Henrique Gouveia e Melo e Catarina Martins enfrentaram-se para comprovar aquilo que o próprio almirante sintetizou no início do debate na SIC: “Eu e a senhora deputada temos um oceano de diferenças“. Em marés contrárias, o almirante aproveitou o debate para piscar o olho à direita zangada por se aproximar do PS, enquanto a bloquista recuperou a visão moderado-geringonça das legislativas de 2019 e puxou dos dois únicos ex-Presidentes do PS como exemplos que quer seguir (ora Soares na Habitação; ora Sampaio na Guerra do Iraque). Ou seja: Catarina Martins quis aproximar-se do socialismo (do PS), o almirante afastar-se dele.
Voltando ao plano inicial de ataque do submarinista, Gouveia e Melo tentou, desde logo, firmar essas diferenças para Catarina Martins acusando-a de ter “uma lógica partidária”, de ter “um pé aqui e outro em Bruxelas” (sugerindo até interesses, atirando um “eventualmente o seu pé de recuo”) e acusou-a de não querer cumprir a Constituição por não dar posse ao Chega em caso de vitória. E ainda a acusou de ser uma “a “declinação sofisticada do marxismo e do leninismo”. Em tudo isto, Gouveia e Melo afastou-se da esquerda e aproximou-se da direita.
Catarina Martins não se ficou e avisou: “A mim ninguém me diminui por ser eleita.” E, embora jurasse cumprir a Constituição, puxou da lógica para legitimar um eventual bloqueio a um Governo de Ventura: “Não vou passar esta campanha a falar dar posse à extrema-direita. Se eu for eleita, é porque a maioria do País se virou à esquerda”. E contra-atacou com o almoço promovido pelo empresário Mário Ferreira entre André Ventura e o almirante. “Estou aqui para defender a liberdade, não para ir a um almoço dos que falam em Salazares. Fez mal em ir almoçar com um magnata. Tem de decidir se fica do lados mais desfavorecidos ou do lado dos magnatas”, atirou.
Já sobre a legislação laboral, a ex-líder do Bloco de Esquerda foi mais assertiva nas críticas às propostas do Governo: “O Governo propõe pagar menos pelas horas extraordinárias; que as pessoas mais jovens, possam estar permanentemente em contratos a prazo; meteu em cima da mesa, as empresas poderem baixar um trabalhador de salário.” Já Henrique Gouveia e Melo defendeu uma adaptação da legislação laboral à era digital, sugerindo que algumas mexidas podem ser desnecessárias por ter havida uma alteração ao Código Laboral há apenas dois anos. Só após muita pressão da moderadora apontou uma medida que o Governo quer mexer que para si é uma linha vermelha: “O primeiro direito que não deve nunca deve ser mexido são os tempos que estão previstos nos diversos tipos de contrato, a termo, a prazo. Vai aumentar precariedade”.
Quando o debate evoluiu para a habitação e a saúde, Gouveia e Melo tentou colar a Catarina Martins uma imagem de extremismo. Por um lado, a acusar a candidata do BE de querer “colocar em causa a propriedade privada“, por outro a dizer que a solução da esquerda é atirar dinheiro para cima do SNS.
Catarina Martins foi tentando provar ser maior e mais moderada do que o Bloco de Esquerda. Quando o almirante disse o seguinte: “Partilho da preocupação da Habitação dos nossos jovens. Não partilho é da solução que normalmente o Bloco de Esquerda adota.” A bloquista de imediato retorquiu: “Catarina Martins, candidata presidencial, muito prazer!” Ao que Gouveia e Melo replicou: “A Catarina Martins também foi candidata do Bloco de Esquerda.”
A ex-líder do Bloco de Esquerda tentou alargar a sua base eleitoral ao Partido Socialista ao dar como bons exemplos do exercício da função presidencial dois socialistas. Fez isso na Habitação, dando como bom exemplo “as presidências abertas de Mário Soares a alertar para os problemas das barracas” e também na Defesa, onde elogiou o último socialista a estar em Belém: “Lembro-me como Durão Barroso quis mandar soldados portugueses para o Iraque com base numa mentira. Jorge Sampaio travou isso. Eu, como Presidente, também o faria.”
