Um administrador interino foi nomeado pela justiça australiana para supervisionar o património de Virginia Giuffre perante aa batalha legal entre os familiares da mulher, que morreu em abril sem deixar um testamento. Acredita-se que a alegada vítima de tráfico sexual por Jeffrey Epstein teria milhares de euros entre valores monetários e propriedades na cidade de Perth, no oeste da Austrália. Com a decisão, os processos judiciais que envolviam Giuffre e estavam suspensos podem agora voltar a ser julgados. Os familiares próximos devem reunir-se na próxima sexta-feira em tribunal para definir quem fica responsável por administrar o espólio.
De acordo com o The Guardian, um tribunal australiano nomeou na passada segunda-feira o advogado Ian Torrington Blatchford como o responsável por assumir o controlo do património de Giuffre, que inclui os 14,3 milhões de euros que alegadamente foram pagos pelo ex-príncipe André em 2022, num acordo no caso de abuso sexual que corria nos EUA, e os direitos pelo livro de memórias em que descreve os encontros com o filho de Isabel II. Além disso, Virginia Giuffre recebeu o equivalente a 430 mil euros de Jeffrey Epstein em 2009, quando o processou por abuso sexual e tráfico sexual, e uma indemnização no caso civil contra Ghislaine Maxwell em 2017, num valor que nunca foi revelado. A mulher também era proprietária de quatro imóveis em Perth, incluindo uma casa com seis quartos de frente para o mar e a quinta no interior, onde morreu em abril.
Os documentos legais afirmam que “o administrador é nomeado como o representante pessoal legal da falecida em qualquer processo ou questão judicial em que a falecida tenha sido uma das partes antes da sua morte”, o que significa que agora os casos que corriam na justiça envolvendo Giuffre podem continuar. A mesma decisão destaca ainda que Blatchford está “autorizado” a fazer “tudo o que for necessário no exercício deste poder”, em relação ao livro de memórias Nobody’s Girl, escrito com a jornalista Amy Wallace, publicado depois da morte de Giuffre.
Quatro processos que envolvem Giuffre estavam suspensos
A decisão descreve quatro processos ou acordos judiciais que ficam agora sob a responsabilidade de Blatchford, como um caso de difamação movido contra Ghislaine Maxwell em 2015 que Giuffre venceu e um acordo envolvendo o antigo advogado de Epstein, Alan Dershowitz, num caso de difamação que chegou ao fim em 2022.
Entretanto, há ainda questões que estavam suspensas desde a morte de Giuffre e que agora podem voltar aos tribunais. Um deles é um caso de outubro de 2021, em Nova Iorque, em que Rina Oh Amen, alegada vítima de Epstein, acusa Virginia Giuffre de difamação. A mulher pede o equivalente a 8,5 milhões de euros pelas declarações feitas em publicações nas redes sociais e num podcast, em que Giuffre dizia que Oh era cúmplice de Epstein. Em dezembro de 2022 Giuffre processou Oh por alegadamente participar nos abusos perpetrados pelo ciclo próximo de Epstein, afirmando que a mulher cortou-a durante encontros sadomasoquistas enquanto Epstein assistia. Depois da morte de Giuffre em abril, um tribunal de Nova Iorque decidiu que a queixa de difamação de Oh poderia continuar contra o espólio de Giuffre, porém o caso permaneceu suspenso diante das disputas entre os familiares que acreditam ter direito ao património.
A batalha familiar, descreve o Telegraph, envolve o ex-marido, os filhos e os meio-irmãos de Virginia Giuffre. De acordo com a lei australiana, Robert Giuffre, que pediu o divórcio dois meses antes da morte da mulher, tem direito a um terço do património. Porém, Virginia terá alegadamente enviado um email à advogada a afirmar que não queria que o ex-marido tivesse direito à herança. Os dois meio-irmãos de Giuffre, Sky Roberts e Danny Wilson, contrataram também um advogado para contestar o direito de Robert Giuffre à herança. O jornal diz que os irmãos teriam interesse em assumir o controlo da instituição de caridade fundada por Virginia Giuffre, a Speak Out, Act, Reclaim, que terá recebido mais de 3 milhões de euros no acordo com André Mountbatten-Windsor, mas ainda não iniciou atividades.
Em junho os dois filhos mais velhos de Virginia Giuffre, Christian e Noah, de 19 e 18 anos, pediram ao tribunal para serem nomeados como os administradores do espólio. Mas a advogada de Giuffre, Karrie Louden, e a funcionária que cuidou da mulher nos últimos dias de vida, Cheryl Myers, entraram com uma ação para evitar que os irmãos recebessem o direito de administrar as propriedades. De acordo com o Telegraph, os familiares preparam-se para uma audiência agendada para a próxima sexta-feira, dia 28 de novembro, no Supremo Tribunal do Oeste da Austrália, em Perth, quando deve ser discutida a gestão dos bens que pertenceram a Giuffre.
Virginia Giuffre morreu em abril, dias depois de ter feito uma partilha nas redes sociais em que afirmava ter apenas “quatro dias de vida”, no seguimento de um acidente de viação que a terá deixado com uma insuficiência renal. Entretanto, a polícia local não foi capaz de encontrar registos do alegado acidente, que terá envolvido um “autocarro escolar a 110 km/h”. Os familiares da mulher alegam que a morte foi um suicídio, e a polícia australiana não trata o caso como suspeito.
Meses antes, em janeiro, Virginia Giuffre já havia sido hospitalizada depois de um alegado ataque perpetrado pelo então marido, Robert Giuffre. Entretanto, o homem conseguiu uma ordem de restrição contra a ex-mulher e a guarda temporária dos dois filhos mais novos, de 16 e 15 anos, que ficaram impedidos de ver a mãe — o que terá contribuído para afetar ainda mais a saúde mental da mulher, escreveu Amy Wallace no início do livro de memórias Nobody’s Girl.