O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, teve um papel crucial no processo de reconciliação entre Donald Trump e o multimilionário Elon Musk, que entrou em confronto com o Presidente no verão deste ano (com Musk a chegar a ameaçar fundar um terceiro partido para competir com o Partido Republicano) e que regressou à Casa Branca no final de novembro para o jantar em honra do príncipe saudita, em que também esteve o futebolista português Cristiano Ronaldo.
O envolvimento de Vance neste processo foi noticiado esta segunda-feira pelo The Washington Post, num longo artigo feito a partir de entrevistas a dezenas de fontes que testemunharam o esforço negocial levado a cabo pelo vice-presidente norte-americano. Aliás, o jornal dá conta de que Vance deverá ser o principal beneficiado do regresso de Musk à esfera da administração Trump e do Partido Republicano: o atual vice-presidente é visto por muitos como o mais nome mais viável para suceder a Trump na Casa Branca e manter a influência do movimento MAGA no governo norte-americano e, para isso, o apoio de Musk será fundamental.
Elon Musk, rosto de empresas globais como a Tesla, o X (antigo Twitter) e a SpaceX, foi um dos principais apoiantes da campanha eleitoral de Donald Trump e, logo após a eleição, integrou a Casa Branca através do célebre DOGE, o Departamento de Eficiência Governamental — entidade unicamente destinada a cortar custos nos vários departamentos e unidades orgânicas do governo. Nos primeiros meses, despediu milhares de funcionários públicos e desmantelou organismos e departamentos, incluindo a agência norte-americana para o desenvolvimento internacional (USAID), deixando projetos sociais por todo o mundo em risco.
A ação de Musk gerou fortes protestos e terá surpreendido os elementos da administração Trump, sobretudo quando o multimilionário começou a disparar em todas as direções — incluindo na dos membros do governo. Rapidamente começaram a vir a público os muitos conflitos internos entre Musk e os elementos da equipa de Trump, até que os dois entraram numa rota de colisão que culminou na extinção do DOGE e nas duras críticas de Musk ao orçamento e à política migratória de Trump.
Em pouco tempo, Musk, que tinha sido o grande conselheiro (e, na prática, o número dois do governo) de Trump, estava afastado da Casa Branca e não poupava nas críticas à administração. No verão, Musk chegou mesmo a anunciar a criação de um novo partido, o Partido da América, para lutar pelo poder político nos EUA e para “devolver a liberdade” aos americanos.
Esse momento terá sido decisivo para que, no universo MAGA, começassem a soar os alarmes: se Musk, um dos grandes financiadores do Partido Republicano e da candidatura de Trump, fundasse um novo partido, a direita norte-americana arriscava ver o seu eleitorado (e o seu dinheiro) dividido entre dois partidos. JD Vance — um amigo de longa data de Musk que, como descreve o The Washington Post, partilha com ele “não apenas uma visão do mundo permeada pela tecnologia, mas também uma afeição pelo desempenho online” — foi um dos que, na Casa Branca, mais rapidamente perceberam o perigo.
Após sondagem no X, Elon Musk diz que “hoje foi formado o Partido da América”
De acordo com aquele jornal, Vance desdobrou-se em contactos com o próprio Musk e com vários elementos do seu círculo mais próximo, para tentar demovê-lo de fundar um novo partido. Um dos momentos decisivos, diz o The Washington Post, terá sido o assassinato do ativista político Charlie Kirk, em setembro, que incentivou Musk a envolver-se novamente com os republicanos. Por outro lado, conta o jornal, muitos dos elementos mais politizados em torno de Musk começavam a mostrar hesitação em aventurar-se num novo partido que, se corresse mal, deixaria as suas carreiras no Partido Republicano em risco.
JD Vance terá, nessa fase, sido um dos principais impulsionadores de um regresso de Musk à órbita de Trump — promovendo, por exemplo, a nomeação de Jared Isaacman, aliado de Musk, para administrador da NASA. Trump tinha resistido à nomeação de Isaacman, que no passado tinha contribuído com donativos para o Partido Democrata (uma resistência que contribuiu para o afastamento de Musk). Já em novembro, Musk terá convocado uma reunião com antigos elementos do DOGE para lhes falar das suas perspetivas políticas — e, nesse encontro, terá dito que os EUA se encontravam no princípio de um “grande período de 12 anos”, com o mandato de Trump e, eventualmente, oito anos de JD Vance como Presidente a partir de 2028. Vance estará a contar, ao que tudo indica, com o apoio de Musk nesse empreendimento.