Ainda sobre Defesa, Gouveia e Melo voltou a ser chamado a justificar o facto de ter dito que “se a Europa for atacada e a NATO nos exigir, vamos morrer onde tivermos de morrer para a defender”. Aí, falou da forma mais fria possível sobre a Guerra na Ucrânia, deixando o apoio a Kiev fora da equação: “Nós pertencemos à NATO que é uma aliança defensiva, que tem regras que vamos ter de respeitar se for necessário. Que eu saiba, não há nenhuma guerra.”. Catarina Martins não conseguiu negar o passado anti-militarização, mas negou — como a acusou o almirante — de ter defendido uma desmilitarização unilateral da Europa.
O diálogo mais revelador
Gouveia e Melo — Não mudei nenhum ponteiro e continuo a afirmar as mesmas coisas. Nós pertencemos à NATO que é uma aliança defensiva, que tem regras que vamos ter de respeitar se for necessário. Que eu saiba, não há nenhuma guerra. O nosso empenhamento neste momento, dentro da Europa, pode ser mais a leste ou no Oceano Atlântico, que também faz parte da Europa e da NATO. Não tentem confundir as ideias, não há uma contradição. O que há uma contradição é a deputada Catarina Martins dizer que nos devemos desarmar unilateralmente, porque isso é de uma ingenuidade, desculpe lá.
Catarina Martins — Eu nunca disse isso! Gouveia e Melo disse na apresentação da sua candidatura que a aliança com os EUA não garantia a segurança da Europa. Estou de acordo. Aliás, vê-se com o acordo que Trump, que é um aliado de Putin, quer impor à Ucrânia. Trump diz ‘Putin fica com o que quer e eu fico com as matérias raras’. Continua a acreditar que a nossa aliança com os EUA não garante segurança ou mudou de ideias?
Gouveia e Melo — Não mudei de ideias nenhumas. Sem os EUA a nossa segurança é muito precária. No entanto, a senhora diz isso hoje, mas antes dizia que não devíamos investir na defesa. A Europa não investiu na defesa e por isso é que estamos na situação atual. A senhora tem culpa nisso também.
Catarina Martins — Reparo que tem posições diferentes. Julgava que concordávamos mais…
Gouveia e Melo — Temos um mar de diferenças.
Catarina Martins — … porque ouvi-o dizer que a aliança com os EUA não garantia segurança. Eu estou de acordo, mas [parece defender que] agora vamos viver na boca do lobo. Ouvi dizer que estava contra os 5% de despesa da NATO porque disse que isso seria favorecer as indústrias francesa e alemã de guerra e isso não tem nada a ver com os nossos interesses. Estou de acordo com isso. Nunca disse que devia haver um desarmamento unilateral. Aliás, sempre defendi o multilateralismo em tudo. Não acredito é em mandar os nossos jovens para uma guerra para defender os interesses dos EUA ou seja o que for. Lembro-me como Durão Barroso quis mandar soldados portugueses para o Iraque com base numa mentira. Jorge Sampaio travou isso. Eu, como Presidente, também o faria.
Gouveia e Melo — A sua resposta, de alguma forma, é cínica porque antes defendia que não nos devíamos armar e investir na defesa. É por isso que hoje estamos perante o problema dos 5%. Sem os EUA teríamos um problema de defesa muito grande. Quem é aqui incoerente — permita-me dizer-lhe isto assim diretamente — é a senhora deputada. É uma incoerência da posição anterior com a atual.
Catarina Martins — É verdade que falei muitas vezes contra despesas na defesa.
Gouveia e Melo — Obrigado.
Catarina Martins — Uma das razões é que em Portugal foi feita uma compra de submarinos que teve um escândalo de corrupção associado. Não estou a dizer que teve alguma coisa a ver consigo, sei que não tem. A Alemanha teve condenados por corrupção, mas em Portugal nunca se chegou até ao fundo. Nestas despesas da defesa houve sempre muito mais interesses da indústria de armamento e corrupção do que a defesa dos interesses de Portugal. E sobretudo da defesa dos interesses da paz, que é o que nos deve mover.