Luís Marques Mendes sentou-se nos familiares estúdios da SIC e quis começar o primeiro debate com cumprimentos cordiais a fazer lembrar os tempos de comentador, incluindo uma referência à “estima pessoal” que sente pelo adversário do dia, António Filipe. Foi um início amigável para um debate que se previa morno, uma vez que os dois dificilmente partilharão eleitorado e que estavam, neste primeiro debate, a aquecer motores; ainda assim, a conversa animou e a meia hora de debate serviu para que os dois mostrassem diferenças e aperfeiçoassem o tom com que falarão aos seus potenciais eleitores daqui para a frente.

Para Marques Mendes, o objetivo era claro: falar em modo senatorial, com pose de futuro Presidente, tentando mostrar-se independente e lembrando a sua “vasta experiência” política sempre que possível. Para António Filipe, outro objetivo fácil de entender: falar ao eleitorado de esquerda, agarrando o setor comunista, e defender assim um perfil de Presidente focado nos problemas concretos das pessoas e dos trabalhadores. Assim, trocaram cognomes — Marques Mendes foi descrito como “o candidato do Governo”, António Filipe como “um candidato de fação” — sem que a animosidade chegasse a níveis (ou decibéis) demasiado elevados.

O primeiro tema tinha a ver com as leis laborais e expôs desde logo as diferenças expectáveis entre os dois: Marques Mendes disse-se “confiante e otimista” num acordo, voltando a aconselhar o Governo a puxar a UGT para as negociações e a desdramatizar a ameaça de greve geral; António Filipe declarou querer “impedir o pacote laboral”, compreendendo os “trabalhadores revoltados” com esta “enormidade”, que “inverte toda a lógica do direito do trabalho”.

Foi aqui que António Filipe lançou a primeira farpa — Marques Mendes “é o candidato do Governo em funções, está a defender a proposta do Governo” e deve ir recuperar o seu cartão de militante do PSD depois das eleições — e que o adversário contra-atacou — dizendo que o comunista é um “candidato de fação” e que está na “eleição errada”, uma vez que questões específicas sobre as leis laborais caberão ao poder legislativo.

No segundo tema, mais diferenças claras: para o comunista, a sessão de comemoração do 25 de Novembro é “claramente contra o 25 de Abril” e traduz-se numa forma de “reescrever a História e menorizar o 25 de Abril”; Marques Mendes falou em datas “importantes”, mesmo que o 25 de Abril seja “especial”, e disparou: “O António Filipe tem esta posição porque o PC foi o partido derrotado no 25 de novembro de 1975”.

Quando discutiam as prioridades para a eventual Presidência de cada um, Marques Mendes elegeu como valor essencial a estabilidade, que disse poder contribuir para preservar com a sua “vasta experiência política e governativa”; António Filipe preferiu falar da instabilidade vivida em concreto por quem tem dificuldade em aceder ao SNS ou pela falta de professores nas escolas. E se o país vivesse uma “deriva autoritária”? Marques Mendes nem quis pensar em tal cenário “tremendista”, embora garanta que seria “intransigente”; António Filipe admitiria uma demissão do Governo para proteger a saúde do regime democrático.

A convulsão à volta da privatização da TAP trouxe novo tema que destaca as diferenças políticas e ideológicas entre ambos: para o ex-líder do PSD, a necessidade de privatizar a companhia, uma vez que o Estado não pode injetar mais dinheiro, é de “elementar bom senso e conhecimento”, voltando assim a assumir a posição de candidato “experiente” e aparentemente acima de opiniões partidárias — “é matéria de facto”. Isso não impediu que o comunista o acusasse de fazer “parte do consenso neoliberal que contribuiu para o ponto a que as coisas chegaram”, criticando a forma como a privatização da TAP foi feita (e está a ser investigada) em 2015.

No último tema não haveria, como seria de prever, acordo possível: tratava-se da guerra na Ucrânia, com António Filipe a defender uma “mediação” que leve ao fim da guerra e Marques Mendes a aproveitar o terreno fértil para provocações — uma e outra vez foi perguntando ao adversário como é possível que “opte por Putin e não Zelensky” e não apele a Putin que saia do território ucraniano, atitude própria de um “Presidente que se preze”, ouvindo sempre do outro lado um pedido para que evitasse as “simplificações”. Não foi suficiente para convencer Marques Mendes, mas a posição de António Filipe e dos comunistas também não seria propriamente novidade para o adversário.

O diálogo mais revelador

António Filipe — O doutor Marques Mendes está do lado do Governo. Aliás, é o candidato do Governo em funções. Está a defender a posição do Governo, mas tem consciência da enorme gravidade desta proposta. Por isso, tem essa posição de procura de algum equilíbrio, mas que, no fundo, pretende que este pacote laboral passe com alguma negociação. É evidente que o Governo faz uma proposta maximalista para depois tirar algumas coisas e dizer que o que ficar é bom. Quando não é, tudo o que está em cima da mesa é profundamente lesivo.

Luís Marques Mendes — Quem ouve o discurso do António Filipe, parece que estamos numas eleições legislativas.

AF — Não.

LMM — Esta não é uma eleição para escolher Governos ou escolher deputados. O Presidente da República não governa nem faz leis, tem a sua magistratura de influência. Parece que o António Filipe está noutra eleição, mas isso é compreensível. O António Filipe é mais um candidato de fação do que um candidato que venha verdadeiramente unir o país.

AF — Essa agora.