O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, considerou, esta sexta-feira, “gravíssimo” que as centrais sindicais tenham avançado para uma greve geral, marcada para 11 de dezembro, quando a reforma laboral apresentada pelo Executivo de Luís Montenegro ainda está a ser discutida. E atira, principalmente, à postura da UGT.

“A reforma laboral está a dar tanto barulho, não sei porquê. Se não fizermos uma reforma laboral que olhe para a digitalização e para a Inteligência Artificial, sem reformas na área fiscal, por exemplo, não podemos dar um futuro aos nossos jovens”, afirmou o governante no CNN International Summit, em Alcobaça.

Paulo Rangel considera “extraordinário” que se tenha marcado uma greve geral “nestas circunstâncias”, reforçando que a proposta de reforma laboral continua a ser discutida. “Parece-me algo gravíssimo e não beneficia nada a imagem das centrais sindicais“.

CGTP e UGT anunciam greve geral para 11 de dezembro contra a reforma da legislação laboral

Neste sentido, considera que a convocação da greve “no meio das negociações” está “completamente fora da ideia de moderação e responsabilidade e da UGT”. “Não temos medo da greve geral. Respeitamos as greves, é um direito dos trabalhadores. Mas achamos que estão a fazer mal”, afirmou o ministro.

“Ou estamos presos a um país do século XX e o país não cresce e os trabalhadores, por mais que tenham direitos na lei, não vão ter mais condições”, acrescentou Paulo Rangel, sublinhando a ideia que o país precisa de uma reforma no setor laboral. “Estamos a trabalhar para reformar Portugal”, disse.

“Este Governo quer reformar o país e o horizonte que quer dar às novas gerações é um país que possa crescer. Que possa crescer mais do que 2% — que no contexto europeu já é um feito, mas para nós não é suficiente”, sublinhou, referindo que para isso é preciso respeitar “aquelas que foram as escolhas dos portugueses no dia 18 de maio de 2025”.

“O problema da imigração descontrolada nem é de esquerda nem é de direita. É de Portugal”

No caso da imigração, Paulo Rangel defendeu que “é fundamental pôr ordem numa situação que é caótica”. “Embora esta matéria esteja diretamente ligada ao ministro da Presidência [António Leitão Amaro], tem também uma grande cooperação e um grande impacto no Ministério dos Negócios Estrangeiros. E aquilo que nós encontramos é de facto, uma coisa absolutamente impensável“, disse quando questionado sobre os números de imigrantes que chegam ilegalmente ao país.

“Nós precisamos de mão de obra, nós precisamos de trabalhadores que venham do estrangeiro, mas nós precisamos, em primeiro lugar, que eles sejam ajustados ao nosso mercado e que venham por vias legais, também para a defesa da sua própria dignidade. Isto é o que nós estamos a fazer”, sublinhou, reiterando que “isto nem é de esquerda nem é de direita”.

O chefe da diplomacia portuguesa criticou, ainda, os socialistas que acusam o Governo de apoiar uma bandeira do Chega. “O Partido Socialista talvez devesse olhar para alguns de seus congéneres para perceber exatamente o que é que isto significa. O problema da imigração descontrolada que nós tivemos nem é de esquerda nem é de direita. Quando se diz, ah, é uma bandeira do Chega, não é bandeira do Chega nenhuma. É um problema que Portugal está a viver e que tem de ser resolvido”, acrescentou.

“Há matérias em que a Justiça tem de ponderar as consequências dos seus atos”, diz Rangel sobre escutas a António Costa

Um dos temas da entrevista foram as escutas a António Costa, quando ainda era primeiro-ministro, sem a autorização do Supremo Tribunal de Justiça. Paulo Rangel recusou comentar qualquer “caso concreto”, mas garantiu que “há um princípio que é evidente e que é abstrato”.

“Um primeiro-ministro não pode ser escutado sem uma autorização do Supremo Tribunal de Justiça. E mesmo isso, tem de ser muito bem ponderado antes de ser autorizado. Ou seja, por vezes, diz-se que a Justiça é cega e não deve ponderar as consequências daquilo que está a fazer. Bom, há matérias em que a Justiça tem de ponderar as consequências dos seus atos”, afirmou.

O ministro dos Negócios Estrangeiros disse que “autorizar a escuta de um primeiro-ministro é sempre de uma delicadeza constitucional enormíssima e, portanto, obriga a uma ponderação seríssima”. “E, portanto, tem de haver motivos muito ponderosos para isso. Não pode haver escutas de primeiros-ministros sem, evidentemente haver a competente autorização judicial”, sublinhou.