A libertação dos quase três mil milhões de euros provenientes da venda do Chelsea continua bloqueada há mais de três anos devido a um litígio jurídico entre Roman Abramovich e o Governo da ilha de Jersey, e não apenas pela alegada resistência do ex-proprietário do clube em aceitar que os fundos fossem utilizados exclusivamente em projetos humanitários na Ucrânia, noticiou o Telegraph.
O impasse, que se mantém desde a venda do clube ao consórcio liderado por Todd Boehly e Clearlake em 2022, tem agora contornos mais claros após Abramovich levantar uma ordem de privacidade que impedia a divulgação de detalhes do processo. Documentos citados pela publicação britânica revelam que o desacordo com Jersey desempenha um papel central na retenção dos fundos, inicialmente prometidos pelo oligarca para apoiar “todas as vítimas da guerra na Ucrânia”.
Em abril de 2022, um mês após Abramovich anunciar essa intenção, o Tribunal de Jersey decretou o congelamento de 7 mil milhões de dólares (cerca de 6 mil milhões de euros) em ativos ligados ao oligarca. Na altura, o procurador-geral de Jersey afirmou que Abramovich era suspeito num processo criminal e tinha ligações ao Presidente russo, Vladimir Putin. Acabou por ser sancionado pelo Reino Unido. Porém, meses depois, as autoridades admitiram que as buscas realizadas em propriedades associadas ao empresário tinham sido ilegais.
O cidadão português Roman Abramovich é um dos sete oligarcas russos sancionados pelo Reino Unido
A situação agravou-se quando Abramovich descobriu que dados governamentais relacionados com a investigação tinham sido apagados. Essa eliminação veio a público após conseguir, em tribunal, obrigar ministros e altos responsáveis da ilha a entregar mensagens privadas, e-mails e outros registos que mencionassem o seu nome. Na semana passada, o juiz David Michael Cadin deu razão a Abramovich, classificou o comportamento do Governo de Jersey como “extremo” e ordenou o pagamento das custas em tribunal do antigo dono do Chelsea. Cadin disse, ainda, que a conduta dos representantes do Governo foi “invulgar para qualquer litigante, quanto mais para um detentor de cargo público, e irrazoável“.
Jersey rejeita “categoricamente” acusações de conspiração contra Abramovich
Fontes próximas do Governo britânico admitem que este litígio tem sido constantemente levantado durante as tentativas de resolver o bloqueio ao fundo destinado à Ucrânia. Segundo o Telegraph, os advogados de Abramovich terão reiterado repetidamente que o caso com Jersey deve ser concluído antes de qualquer discussão sobre a libertação dos 2,66 mil milhões de euros. De acordo com fontes envolvidas nas negociações citadas pelo The Telegraph, este tem sido o principal entrave ao avanço.
A equipa jurídica do oligarca criticou a atuação das autoridades da ilha, acusando o procurador-geral de ter iniciado uma investigação “ilegítima e politicamente motivada”, destinada a melhorar a reputação de Jersey enquanto centro financeiro após a invasão russa da Ucrânia. Lembraram ainda que, anteriormente, o Governo local incentivou a entrada de capitais russos, posição que se tornou “politicamente inconveniente”. A defesa de Abramovich sublinhou que o tribunal já permitiu este ano a introdução de queixas formais de conspiração contra o Governo de Jersey.
Por seu turno, o executivo da ilha rejeitou “categoricamente” quaisquer acusações de conspiração, má conduta em funções públicas ou má-fé, classificando-as como “totalmente infundadas“. Acrescentou que sempre defendeu a transparência judicial, tendo-se oposto ao pedido de Abramovich para que o caso fosse analisado à porta fechada no Conselho Privado. Como o processo continua em curso, recusou prestar mais comentários.
Reino Unido ameaça processar Roman Abramovich sobre o dinheiro da venda do Chelsea
O Governo britânico, por seu lado, manteve a posição de que os litígios em Jersey são “da exclusiva responsabilidade” do Governo da ilha. Sublinhou, contudo, a determinação em assegurar que todo o dinheiro da venda do Chelsea chegue às causas humanitárias na Ucrânia. Em junho, já tinha manifestado “profunda frustração” por ainda não ter sido possível chegar a acordo com Abramovich.