“Esta coisa dos seguros é um tema de dono e não financeiro”. Belmiro de Azevedo quis ter dentro da Sonae, uma empresa corretora de seguros, a MDS. Foi há 41 anos que nasceu esta empresa para servir um cliente, a Sonae. “O eng. Belmiro dava muita importância a esta área de risco, era uma questão estratégica e não considerada na área de compras”. É José Manuel Fonseca, CEO do MDS Holding, que recorda esses tempos iniciais quando foi convidado para a empresa por Belmiro de Azevedo a quem reportou diretamente até 2007. Nesse ano, Belmiro deixou a presidência executiva para o filho Paulo Azevedo.
Foi dentro da Sonae que a empresa cresceu. O percurso levou-a a adquirir ao longo da sua vida várias empresa. Quando Belmiro Azevedo contratou José Manuel Fonseca, conta agora o gestor num encontro com a imprensa, reconheceu que na Sonae — que se tornara um grupo grande e internacional — havia quem considerasse que a MDS não tinha capacidade para esse negócio. “‘Mas eu quero que seja a MDS'”, disse Belmiro, que lançou a solução: “‘A forma de se resolver a questão é vocês serem líderes de mercado”. O desafio estava lançado e foi conseguido em 2006 “até hoje”, garante José Manuel Fonseca, que fala do negócio de corretagem de seguros (mas hoje faz questão de realçar que a MDS é muito mais do que uma corretora de seguros).
A MDS era uma empresa do Porto, pouco conhecida e tinha poucas pessoas. Chegou a primeira aquisição, um broker de internet [como se dizia] em Paris. Queria vender seguros virtualmente e vendeu… 300. “Aprendemos muito”. A empresa desviou o foco para a área de seguros afinidade (para grupos). Em 2002 a empresa continuava, no entanto, pequena. Até que deu um passo relevante nesse ano com a entrada na corretora brasileira Lazam, onde estava associada à gigante de pasta e papel Suzano. Nesse ano no Brasil a empresa faturou 1,6 milhões de reais, hoje atinge os mil milhões.
Continuou, ao longo dos anos a fazer aquisições: a aquisição do corretor Unibroker ao grupo Amorim tornou a MDS líder em Portugal em 2005. O objetivo de Belmiro de Azevedo tinha sido conseguido. Em 2007 ainda adquiriu a participação de 32% da londrina CooperGay que foi a maior compra na área de seguros por parte de uma empresa portuguesa no estrangeiro.
Antes de nova viragem em 2022, a MDS ainda esteve na criação da Brokerslink, uma rede de corretores de seguros de distribuição mundial — hoje cobre 140 países e tem um volume de prémios de 75 mil milhões de dólares. O Grupo MDS continua acionista desta rede de corretagem que permite uma cobertura mundial — em cada país só um corretor pode aderir à rede.
Chegados a 2022, a MDS foi adquirida pelo grupo inglês Ardonagh. Dois anos depois de Sonae e Suzano terem começado a pensar na ideia de vender o negócio. Foi adquirida, mas não engolida, diz agora José Manuel Fonseca. A MDS continua com a marca e a mesma equipa de gestão, a trabalhar autonomamente mas inserida num grupo grande. “O que não é muito comum”, admite o gestor. Desde então a MDS fez 41 aquisições, num investimento global de 400 milhões de euros. Gere hoje negócios na Europa (Portugal, Espanha, Suíça, Chipre), na América Latina (Brasil, Chile) e nos Estados Unidos. Além do negócio em África que também é da sua responsabilidade.
Não põe de parte continuar a crescer por aquisição. Há muitos alvos identificados, nomeadamente em Portugal, Espanha e no Brasil (onde há 120 mil corretores). “A oportunidade existe”. A venda de seguros é um negócio muito fragmentado, sendo feito, no caso português, em 20% por corretores e em 80% pelas seguradas (sendo 60% mediante agentes). Novos mercados estão também já identificados — México, Colômbia e Peru. Os parceiros que estão na rede da Brokerslink são potenciais alvo. “Elegíveis e preferenciais”, admite o CEO da MDS Portugal, Ricardo Pinto dos Santos. Estão cerca de 70 empresas identificadas, assume a MDS, indicando que não há um orçamento fixo para essas aquisições, que podem acontecer a um ritmo de 10/15 por ano.
O grupo MDS, que hoje tem cinco áreas de negócio (corretagem, consultoria de risco, corretagem de resseguro, gestão de cativas e consultoria), espera chegar ao fim do ano com receitas de 260 milhões de euros, sendo 80 milhões em Portugal. O Brasil representa 54% do seu negócio, seguindo-se Portugal com 31%. África pesa 5%, ficando o restante em outras geografias (Espanha, Suíça, Chipre, Chile, México, Malta, Estados Unidos e China). Tem sob gestão prémios superiores a 3 mil milhões de euros.