O Ministério Público francês pediu esta terça-feira penas de prisão suspensas entre três a 12 meses e multas de até oito mil euros para os dez arguidos — oito homens e duas mulheres — pelo assédio online a Brigitte Macron, mulher do Presidente francês, noticiou o Le Monde.
Os arguidos estão acusados de terem difundido comentários maliciosos, montagens, piadas e teorias da conspiração nas redes sociais sobre a sexualidade da primeira-dama francesa, nomeadamente a falsa informação de que seria uma mulher transgénero e que, na verdade, teria nascido homem sob o nome de Jean-Michel Trogneux, o seu verdadeiro irmão.
Entre os acusados, está Aurélien Poirson-Atlan — de 41 anos, professor e publicitário conhecido nas redes sociais como Zoé Sagan —, que pode receber a pena mais pesada: 12 meses de prisão com pena suspensa, oito mil euros de multa e a suspensão de todas as suas contas nas redes sociais num período de seis meses. Durante o julgamento desta terça-feira, Poirson-Atlan defendeu-se invocando “o humor” e “o espírito de Charlie”, numa referência à revista satírica Charlie Hebdo. Argumentou, ainda, que a sátira é “o ADN de França”.
Outra das figuras centrais do processo é Delphine Jégousse, de 51 anos, conhecida como Amandine Roy. A médium foi uma das primeiras a divulgar, em 2021, a teoria da conspiração de que Brigitte Macron “nunca existiu” e que o seu irmão teria assumido a identidade após uma transição de género. O vídeo publicado por Roy foi visto mais de quatro milhões de vezes e teve um papel determinante na difusão da mentira. Durante o julgamento, a arguida preferiu exercer o seu direito ao silêncio, afirmando que já se tinha “expressado longamente” em processos anteriores.
Alguns dos arguidos insistiram, também, que se tratou apenas de uma “sátira”. “Uma pessoa poderosa deve aceitar as críticas e os comentários sarcásticos”, afirmou um dos arguidos, Jérôme A., de 49 anos. Já o galerista Bertrand Scholler, também condenado, defendeu que o processo representa “um ataque à liberdade de imprensa por parte do Estado profundo mediático”.
O procurador Hervé Tétier classificou Aurélien Poirson-Atlan, Bertrand Scholler e Delphine Jégousse como os “instigadores da desinformação” e sublinhou o impacto das publicações no “crescimento de um movimento de ódio em linha” contra a mulher de Emmanuel Macron.
“A minha mãe já não sabe o que fazer para que tudo isto pare”. Filha de Brigitte Macron também testemunhou em tribunal
Durante a audiência, Tiphaine Auzière, de 41 anos, foi chamada a testemunhar. Nas suas declarações, a filha de Brigitte Macron — que é fruto do primeiro casamento com o banqueiro André-Louis Auzière — afirmou ter assistido a “uma degradação da saúde e das condições de vida” da mãe desde que o rumor começou a circular. “É importante estar hoje aqui para expressar os danos que a minha mãe sofreu. Vi uma mudança real e um deteriorar das suas condições de vida”, disse, acrescentando que “não passa uma semana sem que alguém lhe fale deste rumor”.
Tiphaine Auzière descreveu ainda o “impacto psicológico devastador” que as publicações tiveram em Brigitte. “A minha mãe já não sabe o que fazer para que tudo isto pare. Ela vive em constante alerta. É obrigada a ter cuidado com o que veste e com a sua postura porque sabe que a sua imagem pode ser utilizada indevidamente”, sublinhou. “Tudo isto gera-lhe ansiedade nas relações com as pessoas próximas, como os seus netos”.
A acusação considerou, assim, que a dimensão das publicações “ultrapassaram o limite do aceitável” no âmbito da liberdade de expressão, configurando o assédio continuado e atentando contra a dignidade pessoal da primeira-dama francesa. “As publicações não tinham qualquer propósito jornalístico ou humorístico legítimo. Visavam humilhar e desacreditar uma mulher em razão do seu género e da sua vida privada”, referiu a acusação.
O julgamento marca o culminar de quatro anos de rumores e teorias amplificadas pelas redes sociais e por influencers internacionais, entre os quais a norte-americana Candace Owens, autora da série Becoming Brigitte, vista por milhões de pessoas e alvo de um processo paralelo movido pelo casal Macron nos Estados Unidos.