Ahmed al-Ahmed agiu sem pensar. Quando na manhã do dia 14 de dezembro começou a ouvir o som de tiros na praia de Bondi, na cidade australiana de Sydney, atirou-se sobre um dos atiradores. “Não consegui suportar ouvir as crianças, as mulheres, os idosos e os homens a gritar e a pedir ajuda”, disse na primeira entrevista que concedeu desde o ataque durante a celebração judaica do Hanucá.
“A minha alma e tudo o que há em mim, os meus órgãos, o meu corpo, o meu cérebro pediram-me para agir, para defender e salvar vidas inocentes”, recordou à CBS News. A entrevista foi gravada depois de ter saído do hospital, onde esteve internado várias semanas por ter sido atingido por cinco balas. “Não queria ver pessoas a ser mortas à minha frente. Não queria ver o sangue. Não queria ouvir a arma dele. Não queria ver pessoas a gritar e a suplicar, a pedir ajuda e por isso a minha alma pediu-me para agir”, disse o dono de uma frutaria, de 43 anos.
Ahmed Al-Ahmed estava a tomar café com um primo quando dois atiradores, Sajid e Naveed Akram, pai e filho, começaram a disparar contra a multidão em Bondi Beach. Num vídeo partilhado nas redes sociais, é possível ver o homem agachado atrás de um carro e a levantar-se do esconderijo para surpreender por trás Sajid, que disparava uma espingarda. Depois de uma luta, Al-Ahmed consegue tirar a arma ao atacante.
Sidney Australia terror attack.
2 guys with shotguns.
Now imagine 7 man teams armed with automatic weapons. Is America ready for what's coming? The homeland plot isn't going away. 9/11 2.0 is on the doorstep. Prepare. pic.twitter.com/T34cIK4WY4— RVfamilyman (@jerryonsold) December 14, 2025
Nas imagens ainda se vê Al-Ahmed a apontar a espingarda ao atacante, que vai recuando. “O meu objetivo era só tirar-lhe a arma e impedi-lo de tirar mais vidas e matar mais pessoas inocentes“, afirmou na entrevista. Questionado sobre se em algum momento, já na posse da arma, pensou disparar, garantiu que não. “Não queria sangue nas minhas mãos. Não acho que seja alguém que possa tirar a vida a alguém”.
Muçulmano nascido na Síria e há cinco anos com nacionalidade australiana, o “herói de Bondi” admitiu estar orgulhoso pela sua ação rápida que permitiu salvar vidas, mas lamentou não poder ter feito mais pelos que acabaram por morrer. “Estou orgulhoso do que fiz, salvei vidas de inocentes porque não fugi e tirei a arma dos terroristas. Teria sido um desastre, com mais vítimas“, considerou.
No dia 14 de dezembro, Sajid e Naveed Akram abriram fogo pelo menos 40 vezes, durante cerca de dez minutos, contra uma multidão reunida na praia de Bondi que celebrava a festa judaica de Hanucá. Segundo as autoridades australianas, 15 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas. O primeiro-ministro Anthony Albanese admitiu que o ataque foi provavelmente “motivado pela ideologia” do grupo Estado Islâmico.
Albanese diz que ideologia do Estado Islâmico pode ter motivado ataque em Sydney
Al-Ahmed foi uma de várias pessoas que tentaram parar os atiradores. Boris e Sofia Gurman, casados há mais de 30 anos, também intervieram para impedir o ataque, mas foram mortos por Sajid Akram. Com duas balas alojadas no ombro e sabendo pelos médicos de que poderá nunca recuperar totalmente, o comerciante apelou ao fim da violência. “O que eu quero dizer a todos e em todo o mundo, não apenas na Austrália, é: ‘Por favor, parem o terrorismo e parem o ódio. Amem toda a humanidade, independentemente da religião. Somos todos seres humanos'”.
Questionado sobre se voltaria a agir do mesmo modo perante o ataque, Al Ahmed garantiu que sim — “a qualquer momento” –, acrescentando que espera isso não volte a ser necessário em nenhum lugar do mundo.