Cerca de 20 dias depois de ocorrer a alegada violação no quartel dos Bombeiros Voluntários do Fundão, a vítima pediu ao comando da corporação a suspensão das suas funções. A informação avançada pela advogada do jovem de 19 anos contradiz a versão do comandante.
Ao Observador, a advogada Joana Bento detalha que o jovem bombeiro que denunciou ter sido violado por outros 11 colegas pondera regressar ao serviço quando tiver “as condições necessárias” e não foi afastado de funções pelo comando: “Foi o meu próprio cliente que me pediu para esclarecer: ele não foi afastado. Perante os factos [que entretanto vieram a público] ele continuou a prestar serviço nos bombeiros. Mas depois dos eventos, estar ali a fazer serviço e a cruzar-se com determinados elementos… A bem da sua integridade pediu para suspender as funções.” Esta decisão, no entanto, não tem implicações financeiras para o queixoso, uma vez que trabalha em regime de voluntariado e não é assalariado.
Em declarações ao Observador na passada quarta-feira, o comandante José Sousa disse que o bombeiro estaria “isento de serviço”, uma decisão que tinha sido tomada “desde uma fase precoce, por proteção, e para não perturbar o processo de inquérito”. Segundo a representante da alegada vítima, Joana Bento, a decisão em causa “foi concertada” com o comando, no entanto, partiu da própria iniciativa do jovem.
“Ele pede à população do concelho do Fundão que continue a acreditar nos bombeiros e a reconhecer o seu mérito. Ele continua a acreditar no lema ‘Vida por Vida’ e por isso está a ponderar o regresso“, acrescenta a advogada.
Segundo apurou o Observador, os dois episódios de alegada violação ocorreram a 6 de setembro. Contudo, o jovem de 19 anos só avançou com uma queixa às autoridades competentes no final do mês, dia 29 de setembro. Só depois dessa data terá pedido suspensão de funções nos Bombeiros do Fundão.
Jovem “gosta muito de servir nos Bombeiros do Fundão”
“Ele é muito corajoso. Dentro das circunstâncias está focado nos seus objetivos de vida e no seu propósito. É muito resiliente, gosta muito de servir nos Bombeiros Voluntários do Fundão e creio que pondera o regresso quando sentir que tem as condições necessárias”, detalha ainda a sua representante legal. Segundo Joana Bento, o jovem esteve em serviço nos bombeiros do Fundão pelo menos desde março de 2025, servindo como bombeiro de 3.ª (a categoria de entrada na carreira).
A alegada violação não aconteceu num “serviço que se tenha iniciado naqueles dias”, garante a advogada, acrescentando que o jovem “tem centenas de horas na corporação, nomeadamente nos incêndios que aconteceram naquele verão no Fundão”.
Questionado sobre o possível regresso do jovem à corporação do Fundão, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses defende que a alegada vítima “deve ser acarinhada, protegida e fazer parte do corpo ativo como símbolo de resistência”.
“Temos de garantir que o corpo de bombeiros não fica prejudicado do ponto de vista da capacidade de resposta e desmoralizado. E tentar explicar à população e à família que repudiamos qualquer tipo de comportamento atentatório da dignidade. Não se compreende que possam cometer ilícitos daquele tipo”, diz António Nunes. O dirigente esteve na manhã desta quinta-feira no quartel dos Bombeiros Voluntários do Fundão, onde os incidentes terão ocorrido.
▲ Vítima "continua a acreditar no lema 'Vida por Vida'", diz advogada Joana Bento
Rui Miguel Pedrosa / Observador
“A Liga dos Bombeiros repudia o que se passou”, diz António Nunes. “Sentimo-nos tristes e simultaneamente envergonhados que isto possa ter acontecido. Todos eles agora irão explicar o inexplicável [e] o corpo de bombeiros vai ter de ultrapassar este momento difícil. É preciso dar-lhes tempo para fazerem o luto.”
António Nunes diz que a Liga a que preside “acha” que a alegada violação denunciada foi “um caso isolado, em circunstâncias isoladas, que não devia ter acontecido e não pode voltar a acontecer”. Já o jovem de 19 anos que diz ter sido violado “condena que isto seja considerado uma praxe, porque isso pressupõe um costume”, diz a sua representante legal.
“Uma coisa é brincar, mas isto está longe disso. Não pode ser considerado uma praxe. Quem designa isto como brincadeira abusiva… Temos 11 pessoas com medidas de coação por vias de indícios suficientes para a prática de crime”, afirma Joana Bento.
Liga dos Bombeiros disponibilizou apoio à vítima e agressores
As medidas de coação foram conhecidas na passada terça-feira. Três (dos 11) bombeiros ficaram sujeitos a apresentações semanais perante as autoridades. Estes, juntamente com outros cinco suspeitos, ficaram ainda proibidos de entrar e frequentar o quartel do Fundão, “com exceção de grave, documentada e fundamentada situação” de emergência. Aos 11 suspeitos foi ainda aplicada a medida de coação de proibição de contactos com os demais arguidos, testemunhas e com o jovem bombeiro, de quem também não se podem aproximar a uma distância menor do que 500 metros.
Em reação, Joana Bento critica o facto de o “Ministério Público não ter pedido medidas privativas da liberdade”. “O juiz, atendendo a essa situação, também não podia despachar de forma diferente. O juiz fez o que podia, não tenho dúvidas”, garante. Contudo, na sua opinião, era o Ministério Público que podia ter agido de outra forma: “Devia ter pedido medidas privativas da liberdade. Não para todos, mas poderia ter pensado numa questão deste género.”
O responsável pela Liga dos Bombeiros Portugueses diz que a instituição está “preocupada com o bombeiro que foi vítima” e garante que foram disponibilizados todos os “apoios possíveis e necessários, requeridos por ele ou pela família”. Joana Bento salienta que os Bombeiros do Fundão “não pouparam os esforços necessários” e elogia o facto de terem “incentivado o cliente a ir às autoridades”.
Segundo o presidente da Liga, António Nunes, também foi disponibilizado apoio aos 11 bombeiros acusados de violação. “Por ventura, os que estiveram envolvidos em atos que podem tecer ilícitos criminais, também neste momento já sentirão que precisam de ajuda psicológica. Não deixam de ser bombeiros. Tiveram um comportamento incorreto; inaceitável. Mas defendemos sempre ‘Vida por Vida’ e todos os dias ajudamos os outros. Se algum for condenado, não é por isso que devemos ostracizá-los.“