A investigação a Paulo Abreu dos Santos, ex-adjunto do Ministério da Justiça suspeito de mais de 500 crimes de pornografia de menores e de dois crimes de abuso de menores, também incidirá na casa de culto aos orixás, da religião afrobrasileira do Candomblé, que este frequentava.

O Observador sabe que a Polícia Judiciária (PJ) vai investigar o terreiro — nome que designa uma casa de culto — Ilê Axé Omo Oxum, em Vale de Milhaços, Corroios, onde Paulo Abreu dos Santos praticava a sua religião há mais de dez anos. Fontes ouvidas pelo Observador que entretanto abandonaram o espaço religioso afirmam que também havia crianças presentes durante os cultos frequentados por Paulo Abreu dos Santos. Contudo, estas mesmas pessoas nunca repararam em sinais de condutas ilegais com menores, e desconhecem se foram feitas denúncias.

Ao Observador, Alexandrina Rodrigues, a mãe de santo ou líder da comunidade da Ilê Axé Omo Oxum, garante que nunca recebeu queixas. “Nada, nada, nada”, afirma. Durante os rituais, frisa que Paulo Abreu dos Santos “normalmente” não estava perto de menores, mas que “havia crianças a brincar, como sempre houve”, no local.

Várias fontes ouvidas pelo Observador dizem que Paulo Abreu dos Santos investia bastante dinheiro no terreiro, sendo que algumas o descrevem como braço-direito da “mãe Alexandrina”. “Era uma pessoa proativa e de entreajuda, como muitas outras. Mas eu não conhecia a vida privada dele, não”, sublinha a própria. Recusa que o advogado colocado em prisão preventiva fosse seu assistente mais próximo ou muito ativo financeiramente. “[Era o] Normal. Se ele fosse comprar flores, se fosse comprar alimentos, porque nós fazemos rituais com alimentos, não é? Logicamente, levaria como qualquer pessoa faz.”

“Era uma pessoa que era proativa com toda a gente, todos gostavam dele”, alega, apesar de algumas fontes ouvidas pelo Observador discordarem. Mas como a mãe de santo Alexandrina, todas se dizem surpreendidas com a detenção do advogado.

Contudo, a líder do Ilê Axé Omo Oxum, que abriu atividade em abril de 2007 como organização religiosa, descarta uma investigação interna como as já anunciadas pela Faculdade de Direito de Lisboa ou a firma de advogados Ana Bruno & Associados, também ligadas a Paulo Abreu dos Santos. “Estou à espera que [as autoridades] me digam alguma coisa também, não é? Ainda não tenho informações nenhumas, mas também não tenho que andar a fazer investigações. Deixo para elas a investigação.”

Advogado de Paulo Abreu dos Santos renunciou à defesa

Marco Antão, que tinha sido contratado para representar Paulo Abreu dos Santos, renunciou à defesa. Segundo o Expresso, alegou “objeção de consciência”. O advogado é suspeito de ter abusado de duas crianças com cerca de dez anos, que terá filmado enquanto abusava delas.

O advogado foi colocado em prisão preventiva no estabelecimento prisional da Carregueira. Após buscas feitas à sua casa, foram encontrados mais de 500 vídeos de pornografia infantil, bem como dois vídeos em que surgia Paulo Abreu dos Santos.

A sociedade de advogados onde trabalhava, a Ana Bruno & Associados, também foi alvo de buscas.

Paulo Abreu dos Santos foi adjunto do Ministério da Justiça liderado por Catarina Sarmento e Castro, entre 2023 e 2024. Até à sua detenção, era professor assistente convidado da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL).