O político que já foi visto como peça chave na ala de Sánchez do PSOE, é agora uma das personagens principais do caso que tem sido uma nuvem negra para o partido socialista espanhol. Santos Cerdán, o único ainda detido no âmbito de um esquema de corrupção associado a contratos de obras públicas, foi libertado da custódia policial esta quarta-feira de manhã, com as autoridades a considerarem “mínimo” o risco de o então número três socialista abandonar o país, noticia a imprensa espanhola.

O antigo responsável de organização do partido estava detido em Madrid desde dia 30 de junho e, desde então, a sua defesa tem sido incansável nos pedidos de libertação, alegando um “tratamento injusto” comparativamente às restantes personalidades que também estão a ser investigadas pelo Supremo Tribunal espanhol. O juiz terá aguardado pela conclusão de uma série de buscas que corriam em simultâneo nas instalações das entidades visadas neste processo. Agora, Santos Cerdán teve um alívio das suas medidas de coação, passando a ter de se apresentar a tribunal duas vezes por semana e o seu passaporte foi confiscado.

Esta decisão surge poucas horas depois de ter sido revelada ao público nova informação sobre a cronologia dos factos. De acordo com um documento enviado pelos investigadores ao tribunal, e obtido pelo El País, esta saga terá começado oficialmente um par de dias após a reeleição de Pedro Sánchez como secretário-geral do PSOE — uma eleição interna para a qual Cerdán terá sido crucial — em 2017. Num rescaldo da celebração socialista, esta figura próxima do atual primeiro-ministro terá se encontrado com o amigo e empresário Joseba Antxon Alonso e Justo Vicente Pelegrini, um dos responsáveis pela Acciona Construcción.

De acordo com documentos citados pelo jornal El País, o objetivo deste jantar no La Paloma, em Madrid, era lançar os planos para o projeto Mina Muga, uma mina em Navarra cuja conceção tinha vindo a encontrar sucessivas “barreiras administrativas”. A discussão à mesa terá sido frutífera, pelo que apenas seis dias depois, a Acciona assinou um contrato de 2,8 milhões de euros com a empresa Servinabar — de Antxon Alonso — em troca pela redação do plano de segurança do projeto que ainda estava a léguas de ser aprovado. O jornal recorda alegações que mencionam que Santos Cerdán detinha cerca de 45% das ações da empresa.

No ano seguinte, em 2018, o PSOE voltou ao governo e o antigo líder socialista na região de Navarra não perdeu tempo. No próprio dia em que José Luis Ábalos tomou posse enquanto ministro dos Transportes e da Mobilidade Sustentável, Santos Cerdán procurou avançar o projeto Mina Muga que não progredia há anos. A obra recebeu grande retaliação dos espanhóis por levantar várias questões ambientais, pelo que precisaria de uma autorização especial vinda do Ministério do Ambiente para o projeto se vir a materializar eventualmente — uma Declaração de Impacto Ambiental.

Foi precisamente com o endereço de email oficial do partido que o político próximo do primeiro-ministro se dirigiu ao novo governante. Porém, não foi diretamente à fonte. O contacto partiu de Santos Cerdán para José Guillermo Berlanga, um assessor socialista no parlamento de Navarro, e as instruções eram simples: “Imprime estas três páginas e entrega-as ao Koldo [García], que por sua vez irá entregá-las ao José Luis [Ábalos]”. De uma forma algo críptica, mas ainda assim bastante óbvia nos destinatários, Cerdán tinha algo a entregar ao assessor do novo ministro do primeiro governo de Sánchez.

De acordo com a ABC, que também teve acesso aos documentos entregues em tribunal, estas três páginas continham uma série de reuniões que deveriam ser agendadas pelo Ministério de Ábalos para garantir que os contratos para certos projetos públicos eram atribuídos, mas também um documento que deveria ser entregue ao Ministério do Ambiente, com o objetivo de fazer avançar o projeto Mina Muga. Como escreve o jornal, o assessor do ministro terá enviado os documentos também para um outro responsável na empresa de construção Acciona, Fernando Merino, que também está a ser investigado atualmente pelas autoridades espanholas.  Como o projeto de reabilitação daquela mina iria também afetar a região de Aragão, o contacto chegou também ao então presidente da Comunidade Autónoma, Javier Lambán — que morreu em agosto deste ano.

