Richard Kahn e Darren Indyke. Os nomes não são conhecidos do grande público, mas há décadas que orbitam em torno de um dos casos mais polémicos da cena internacional. O contabilista certificado e o advogado foram, respetivamente, as duas figuras de confiança de Jeffrey Epstein: atentos, discretos e essenciais para que o milionário pudesse proteger a sua vida financeira, movimentar-se sem grande escrutínio e gerir as mulheres que entravam e saíam do seu círculo. Atualmente, segundo o Wall Street Journal, são os dois homens que controlam o espólio de Epstein e parte significativa dos documentos que continuam a ser solicitados pelos tribunais norte-americanos.
Ambos construíram carreiras quase inteiramente dentro do universo Epstein. Indyke conheceu-o primeiro. Era um jovem funcionário num pequeno escritório de advogados em Manhattan quando, em 1996, o milionário, já próximo de Wall Street e das elites políticas, começou a recorrer aos seus serviços, conta o mesmo jornal. Depois de se licenciar em Direito pela Universidade de Cornell, regressou à cidade e depressa se tornou assessor exclusivo de Epstein — o cargo acumulava tarefas jurídicas com funções pouco habituais num advogado, desde a representação das dezenas de entidades corporativas criadas pelo cliente até à gestão prática de viagens, pagamentos e extensos fluxos de caixa.
Kahn entrou mais tarde, em 2005. Na altura, Epstein estava à procura de um novo contabilista para organizar um universo financeiro opaco, espalhado por fundações, consultoras, empresas imobiliárias e estruturas criadas nas Ilhas Virgens Americanas para aproveitar benefícios fiscais. Kahn, descrito como um profissional jovem e ambicioso, foi recrutado por uma firma especializada e, ao fim de três entrevistas, tornou-se o encarregado de colocar ordem nos números do milionário, passando a ser o seu contabilista de referência. Instalou-se num escritório improvisado — um apartamento convertido — no edifício da rua East 66th, em Nova Iorque, o mesmo onde Epstein albergava várias mulheres que mais tarde o acusaram de abuso.
Foi a partir desse edifício que o contabilista e o advogado mantiveram uma operação que documentos judiciais descrevem como “a espinha dorsal” do funcionamento diário de Epstein. A sua importância ia, de acordo com o Wall Street Journal, muito além da burocracia. Indyke e Kahn tornaram-se os guardiões do dinheiro vivo que circulava, dos pagamentos a mulheres, dos fluxos entre contas que mudavam de banco sempre que um departamento de compliance levantava questões.
Os registos bancários, consultados pelo mesmo jornal, revelaram que Indyke seguia um padrão meticuloso de levantamentos: 7.500 dólares (cerca de 6.500 euros) de cada vez, que era o valor máximo permitido para alguém que não fosse o titular da conta. Em quatro anos, repetiu a operação quase cem vezes na mesma agência. Quando os bancos questionavam o motivo de tanta movimentação, respondia com explicações que variavam entre gorjetas, viagens ou pagamentos domésticos. Em paralelo, um cofre no escritório de Kahn armazenava quantias significativas para serem distribuídas conforme necessário. O objetivo era simples: evitar alertas automáticos às autoridades financeiras. A prática continuou mesmo depois de Epstein ter sido condenado na Flórida, em 2008, por crimes sexuais contra uma menor.
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A ajuda para controlar as mulheres e a remuneração “muito acima do razoável”
O papel dos dois funcionários de Epstein ia, assim, para além de questões financeiras. Foram eles que ajudaram a estruturar os casamentos fraudulentos que, segundo os processos judiciais, serviam para manter no país mulheres europeias que o milionário queria controlar. Um desses casos, em 2016, envolveu uma carta assinada por Kahn na qual atestou a “profunda ligação emocional” entre duas mulheres cujo vínculo era tão profundo que “frequentemente completavam as frases uma da outra”. Depois, ficou demonstrado que o casamento era uma simulação e que uma das mulheres estava a ser pressionada por Epstein a não avançar com o divórcio. Várias vítimas relatam que era nas mãos de Kahn que estava a aprovação de despesas diárias, consultas médicas, rendas e até compras de lingerie.
