O núcleo duro do Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, abanou na sexta-feira com a demissão de Andriy Yermak, que assumia as funções de chefe de gabinete do chefe de Estado desde 2020. A saída surge numa altura particularmente sensível para a Ucrânia, em que as negociações de paz com os EUA e a Rússia avançam de forma tensa, ao mesmo tempo que as autoridades anti-corrupção investigam um esquema no setor energético.

A chamada “Operação Midas” já tinha levado à demissão de Svitlana Hrytchuk, ministra da Energia e Herman Galushchenko, antecessor que ocupava agora a pasta da Justiça. Olena Duma, antiga diretora de Agência de Recuperação e Gestão de Ativos da Ucrânia, também foi implicada no caso.

Setor energético da Ucrânia é o novo alvo dos ataques russos e dos órgãos de combate à corrupção de Kiev

Apesar de o braço-direito de Zelensky não estar nomeado como suspeito no processo, o apartamento de Andriy Yermak foi alvo de buscas pelo Gabinete Nacional Anti-corrupção (NABU, em ucraniano). Poucas horas depois, Volodymyr Zelensky anunciou que o seu chefe de gabinete se tinha demitido.

“Sou grato ao Andriy por sempre representar a posição da Ucrânia nas negociações exatamente como ela deve ser representada. Sempre foi uma posição patriótica. Mas quero eliminar quaisquer rumores e especulações”, disse Zelensky, que anunciou o início de “consultas” para encontrar um sucessor.

Sai um “tudo em um” que conhecia o Presidente há 11 anos

A proximidade entre Zelensky e Yermak era já antiga. Os dois conhecem-se há quase 15 anos, quando o ex-assessor era um advogado de propriedade intelectual e o atual Presidente ucraniano era um produtor televisivo, noticiou a BBC.

No cargo de chefe de gabinete, Yermak tornou-se no de facto número dois do líder, agindo por trás da cortina com poderes mais extensos que os que seria de prever para alguém na sua posição. “Era um vice-presidente, um primeiro-ministro e um chefe de gabinete — tudo em um”, indica o New York Times.

Ao The Guardian, o analista político ucraniano Volodymyr Fesenko apontou que a saída do homem forte do Presidente ucraniano causará “uma mini-revolução no sistema político e no sistema de governação“, indicando que o assessor era “o elemento chave no sistema de poder que Zelensky construiu”.

Para além do papel que desempenhava na gestão do poder dentro de portas, Yermak tinha também um papel fundamental nas relações externas ucranianas, já que tem sido o principal negociador para o plano de paz criado pelos EUA com a Rússia.

Nos próximos dias, para além de receber o secretário para o Exército dos EUA, Dan Driscoll, também iria visitar o enviado norte-americano Steve Witkoff e o genro de Trump, Jared Kushner, na Florida, noticiou o jornal Axios.

Apesar da saída do principal responsável da equipa negocial ucraniana, o presidente da comissão do parlamento ucraniano para a política externa, Oleksandr Merezhko, garantiu que, mesmo que alguém saia, “o mecanismo não muda”. “Negociações são trabalho de equipa”, continuou.

A seguir ao governo, Andriy Yermak disse estar pronto para quaisquer represálias, numa mensagem enviada ao jornal norte-americano New York Post. E avisou: o seu futuro está “na frente de batalha” na guerra. Sobre a sua relação com Zelensky, Yermak garantiu ao Financial Times que era seu “amigo antes deste trabalho” e que se iria “lembrar dele”, sem quaisquer rancores.