a meta tinha de ser atingida ainda nesse ano.

E, nesse momento, é Mark Rutte, atual secretário-geral da NATO, quem fala: “Senhor Presidente, o senhor pediu-nos para gastarmos mais, e eu concordo consigo. E é exatamente isso que estamos a fazer. No ano passado, gastámos mais 33 mil milhões de dólares em defesa graças à sua liderança. Portanto, esta é uma boa notícia para o senhor.”

Stoltenberg achava que finalmente iria conseguir dar a reunião por terminada. Trump estava satisfeito com a notícia de Mark Rutte e tudo parecia estar a alinhar-se para que os aliados aumentassem o seu investimento. Mas, quando menos esperava, o primeiro-ministro dinamarquês levantou a mão, lembra o antigo secretário-geral. Lars Løkke Rasmussen pediu para falar. Sublinhou que “partilhar o fardo não se resume apenas a dinheiro”. “Trata-se de sangue e sacrifício. A Dinamarca é um país com apenas cinco milhões de habitantes e perdemos 45 soldados no Afeganistão, em resposta a um ataque aos Estados Unidos.”

Até hoje, Stoltenberg continua “surpreendido” com o desfecho da cimeira

O líder dinamarquês “estava claramente farto”, escreve Stoltenberg. “A sua voz tremia quando disse: ‘Em termos populacionais, a Dinamarca perdeu mais soldados no Afeganistão do que os Estados Unidos’. [E naquele momento diz que] se recusava a olhar nos olhos das famílias e dizer que as vidas dos seus entes queridos importavam menos porque a Dinamarca não tinha cumprido a meta de 2%.”

O episódio parecia uma cena de um filme, escreve o antigo líder da NATO. “Mas isto não era um filme — era a realidade. Percebi que tinha sido bom deixar que Løkke Rasmussen falasse. Ainda assim, sustive a respiração quando ele terminou. Trump permaneceu em silêncio”.

Imediatamente a seguir, o Presidente dos EUA deu uma conferência de imprensa para marcar o fim da cimeira. E, quando falou, fez questão de mostrar que tudo estava bem. “O compromisso dos Estados Unidos com a NATO é muito forte, continua muito forte, mas principalmente porque todos – o espírito que têm, a quantidade de dinheiro que estão dispostos a gastar, o dinheiro adicional que vão investir – tem sido realmente incrível de se ver. Ver o nível de espírito naquela sala é incrível”, disse, enquanto aproveitava para mencionar os 33 mil milhões de dólares que os países aliados irão gastar a mais.

“Até hoje, continuo surpreendido com a forma como Trump aceitou a conclusão da cimeira. Se ele tivesse levado avante a sua ameaça de sair em protesto, teríamos ficado a recolher os pedaços de uma NATO destruída. Acho que ele percebeu que estava a bater com a cabeça contra a parede com as suas exigências de aumentos orçamentais imediatos, mas, ao mesmo tempo, partiu de Bruxelas convencido de que teria mais dinheiro até ao ano novo”, partilha Stoltenberg.