Os dois homens negam qualquer conhecimento de abusos e os seus advogados insistem na ideia de que desempenhavam funções normais num ambiente financeiro complexo. Argumentam que nunca receberam queixas de vítimas e que as entidades criadas por Epstein tinham finalidades legítimas. Mas emails, relatórios de bancos e dezenas de documentos citados em processos estaduais e federais descrevem outro cenário: um ambiente onde Kahn e Indyke eram intermediários diretos entre Epstein e mulheres que dependiam do milionário para casa, dinheiro, vistos ou cuidados de saúde.
Naturalmente, os dois foram acumulando compensações superiores às que se esperariam. Entre 2011 e 2019, Kahn recebeu mais de 10 milhões de dólares (cerca de 8,6 milhões de euros) e Indyke obteve mais de 16 milhões de dólares (cerca de 13,8 milhões de euros). A estes valores somaram-se empréstimos que nunca foram cobrados, apoio a compra de casas e pagamentos de despesas familiares. Um relatório das autoridades das Ilhas Virgens Americanas, consultado pela imprensa, concluiu que estes montantes estavam “muito acima do razoável” para justificar remunerações profissionais normais.
Pós-suicídio: o poder sobre o espólio de Epstein, as críticas e as investigações que ficaram por fazer
Quando Epstein foi detido, em julho de 2019, ambos já ocupavam uma posição estratégica no testamento do milionário: eram os co-executores designados para controlar todos os bens, gerir a liquidação de dívidas, negociar indemnizações e decidir o acesso a documentos internos. Isso deu-lhes, segundo os advogados das vítimas, um poder de filtragem que afetou diretamente a investigação. As mulheres que quiseram aderir ao programa de compensação criado pelo espólio tiveram de assinar cláusulas que impediam ações contra os dois homens.
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Nos bastidores deste processo, surgem ainda os trusts (acordo legal em que uma pessoa transfere bens para que sejam administrados por outra) que Epstein reestruturou dois dias antes de se suicidar. O principal, o fundo de 1953 (ano de nascimento do milionário), do qual Kahn e Indyke são não só administradores mas também principais beneficiários juntamente com o irmão Mark Epstein, deverá receber o que sobrar da fortuna depois de as indemnizações serem pagas. Se os valores se mantiverem, os dois poderão receber dezenas de milhões de dólares cada um, embora enfrentem processos que os acusam precisamente de ter ajudado a sustentar o sistema que permitiu o abuso de mulheres durante décadas.
Apesar da importância que assumem em múltiplos processos, Kahn e Indyke passaram praticamente ilesos pelo escrutínio federal enquanto Epstein estava vivo. Nunca foram formalmente interrogados no âmbito das investigações criminais que envolveram o milionário e Ghislaine Maxwell, a socialite que foi considerada culpada de aliciar raparigas menores que viriam a ser abusadas sexualmente por Jeffrey. É essa ausência que hoje é criticada por congressistas, procuradores e vítimas, sobretudo agora que os documentos e os emails vão ser divulgados.
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Indyke mudou-se para a Flórida e reapareceu discretamente como agente imobiliário e advogado num escritório que se orgulha de representar clientes mediáticos. Publica vídeos a promover imóveis de luxo e apresenta-se como especialista em “gestão de crises”, omitindo o capítulo que define a sua carreira.
Por seu turno, Kahn deixou a contabilidade e mantém propriedades em Nova Iorque. Ambos continuam a negar todas as acusações, mas a administrar o espólio. E os dois continuam, discretamente, a ser as duas figuras que mais sabem (e mais controlam) da vida e do legado financeiro de Jeffrey Epstein.