A venda de uma parte do bloco petrolífero da Galp na Namíbia a um parceiro estratégico era esperada há mais de um ano, mas quando foi anunciado, em plena sessão da bolsa, foi grande o contraste entre benefícios descritos pelos gestores e a reação dos investidores.

Para a Galp, a troca de ativos com a francesa Total e a realização de uma parceria para o desenvolvimento de duas descobertas de petróleo feitas nas águas profundas da Namíbia é um negócio que alcançou todas as prioridades definidas pela empresa. Reduz “significativamente o risco do Mopane — grande descoberta de petróleo da Galp ao largo do país africano —, alinha um caminho concreto para desenvolver estes ativo e fortalece o portefólio de produção da empresa, foi referido em comunicado.

“Sentimos que alcançámos todas as prioridades” que tinham sido definidas para este negócio, defendeu um dos co-presidentes executivos da Galp, Maria João Carioca, aos jornalistas.

Mas a operação não convenceu, para já, os investidores que castigaram as ações da petrolífera com uma queda de 14,8% em bolsa, um trambolhão comparável na dimensão com o salto de 20% que a cotação em bolsa da Galp deu quando revelou a grande descoberta na Namíbia em março de 2024.

O acordo com a Total não tem associado qualquer valor em dinheiro. Pelo menos que tenha sido assumido publicamente. É uma transação com duas componentes. É uma troca de ativos de exploração na mesma zona — a bacia de Orange na costa sudoeste africana — entre a Galp e a Total. E é também um compromisso firme de financiamento por parte da petrolífera francesa de metade de todo o investimento que for necessário realizar para explorar e levar à produção a joia da Galp na Namíbia. E esta parte representa cerca de 70% do negócio conhecido esta terça-feira.

Galp faz parceria com a TotalEnergies para explorar petróleo na Namíbia

Um negócio “transformacional” para a Galp

É “transformacional para a Galp”, defendeu co-presidente executiva Maria João Carioca numa conferência de imprensa online. “Parece-nos uma troca muito equilibrada. Estamos a ser carregados pela Total”.

A Total garante o financiamento até 50% deste investimento (sem limite de valor), reduzindo a exposição financeira da Galp, mas também o risco de todo o projeto, já que a petrolífera francesa vai ser a operadora e alia uma grande experiência nestes ativos à capacidade financeira. A Galp reduz o investimento para desenvolver o Mopane para 25% (ficando com 40%) e recebe também duas participações em blocos que a Total tem na mesma bacia.

Um dos blocos em que a Galp entra, o Vénus, está num estado mais maduro de desenvolvimento. A decisão final de investimento deverá ser tomada em 2026 e a produção pode arrancar até 2030. A solução para explorar estes recursos já está definida, será através de um navio FPSO com capacidade para 160 mil barris diários. Aqui grande parte do investimento já está feito e a Galp vai apenas assumir o custo de 10% do que falta fazer.

No Mopane ainda é muito cedo para saber qual vai ser o investimento necessário —  os valores de referência da indústria para um projeto desta natureza rondam os 10 a 12 mil milhões de dólares —, a solução e os valores de produção. A Galp vai ficar com 40% deste bloco, cedendo metade da sua posição inicial à Total que fica com 40% e com o papel de operador, que vai pagar metade de todo o investimento e ser reembolsada com uma parte da futura produção de petróleo. Mantêm-se os dois acionistas locais Namcor e Custos, cada um com 10%.

Investidores que preferem cash a curto prazo ficaram menos entusiasmados

A diferente maturidade dos dois ativos é uma das explicações avançadas pelos gestores da Galp para a inexistência de um valor de referência para esta transação. “Não se pode passar um cheque para transacionar” os ativos, explica João Marques da Silva. O também co-CEO da Galp explica que estes ativos têm muitas variáveis. “Não pomos um número porque a indústria está consciente de que são ativos com um perfil de risco muito elevado”. Este é por isso um “negócio que é vivo” e cujo valor vai flutuar.

Questionado sobre a reação negativa dos mercados, João Marques da Silva admite que o negócio assenta num conjunto de indicadores que “ainda está a ser digerido”. Os investidores que apostam mais em benefícios de curto prazo e uma devolução de cash (dinheiro) mais rápida terão “ficado menos entusiasmados”. Mas insiste que na Galp, os gestores e os acionistas de referência “estão muito entusiasmados com o ativo” porque o “valor intrínseco do negócio está lá”.

A revelação do negócio durante a sessão bolsista — uma prática incomum para estas operações que em regra são anunciadas só depois do fecho do mercado — foi justificada pelo receio de uma fuga de informação e poderá ajudar a explicar uma primeira resposta negativa. João Marques da Silva confia numa regularização do valor das ações, à medida que o mercado for “maturando o negócio” e fazendo os seus cálculos.

Maria João Carioca sublinha que os dois blocos envolvidos nesta troca têm características muito diferentes. “O Vénus já nos permite ter uma ideia sobre a solução de produção” e existe uma avaliação de 4,6 mil milhões de euros. No Mopane, “estamos atrás, ainda não sabemos o conceito de desenvolvimento. Não adianta comparar porque vai depender do que for preciso fazer para produzir”. E neste caso ainda não existe um horizonte para uma decisão de investimento e muito menos de produção. Há sim o compromisso de realizar mais dois furos de exploração.

Os gestores destacam ainda as sinergias que as duas empresas vão conseguir de juntarem os seus ativos na mesma bacia petrolífera.