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Passaram quase quatro meses desde que a Ucrânia foi palco da primeira manifestação em tempo de guerra, desde que a Rússia invadiu o país em 2022. Nas ruas, milhares de ucranianos criticavam uma tentativa de retirar independência aos órgãos nacionais de combate corrupção, que acabou por não avançar devido aos protestos. Na mesma altura, ainda que não fosse público à data, esses órgãos estavam a meio de uma investigação a um esquema de corrupção alargado que incluía membros do Executivo, um amigo e antigo parceiro de negócios do Presidente e a empresa estatal de energia nuclear, a Energoatom.
A “operação Midas“, como foi intitulada, que foi concluída esta segunda-feira pelo Gabinete Nacional Anticorrupção (NABU) e pelo Gabinete Especializado Anticorrupção (SAPO), durou 15 meses e culminou com buscas em 70 localizações por toda a Ucrânia. Já esta terça-feira, foram detidas cinco pessoas e outras sete foram identificadas como suspeitas no caso. A operação, que exigiu a mobilização de todos os agentes do NABU, abre mais um capítulo na relação acidentada de Volodymyr Zelensky com os órgãos anti-corrupção. Depois de ter tentado reduzir as suas competências durante o verão, o Presidente reagiu à operação Midas salientando a necessidade de uma “ação eficaz contra a corrupção” e exigindo “condenações”.
O caso reveste-se de importância devido a dois fatores. Por um lado, pela aparente proximidade do esquema de corrupção com o chefe de Estado. Mas, de forma relevante, pela importância estratégica do setor visado pelo esquema. “A Energoatom assegura atualmente a maior parte da produção de energia da Ucrânia. A integridade da empresa é uma prioridade”, sublinhou Zelensky na segunda-feira à noite. A produção de energia é um aspeto essencial para Kiev à medida que o inverno se aproxima e a Rússia continua a escalar os ataques contra as infraestruturas energéticas ucranianas.
A atual situação no terreno reflete o foco da guerra no setor energético. No passado domingo, na véspera das buscas, a Rússia efetuou o maior ataque contra centrais energéticas ucranianas desde o início da guerra. Como resultado, a maior parte da Ucrânia enfrentou apagões que chegaram a durar 16 horas em algumas partes do país. “Desde o verão, a guerra na Ucrânia tomou uma nova dimensão”, resumiu John Lough, analista no programa da Rússia do think tank Chatham House, num artigo de análise.
▲ Os apagões, que se repetem desde o início da guerra, são agora mais frequentes
SERGEY DOLZHENKO/EPA
A Ucrânia procura responder na mesma moeda, visando a infraestrutura energética russa — e tem obtido resultados positivos. Porém, o esforço de guerra de Kiev continua a depender em grande parte do apoio dos aliados europeus e norte-americanos. Enquanto a ajuda vinda de Bruxelas continua a tentar navegar os constrangimentos colocados por alguns dos Estados-membros — um problema recorrente na ação comunitária —, a ajuda vinda dos Estados Unidos depende de uma variável mais “errática”: os movimentos diplomáticos de Donald Trump.
Operação Midas. O amigo de Zelensky que fugiu e a “gestão sombra” da empresa estatal de energia nuclear
Na manhã desta segunda-feira, uma das dezenas de buscas efetuadas terá visado a casa de Timur Mindich, avançou o jornal Ukrainska Pravda. Mindich não estava em casa — horas antes de as autoridades entrarem no seu apartamento em Kiev tinha fugido para o estrangeiro. Timur Mindich é um produtor cinematográfico e empresário ucraniano, dono da empresa de produção Kvartal 95, que Volodymyr Zelensky ajudou a fundar antes de se ter virado para a política. Para além de parceiros de negócios, os dois eram amigos. Em 2021, Zelensky terá celebrado o seu aniversário na casa de Mindich em Kiev.
Em 2019, quando ganhou as eleições, o agora Presidente transferiu as suas ações na Kvartal 95 para outros acionistas. A entrada de Zelensky na política fez-se com uma campanha assente na promessa de combater a corrupção que há décadas tomava conta da Ucrânia. Porém, sob a sua liderança, esquemas de corrupção continuaram a formar-se.
A operação agora exposta pelo NABU dá conta de um grupo de pessoas que construiu “um esquema de corrupção em larga escala para influenciar empresas estratégicas do setor público, em particular a Energoatom”. Os suspeitos exigiam às partes que estabeleciam contratos com a empresa — que supervisiona todas as centrais nucleares da Ucrânia — o pagamento de subornos de 10% a 15% do valor desses contratos, de forma a poderem manter-se como fornecedores da empresa ou verem pagamentos à empresa negados. Entre as empresas visadas estavam empresas responsáveis pela construção de sistemas de defesa da infraestrutura energética.
