A reconstrução da Faixa de Gaza está a tornar-se palco de uma disputa com várias empresas republicanas norte-americanas a procurar posicionarem-se para dominar a ajuda humanitária e a logística do pós-guerra, num esforço avaliado pelas Nações Unidas em cerca de 59,5 mil milhões de euros. Fontes e documentos analisados pelo The Guardian indicam que, apesar de ainda não existirem condições formais para contratos de longo prazo, as empresas já estão em plena atividade — como é o caso do grupo que esteve por trás da construção do “Alligator Alcatraz”, o centro de detenção temporária de imigrantes localizado na Flórida.
Segundo o jornal, dois antigos responsáveis do DOGE, o programa liderado por Elon Musk para reduzir a despesa da administração pública federal, assumiram um papel central nestas negociações. Josh Gruenbaum, atualmente conselheiro sénior da task force, e Adam Hoffman, um jovem de 25 anos formado em Princeton, têm circulado com apresentações detalhadas com planos logísticos, preços, projeções financeiras e localizações de armazéns. “A impressão é que o que esses tipos dizem é o que vai acontecer”, afirmou uma pessoa familiarizada com o processo, sublinhando a perceção de que o poder está concentrado num círculo muito restrito.
Hoffman, que tem um percurso de ativismo conservador desde a adolescência e uma breve passagem pela primeira administração Trump, é descrito por várias fontes como o motor das propostas mais recentes. Um documento de planeamento, classificado como “sensível, mas não confidencial”, descreve uma nova “arquitetura logística de abastecimento de Gaza”, assente num “empreiteiro-mestre” responsável por fazer entrar diariamente 600 camiões humanitários e comerciais. O modelo prevê taxas de 1.700 euros por camião de ajuda e 10.200 euros por camião comercial, o que poderia gerar receitas anuais de cerca de 1,4 mil milhões de euros só em transporte.
A centralidade do transporte é um grande pilar deste plano. Antes da guerra entravam em Gaza cerca de 500 camiões por dia, sustentando uma população de 2,1 milhões de pessoas. Desde o 7 de Outubro de 2023, Israel tem restringido as entradas e saídas, permitindo uma média de apenas 140 camiões diários, apesar do acordo de cessar-fogo prever 600.
É neste contexto que as empresas norte-americanas se posicionam para liderar a reconstrução do enclave palestiniano. “Toda a gente está a tentar ficar com um pedaço disto”, disse uma das fontes, comparando a corrida a “outro Iraque ou Afeganistão”, onde muitos “tentam enriquecer”. Uma das empresas mais bem colocadas é a Gothams LLC, que ganhou um contrato de 28 milhões de euros para ajudar a gerir o centro de detenção “Alligator Alcatraz”.
Os documentos analisados pelo Guardian indicam que a Gothams tinha uma “vantagem” para assegurar aquele que poderia ser o contrato mais lucrativo da sua história, apresentando ao futuro Conselho de Paz uma proposta de “sistema logístico humanitário totalmente integrado” para operações de larga escala em Gaza. O fundador da empresa, Matt Michelsen, é um republicano com fortes ligações políticas e doações significativas ao governador do Texas, Greg Abbott, e ao governador da Flórida, Ron DeSantis, tendo beneficiado de contratos públicos de grande valor durante a pandemia.
Michelsen reconheceu ter apoiado Abbott porque “gosta dele” e afirmou ao Guardian estar “limitado” no que podia dizer sobre Gaza. “Concordei em não partilhar nada sobre o governo”, disse. Ainda assim, admitiu que “a premissa original mudou” e que o plano “cresceu massivamente” nas últimas semanas. Contudo, anunciou, durante uma entrevista ao Guardian, que a empresa já não vai participar no processo de reconstrução da Faixa de Gaza por receios de segurança e má publicidade. “As vossas questões atingiram-me. A Gothams não vai participar. Desejo-lhes boa sorte”, disse.
Apesar da a Gothams sair de cena, a luta de empresas continua. O porta-voz da task force dos Estados Unidos, Eddi Vasquez, garantiu, no entanto, que o processo está “numa fase inicial” e que “não foram tomadas decisões finais”. Ainda assim, vários empreiteiros têm viajado para a região palestiniana para se reunirem com responsáveis norte-americanos e potenciais parceiros, numa corrida silenciosa para garantir uma boa posição no domínio da ajuda humanitária e da logística do pós-guerra.