Álvaro Santos Pereira defende que devia ser tornado público o tempo médio que cada município demora a licenciar uma obra de construção habitacional, com “transparência”, para que “depois pudéssemos comparar e perguntar porque é que se demora mais nuns do que noutros”. Para o governador do Banco de Portugal, que considera que a resposta à crise no acesso à habitação se resolve com “oferta, oferta e oferta“, isso ajudaria a solucionar um dos problemas principais – embora não o único – para a falta de casas no mercado português, que é o tempo “longo” que demora a aprovar um projeto de licenciamento.

A recomendação foi feita publicamente pelo governador do Banco de Portugal durante a apresentação do Boletim Económico trimestral, o primeiro que foi apresentado por Álvaro Santos Pereira. Este boletim inclui um “tema em destaque” que explora o impacto das tendências demográficas no problema do acesso à habitação em Portugal. A conclusão desse estudo é que houve uma diminuição da dimensão média dos agregados familiares que tornou mais intensa a procura por casas. Além disso, nos últimos anos, a chegada de novos residentes ao país também teve um impacto, ofuscando o facto de o saldo natural (nascimentos menos mortes) ser negativo.

Na análise do Banco de Portugal, o número de famílias no país cresceu, em média, cerca de 35 mil por ano nas últimas quatro décadas. “A variação do número de famílias, que corresponde à procura de residências habituais, altera-se não apenas com a variação da população, mas também com variações na dimensão média das famílias”, pode ler-se no estudo.

Os dados mostram que as famílias encolheram de uma média de 3,4 elementos em 1981 para 2,6 em 2011, o que é fruto de vários fatores: o aumento da esperança de vida, a descida das taxas de fertilidade e, também, o menor número de uniões familiares (fator onde se inclui as famílias monoparentais e os divórcios). Segundo o estudo, feito pelos economistas Sónia Costa, Carlos Santos e Carla Soares, estas mudanças demográficas foram responsável por mais de 70% do aumento no número de famílias no período.

Álvaro Santos Pereira anula previsão de Centeno de défice este ano mas alerta que contas públicas vão ficar cada vez mais “no vermelho”

Neste contexto, em viva voz, na conferência de imprensa, Álvaro Santos Pereira considerou, sobre as medidas do Governo como o IVA a 6% na construção, que “todas as medidas que possam estimular a oferta são bem-vindas, neste momento”.

Mas Santos Pereira afirmou que “grande parte” do constrangimento ao nível da oferta está nos “municípios”. Os “licenciamentos não estão a ser ágeis o suficiente“, afirmou o governador do Banco de Portugal, acrescentando que “gostaria que nós publicássemos a duração média dos licenciamento de todos os municípios, de forma transparente, para que toda a gente pudesse saber quanto tempo demora construir em Lisboa, no Porto, em Castelo Branco ou noutra cidade qualquer”.

Isso permitia que, depois, “pudéssemos perguntar ‘então, porque é que aqui demora um tempo e no município a ou b outro’, e depois ver o que é que podíamos fazer para aumentar o ritmo da construção”.

Neste momento, há um “desfasamento bastante grande entre oferta e procura”, por isso “temos de fazer com que haja estímulos à oferta, quer ao nível do Governo, dos municípios, da atração de mais profissionais para o setor”, defendeu Álvaro Santos Pereira.