Obras de arte, esculturas, fotografias, cassetes, guiões e relógios. Tudo o que pertencia ao ator norte-americano Gene Hackman vai ser leiloado em Nova Iorque no próximo mês e, apesar do valor de vários objetos começar em 10 dólares (pouco mais de oito euros), estima-se que o valor final ultrapasse o milhão.
Gene Hackman viveu as últimas décadas da sua vida no Novo México, estado no sudoeste dos Estados Unidos, onde, em fevereiro deste ano, foi encontrado morto aos 95 anos, juntamente com a sua mulher e o cão do casal. Betsy Arakawa, a mulher, de 65 anos, morreu de uma doença respiratória provocada por um vírus raro transmitido por roedores, e Hackman, que sofria de Alzheimer, terá morrido uma semana depois, por problemas cardiovasculares.
Mudou-se para Santa Fé à procura de um sítio calmo, onde pudesse rodear a sua vida de arte e natureza. Agora, tudo o que colecionou (e criou) vai ser leiloado pela casa de leilões Bonhams, revelou o The New York Times. “É uma coleção profundamente pessoal, que abrange categorias como arte contemporânea e pós-guerra, arte ocidental e nativa americana, fotografia e gravuras”, anuncia a casa de leilões numa publicação na rede social Instagram.
São mais de 400 itens, divididos em 120 lotes, que incluem arte como obras do próprio, memórias dos 40 anos enquanto presença ativa no cinema e objetos pessoais, como os seus óculos Ray-Ban.
O leilão vai ser dividido em vários dias. Começa a 19 de novembro, com o primeiro lote, que irá incluir as 13 obras de arte principais, em que estimam um total de dois milhões de dólares a alcançar. A segunda parte do leilão vai ser online, entre 8 e 21 de novembro, quando vão ser leiloados mais 59 lotes. A terceira e última parte do leilão será também online, de 24 de novembro a 4 de dezembro, com os 48 lotes finais.
Um autorretrato, dois óscares, rascunhos de um filme nunca lançado e um busto em bronze da mulher — os bens de Hackman que vão ser leiloados
A estrela do leilão poderá chegar aos 700 mil dólares (cerca de 605 mil euros): trata-se da obra Figure on the Jetty, de Milton Avery. Hackman comprou esta obra de arte em 1997 e torna-se agora a mais valiosa do seu leilão, entre outras que constituem a primeira ronda e que contam com autores como Auguste Rodin e Richard Diebenkorn.
O Óscar de “Melhor Ator” ganho em 1972, com o filme Operação França (The French Connection, em inglês), e o de “Melhor Ator Secundário”, ganho em 1993, com o filme Os Imperdoáveis (Unforgiven, em inglês) também vão ser leiloados, estimando-se que as licitações cheguem aos cinco mil dólares (pouco mais de quatro mil euros).
Enquanto ator reformado, Hackman não se dedicou apenas a adquirir arte, mas a criá-la. Obras pintadas pelo próprio, que retratam, principalmente, a natureza, entre paisagens montanhosas e pinturas de animais, serão leiloadas a partir dos 10 dólares (pouco mais de oito euros), mas podem atingir os três mil (cerca de 2.500 euros). No entanto, entre as obras com assinatura própria, talvez a mais importante seja o busto de bronze de Betsy, a sua mulher durante mais de 30 anos, que mantinha no seu estúdio e que também está incluído no lote.
Os objetos pessoais vão do relógio mais simples ao mais sofisticado, de fotografias antigas, a cadernos com peças de teatro, a telescópios, raquetes, máquinas de videojogos antigos e os seus óculos de sol. Além de bens materiais, várias notas pessoais, a maioria sobre arte, foram encontradas e serão também incluídas. “Arte: é boa quando a fazes bem, se conseguires… Mas pode ser ainda melhor se simplesmente a fizeres”, é o que se pode ler numa das anotações.
Por fim, como um dos atores mais marcantes da indústria norte-americana, não podia faltar o material cinematográfico. O leilão vai incluir inúmeros guiões de alguns dos filmes mais conhecidos do ator, como Mississipi em chamas (Mississipi Burning, em inglês) e Bonnie and Clyde, mas talvez o mais interessante seja de um filme que nunca fez: foi encontrado um rascunho de 33 páginas datado de 1988 para uma adaptação do romance O silêncio dos Inocentes, projeto que ele aceitou dirigir, mas que nunca concretizou, abrindo depois a oportunidade para Jonathan Demme o fazer em 1991.
O chefe de arte dos séculos XX e XXI do Bonhams elogia Hackman e o seu legado, tratando-o como artista, mais do que colecionador. “A sua abordagem do colecionismo reflete o cuidado, a sensibilidade estética e a disciplina evidentes na sua própria prática artística. É uma coleção formada com extraordinária consideração e paixão”, revela ao El País.
Ainda não se sabe quem serão os beneficiários do leilão, já que, apesar de Hackman ter três filhos do seu primeiro casamento com Faye Maltese, tudo indica que estes não constavam no testamento do ator.
Editado por Cátia Andrea Costa
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