“Estamos em campanha autárquica, vamos lá abrir esse episódio que estamos com pressa“. Foram assim que Mariana Mortágua entrou na campanha eleitoral, a apenas cinco dias das eleições autárquicas. Quis o destino que fosse em Leiria, junto à estação de comboios da cidade. Uma estação vazia que serve de mote para o Bloco de Esquerda tentar trazer para cima da mesa os “problemas concretos das vidas dos portugueses”.
Depois de semanas a bordo da flotilha no Mar Mediterrâneo e de ter sido detida por Israel, a coordenadora bloquista junta-se à campanha autárquica do Bloco de Esquerda. Chega discreta, ao lado de Marisa Matias e de outros dois dirigentes para encontrar algumas (mas não muitas) dezenas de apoiantes. Troca abraços à chegada enquanto chama pelo candidato apoiado pela coligação “o nosso especialista em comboios” antes de falar aos jornalistas.
O tema a discutir é a campanha autárquica e não a Palestina:“A campanha?”.“A andar”. “Boa, quero-vos ouvir”.
Poucos minutos, antes de visitar a estação e ouvir os problemas levantados pelos apoiantes (uma vez que quanto a passageiros, não estava nem um à espera para apanhar o comboio), Mariana Mortágua haveria de responder sobre a localização que tinha escolhido para se juntar à campanha bloquista.
Mariana Mortágua assegura que “voou para a campanha” e entrou no primeiro momento em que conseguiu e defende que a sua ausência em nada prejudicou o partido. O Bloco de Esquerda, insiste a coordenadora, “fica a ganhar quando soma vozes e caras” – como Marisa Matias, que substituiu Mortágua nas ações de campanha autárquica e como Andreia Galvão que assumiu o assento parlamentar do Bloco de Esquerda – à sua missão de “mudar o país”. Assim, a deputada única diz que regressa a Portugal “convicta” e com “muita energia”.
E responde a vozes críticas como a de Carlos Moedas (o autarca tinha acusado Alexandra Leitão de estar a esconder Mortágua da sua campanha, por ontem ter estado ausente do comício da candidata da coligação Viver Lisboa) :“Espero que me deem direito a descanso de 24 horas. Quanto a Carlos Moedas, terei o prazer de o presentear com a minha presença em Lisboa, muito em breve“.
Mortágua regressa para colar Ventura a Passos Coelho. “Chega consegue ser tudo: oposição e muleta do Governo”
Na estreia nesta campanha autárquica, a coordenadora do Bloco de Esquerda quis colocar temas como a mobilidade e a habitação em cima da mesa, mas as críticas acabaram por ser focadas nas medidas que vão sendo conhecidas do Orçamento do Estado (e nos entendimentos que o Governo vai ter que fazer para o aprovar).
Minutos antes, Isabel Mendes Lopes (que marcou presença em representação do Livre na ação de campanha da coligação entre o Bloco, o Livre e o PAN em Leiria) acusou Luís Montenegro de fazer “anúncios eleitoralistas” e lamentou a falta de informação sobre o Orçamento do Estado. E Mariana Mortágua aproveitou para apontar o dedo ao primeiro-ministro que faz anúncios do Orçamento de Estado que mais ninguém conhece” o que impede os partidos da oposição de fazer uma “análise orçamental”. “Gostaria e teria muitas coisas a dizer, mas não conheço e mais injusto que isso seria difícil“, remata.
A ação de campanha que marcou o regresso de Mariana Mortágua foi interrompida brevemente por um grande camião de campanha com a cara de André Ventura e algumas pessoas a bordo, com colunas que projetavam música e palavras de ordem que demoraram a passar pela estação ferroviária para atrapalhar as declarações da líder bloquista.
E isso serviu de mote para outra crítica. “O Chega consegue ser tudo, quer oposição, quer muleta do Governo” e lembra a presença de Passos Coelho nesta campanha autárquica: “Passos Coelho disse hoje que não é preciso linhas vermelhas com o Chega em política autárquica”, uma recomendação que Mortágua acredita “estender a todo o país”.
Ainda assim, considera “irónico” o timing político do regressos de Passos Coelho e do anúncio de Luís Montenegro. Recorda o passado da Troika e os cortes aos pensionistas para acusar o primeiro-ministro de querer “fazer esquecer o que o PSD fez sofrer (os mais idosos) no passado, quando Ventura e Passos estavam juntos com Montenegro no PSD”.
A Palestina em segundo plano. Mas para quem queria que não regressasse, responde: “Lamento, estou aqui. Estou de volta”.
Questionada pelos jornalistas sobre a petição que reuniu dezenas de milhares de assinaturas e que pedia ao Estado de Israel para não repatriar a deputada única do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua responde em apenas uma frase: “Lamento, estou aqui. Estou de volta”.
A coordenadora do Bloco de Esquerda foi parca em palavras sobre a Palestina. Depois de ter dado uma entrevista à RTP – onde defendeu mesmo que sentia “desprezo” André Ventura e Nuno Melo e acusou o ministro da Defesa de “colaborar” com Israel – quis “encerrar” o assunto em Leiria, com dois breves comentários.
Mariana Mortágua aproveitou para fazer um “agradecimento público” ao apoio consular que foi dado aos quatro portugueses que foram detidos por Israel. Mas esse agradecimento público aos serviços consulares e à diplomata portuguesa em solo israelita não se estende ao Governo. Quanto ao executivo, Mortágua insiste que só tem a “lamentar todas as ações políticas do Governo quanto à Palestina e as declarações públicas sobre a Flotilha”.
E quanto à petição ao Estado de Israel para não devolver a Mariana Mortágua, assinada por mais de 64 mil pessoas, a coordenadora do Bloco responde numa frase: “Lamento, estou aqui. Estou de volta”.