▲ A relação entre Zelensky e o NABU já tinha dado origem a protestos, os primeiros desde o início da guerra
Rostyslav Averchuk/EPA
“Na prática, um sistema foi criado em que uma companhia estatal com receitas que excedem 200 mil milhões de UAH [hryvnias ucranianas, o equivalente a cerca de 4,1 mil milhões de euros] não estava a ser gerida pelos seus quadros superiores, pelo conselho fiscal ou pelo Estado enquanto proprietário, mas por um estranho que, sem qualquer autoridade oficial, assumia o papel de gestor sombra“, relatou o NABU em comunicado.
A alegada participação de Timur Mindich no esquema foi exposta devido a mais de mil horas de escutas. Quando o caso começou a ser investigado pelo NABU, o empresário já não teria contacto regular com Zelensky desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, avançou uma fonte com conhecimento da relação, citada pelo The Guardian. Mas outras pessoas próximas do Presidente também aparecem ligados à investigação: o ministro da Justiça, Herman Halushchenko, que foi ministro da Energia entre 2021 e 2025, o seu antigo conselheiro enquanto ocupou esse cargo, Ihor Myroniuk, e o antigo procurador e diretor da segurança da Energoatom, Dmytro Basov. As vozes dos três homens foram identificadas nas escutas a discutir o esquema, utilizando nomes de código, avançou o Kyiv Independent.
Setor energético: a nova dimensão da guerra na Ucrânia
Depois de quase quatro anos de guerra total, a frente de batalha no Donbass está, há vários meses, praticamente inalterada. A ofensiva sobre Pokrovsk, cidade chave do leste ucraniano, dura há mais de um ano sem as forças russas conseguirem tomar os últimos quilómetros quadrados que não controlam na região. Com a linha da frente bloqueada, na entrada para o terceiro inverno da guerra, a Rússia mudou de estratégia e passou a visar a infraestrutura energética.
O ataque do passado domingo, o mais forte até agora, não foi um evento isolado: os ataques a centrais de energia, subestações e linhas de transmissão são cada vez mais frequentes — e os apagões também. Ao mesmo tempo, destaca a revista TIME, Moscovo começou também a atacar diretamente as infraestruturas de produção de gás natural, tendo a Ucrânia perdido cerca de 60% da sua capacidade de produção. “As reservas para o inverno terão acabado antes do fim do tempo frio”, resume a revista.
O Institute for the Study War (ISW), que acompanha os avanços da situação militar, identifica no aumento dos ataques russos em larga escala nas últimas semanas uma estratégia concreta. “É um esforço russo de deteriorar a segurança energética da Ucrânia e a sua capacidade industrial e desmoralizar o povo ucraniano“, pode ler-se no relatório diário publicado no passado sábado. Cortando o acesso de milhões de ucranianos a aquecimento, luz e, na maior parte dos casos, telecomunicações durante o inverno, a Rússia procura estimular uma oposição interna ao esforço de guerra, apontam analistas. Ou seja, pôr fim à guerra a partir de dentro em vez de no campo de batalha.
Num cenário dito normal, o setor energético já tem uma enorme relevância estratégica. Porém, no atual contexto, mais preocupante, a manutenção da produção de energia não é apenas importante, mas essencial para a Ucrânia: quer para garantir energia ao povo ucraniano durante o inverno, quer para manter a máquina industrial que suporta o esforço de guerra a funcionar. Esta terça-feira, a Energoatom emitiu um comunicado que, neste contexto, pode ser interpretado como tranquilizador: a atual investigação dos órgãos anti-corrupção não afetou nem irá afetar as suas operações regulares.
Apesar de todos os obstáculos, Kiev tem conseguido dar resposta ao escalar dos ataques russos. No final de outubro, a revista Foreign Affairs dava conta que os ataques com drones ucranianos tinham atingido mais de metade das 38 principais refinarias russas pelo menos uma vez, fazendo cair a produção e processamento de petróleo de 5,4 milhões de barris por dia (em julho) para 5 milhões por dia (em setembro).
No ângulo da defesa, os ataques russos, apesar de mais frequentes e intensos, não conseguiram provocar o colapso generalizado da rede ucraniana, devido ao investimento de Kiev na produção de energia, na rápida reconstrução e reparação da rede e numa rede de vizinhos aliados que facilitam a importação de produtos energéticos, elenca John Lough. O analista olha para esta estratégia dupla (de ataque e defesa) com otimismo.