Assim, os responsáveis pela investigação admitem que apesar de as obras só terem avançado algum tempo mais tarde, em 2019, o projeto só começou a receber as autorizações governamentais assim que Ábalos tomou posse. O ministro do Transporte e da Mobilidade Sustentável reuniu-se com o presidente e com o CEO da Acciona cerca de um mês após ter assumido funções. Estes documentos, de acordo com o jornal, mostram que Santos Cerdán não foi apenas uma ponte entre as empresas e o governo, mas que também terá participado na “canalização de fundos desde a empresa de construção para Koldo García e José Luís Ábalos”.

Cinco obras adjudicadas, mais de um milhão de euros em comissões e a taxa fixa de 2%

Pouco mais de um milhão de euros. De acordo com a unidade de investigação da Guardia Civil, que teve acesso a escutas do assessor e ex-guarda-costas do então ministro, os envolvidos assinaram um acordo com valor superior a 1.070.000€ em comissões resultantes de cinco contratos de obras públicas atribuídos à empresa Acciona. Destes, a dupla apenas terá recebido pouco mais de 600 mil euros, com o resto ainda por pagar.  O esquema era relativamente simples. A Acciona receberia os contratos públicos, a Servinabar garantia uma comissão do projeto e os fundos eram canalizados para o gabinete do ministro.

A taxa definida pela Servinabar era fixa: 2% do custo total do projeto aprovado. “Se a Acciona Construcción recebesse o projeto, ambas as partes assinava um acordo de serviço específico associado àquele projeto de obras públicas. No entanto, os termos para os quais a empresa era contratada eram sempre descritos de forma muito genérica ou vaga”, cita o jornal ABC o relatório produzido pelas autoridades espanholas. Eram estes contratos que definiam o montante cobrado pela empresa de Antxon Alonso, e os investigadores encontraram extratos bancários relacionados com certas obras adjudicadas.

No total, cinco obras foram adjudicadas pelo Ministério de José Luís Ábalos à empresa Acciona. Duas terão sido na cidade de Múrcia, no sul do país. Cerca de 159 milhões de euros para a escavação da rede de metro da cidade, bem como outros 121 milhões para a construção de uma plataforma do corredor mediterrânico de alta velocidade. Os outros três contratos traduziram-se na construção de uma secção da autoestrada A-68, em La Rioja, por mais de 92 milhões de euros; a construção dos cabos da Ponte Centenária em Sevilha por outros 85 milhões e ainda o projeto de integração ferroviária em Sant Feliu de Llobregat, que custou mais de 62 milhões de euros.

Segundo os documentos citados pela ABC, a empresa de Antxon Alonso também terá pago a rende do apartamento do número três do PSOE até ao momento em que Santos Cerdán entrou na prisão no final de junho deste ano. O relatório redigido pela unidade de investigação da Guardia Civil e entregue ao juiz responsável pelo caso indica que em junho de 2018 — depois da aprovação da moção de censura a Mariano Rajoy — quando tomou posse o governo de Pedro Sánchez, a Servinabar começou a pagar a renda de um apartamento em Madrid.

De 2018 a 2025, a empresa terá pago mais de 44 mil euros pelo arrendamento deste apartamento, onde Cerdán viveu com a sua família durante todo este período. O relatório indica que esta não terá sido a única despesa de Santos Cerdán coberta pela Servinabar. Neste espaço de sete anos, a irmã e o cunhado acabaram por ser contratados pela empresa — em que 75% da receita produzida vinha dos contratos com a Acciona —, bem como a própria mulher de Cerdán, que também terá beneficiado de algumas ajudas financeiras vindas destes negócios.

Belén Cerdán, a irmã, foi contratada em 2020 através de uma segunda empresa, Erkolan. Apesar de apenas ter recebido cerca de 22 mil euros diretamente da Servinabar, a Erkolan recebeu quase 380 mil euros por mês ao longo dos últimos dez anos. Já o irmão da mulher de Santos Cerdán, Antonio Muñoz Cano, recebeu até 69 transferências num período de três anos, num total de 53 mil euros, como indica o jornal espanhol. Por fim, a mulher do socialista recebeu perto de 10 mil euros desde que se juntou à cooperativa Noran Coorp enquanto “sócio trabalhador” em 2018.