A dada altura do debate em que se enfrentaram esta terça-feira, na CNN, Henrique Gouveia e Melo provocou: “O senhor ainda é comunista?”. E o adversário, António Filipe, disparou de volta: “Eu sou, não sei é o que o senhor é”. As duas tiradas poderiam resumir um debate que se passou assim: Gouveia e Melo a encostar António Filipe às posições do PCP mais polémicas, da Ucrânia a Cuba, passando pelo conceito marxista de ditadura do proletariado; e o comunista a atacar de volta, acusando Gouveia e Melo de só dizer banalidades para agradar aos eleitores desencantados de PS e PSD, sem se comprometer com nenhuma ideia concreta.

O debate foi, por isso, aceso, e começou logo pela guerra na Ucrânia, o que acabaria por levar António Filipe a protestar por grande parte da discussão ter sido ocupada por temas internacionais. Logo de início, o comunista disse que a paz na Ucrânia já podia ter existido e que deseja que exista agora, mas que a negociação tem de ser feita entre ucranianos e russos — “Quem tem de chegar a acordo são eles, não vão pedir a minha opinião”.

Estava o terreno preparado para que Gouveia e Melo desferisse o primeiro ataque: “É preciso ter uma posição. António Filipe chegou a dizer que Zelensky era apoiado por neonazis. Acho que se enganou em quem invadiu quem”, atacou, perguntando a António Filipe se “continua a acreditar que Zelensky é apoiado por fascistas e neonazis” e que “o grande democrata é Putin”, e aproveitando para atacar o adversário na questão que mais tem deixado o PCP isolado nos últimos anos.

Ora António Filipe reagiu visivelmente irritado: “Não está mais longe de Putin do que eu. Se alguém está nos antípodas dele politicamente sou eu, não é o senhor”, disparou, deixando uma acusação de volta: “Não fui eu que disse que os jovens portugueses deviam morrer onde a NATO mandasse”. Com Gouveia e Melo a frisar que a Europa não deve ser uma “quinta coluna dos interesses fascistas da Rússia atual” e que Portugal deve cumprir os tratados internacionais — para contextualizar a sua afirmação sobre a necessidade de mandar jovens portugueses para defender outros territórios — novo ataque do almirante, retirado das munições mais clássicas e utilizadas contra o PCP, que fez António Filipe rir: “O senhor tem uma conceção da sociedade da ditadura do proletariado. O senhor anda a defender o património do Fidel Castro”.

Neste ponto, António Filipe defendeu-se dizendo que teve a honra de acompanhar Marcelo Rebelo de Sousa a Cuba e defendendo as relações diplomáticas com o país (“um PR não pode referir-se assim a quem tem a importância que Fidel Castro teve”, na “ânsia de atacar por via do anticomunismo”, respondeu, antes de frisar que o PCP abandonou a ideia de uma ditadura do protelariado antes do 25 de Abril).

Só neste ponto é que se passou ao tema que António Filipe desejava e no contexto do qual tinha ataques para devolver ao almirante: o pacote laboral e a greve geral de 11 de dezembro. Se Gouveia e Melo tinha chegado preparado com ataques a posições controversas do PCP, António Filipe vinha apostado em tentar provar que o almirante não se compromete com posição nenhuma.

Por isso, depois de Gouveia e Melo ter falado no papel do Presidente como um moderador que deve ajudar a “encontrar um consenso entre o Estado, os trabalhadores e os empregadores”, com a economia a ser “liberta de alguns entraves” mas com “coesão social” — um “novo contrato social”, resumiu — o comunista disparou: “Não se percebe o que Gouveia e Melo pensa sobre coisa nenhuma”. “Diz umas generalidades sobre este tema ou outro qualquer. Por muitas tentativas continuamos a não perceber. Procura explorar o facto de os eleitores do PS não se identificarem muito com Seguro e os de PSD com Marques Mendes”, disparou.

Estava lançada a discussão sobre o modelo económico e político defendido por cada um. Gouveia e Melo defende um modelo de “social democracia”, referiu, respondendo: “O seu modelo económico é o da estatização. Falhou em todo lado. A minha posição é totalmente clara. A do senhor é que é ideológica”. E António Filipe foi acusando o adversário de defender as prioridades do “rotativismo neoliberal”. Quanto à lei laboral, se o comunista diz que não ficará a “meio da ponte” e que espera que o diploma nem chegue a Belém, Gouveia e Melo assegura que há “margem negocial”.

No final, com Gouveia e Melo a prometer que como Presidente estará “do lado da estabilidade” e não será “nem uma marioneta do Governo, nem uma força de bloqueio”, os adversários saíram do estúdio tão distantes como tinham entrado.

O diálogo mais revelador

Henrique Gouveia e Melo: “Continua a acreditar que Zelensky é apoiado por fascistas e neonazis e que o grande democrata é Putin? Portanto, agora temos de capitular perante o senhor Putin?”

António Filipe: “Não está mais longe de Putin do que eu. Se alguém está nos antípodas sou eu, não é o senhor.”

Henrique Gouveia e Melo: “O senhor anda a defender o património do Fidel Castro.”

António Filipe: “Temos relações diplomáticas que nunca se quebraram, um Presidente da República não pode referir-se assim a quem tem a importância que Fidel Castro teve”.