“Se a Ucrânia conseguir acelerar o ritmo dos ataques, abrandando os trabalhos de reparação e forçando o governo a intervir para estabilizar os preços, isso vai pressionar o Kremlin a chegar à mesa [das negociações] e a concordar pelo menos com um cessar-fogo energético”, argumentou. Porém, para esta estratégia continuar a dar resultados, a Ucrânia continua a precisar de apoio externo.
▲ Zelensky tem procurado o apoio dos aliados para o reforço e proteção do sistema ucraniano
STRINGER/EPA
As “movimentações erráticas de Trump” e o apoio financeiro da UE
A ideia de um cessar-fogo limitado às infraestruturas energéticas não é um cenário meramente hipotético, mas uma realidade que já foi posta em prática. Na passada sexta-feira, Kiev e Moscovo concordaram num “cessar-fogo localizado” nas imediações da central nuclear de Zaporíjia, na Ucrânia, que permita proceder a reparações nas instalações e afastar a possibilidade de um acidente nuclear. Contudo, o mesmo plano, num âmbito mais alargada, já tinha falhado em março, quando os Estados Unidos propuseram uma trégua que abrangesse todas as capacidades de produção e distribuição de energia.
O exemplo do cessar-fogo falhado de março não é apenas um reflexo do ciclo de negociações falhadas entre Ucrânia e Rússia, mas da sucessivas tentativas de intervenção de Washington. No caso dos ataques a infraestruturas energéticas russas, a administração norte-americana terá tido um papel chave, avançou o Financial Times no mês passado. Isto porque, com Joe Biden como Presidente, os Estados Unidos opuseram-se, de forma consistente, a ataques de longo alcance com armas norte-americanas contra a Rússia. Esta diretiva só foi revertida na reta final do mandato de Biden, depois de quase três anos de guerra.
Com Donald Trump ao leme, os Estados Unidos não permitiram apenas os ataques mais recentes contra infraestruturas energéticas, como terão ajudado. Várias fontes ucranianas e norte-americanas ouvidas pelo Financial Times relataram que Washington partilhou informações confidenciais com Kiev que permitiram identificar alvos e desencadear os ataques. A decisão é importante, mas não muda, por si só, a direção da guerra.
A nível diplomático, o apoio norte-americano a Kiev continua dependente “das movimentações erráticas de Trump“, como define Igor Delanoë, investigador no Institut de relations internationales et stratégiques de França (IRIS), numa entrevista recente. A posição do Presidente norte-americano tem sido pautada por ziguezagues entre Kiev e Moscovo e, nas últimas semanas, por uma postura mais atenta a outras partes do mundo. Em vez da Ucrânia, Trump tem olhado para o Extremo Oriente — região que visitou no final de outubro —, para a Síria — cujo Presidente interino visitou pela primeira vez a Casa Branca esta segunda-feira —, ou mesmo para dentro das fronteiras dos Estados Unidos.
▲ A ajuda norte-americana continua a ser essencial para a Ucrânia
AFP via Getty Images
Igor Delanoë argumenta que estas características de Trump também condicionam o apoio europeu à Ucrânia. “Eles estão limitados pelos recursos financeiros e militares disponíveis para a Ucrânia, tendo como pano de fundo o desinteresse dos EUA”, elaborou, notando que o facto de Bruxelas não manter relações diplomáticas normalizadas com Moscovo retira à Europa “margem de manobra” para ajudar a negociar o fim da guerra. Por este motivo, o principal contributo da União Europeia (UE) para a Ucrânia continua a passar pelo apoio financeiro, destaca. Neste caso concreto, e como Zelensky tem salientado nas suas declarações diárias, esse apoio contribui para o reforço e recuperação da infraestrutura energética.
Os acontecimentos desta segunda-feira na Ucrânia refletem ainda outra vertente da relação entre Kiev e Bruxelas: a eventual adesão da Ucrânia à UE. Isto porque o combate independente à corrupção levado a cabo pelos dois órgãos que desencadearam a Operação Midas — o NABU e o SAPO — são um aspeto fundamental para a Ucrânia poder entrar no espaço europeu, como destacaram os especialistas em julho, por ocasião dos protestos. Apesar do choque entre Zelensky e o NABU no passado, a necessidade de combater a corrupção também está presente nas declarações do Presidente. “A inevitabilidade de uma punição é essencial. Todos os que construíram esquemas corruptos têm de enfrentar uma resposta processual clara. Tem de haver condenações”, afirmou.