Todos querem resolver “o problema da habitação” e evitar uma possível ocupação norte-americana da Gronelândia. Naquele que foi o seu primeiro debate desde que se introduziram na corrida até Belém, André Pestana, Humberto Correia e Manuel João Vieira juntaram-se na Antena 1 para defender o “abanão” do sistema político nacional, o “cumprimento da Constituição” e um “pulo sobre um abismo” para resolver os problemas de Portugal.
As críticas sobre a exclusão dos três candidatos no debate das rádios, na passada sexta-feira, foram logo o primeiro tema em cima da mesa, levantado pelo professor e antigo dirigente sindical André Pestana. “Há portugueses de primeira e de segunda, tal como há candidatos de primeira e de segunda. É preciso ter coragem para enfrentar os privilégios das minorias”, afirmou André Pestana, referindo-se não só “aos mais ricos”, como às máquinas partidárias.
Humberto Correia “veio da pobreza” e foi a “pobreza de muitos portugueses que o trouxe até aqui”. Autor e pintor há várias décadas, tanto em França como na baixa de Faro, este candidato presidencial vincou que a principal missão da sua candidatura é “resolver o problema da habitação para todos os portugueses”, destacando que este é o “maior problema do povo português”. “Só há um caminho: o Estado tem de construir e alugar a um preço acessível”, propõe Humberto Correia, dando exemplo de uma renda controlada de 90 euros mensais para habitações de 30m2. Promete, também percorrer o país com o traje de Dom Afonso Henriques.
A “espontaneidade” é a chave para Manuel João Vieira, que diz apresentar um programa “fértil a ideias”. Considera que a sua “inexperiência” é a “mais alta qualificação para governar”, referindo que acorda “com um olhar diferente para as coisas”. “É preciso uma nova atitude”, defende o músico e candidato presidencial, que avança com a proposta de construção de “Vieirópolis“, uma cidade construída no Centro Geodésico de Portugal, que deverá acolher um milhão de pessoas vindas do litoral, num esforço para “recolonizar o interior”, onde existem atualmente “muitas aldeias sem ninguém ou com meia dúzia de alemães.
André Pestana acredita que o Presidente da República “tem de tomar partido com aquilo que interfere com o trabalho e as condições de vida da maioria da população” e que não deve ser “calado”, “ao contrário do que tem acontecido”. O professor aproveitou a oportunidade para criticar a postura de Marcelo Rebelo de Sousa sobre o pacote laboral apresentado pelo Governo que levou à convocação da Greve Geral do passado mês de dezembro, referindo que “o Presidente da República deveria estar ao lado dos trabalhadores”.
Já Manuel João Vieira considera que o Presidente deve ser “ágil e elástico” e que deve fazer “aquilo que a consciência lhe ditar”. Não deve, no entanto, usar os seus poderes “à maluca”. O músico vocalista da banda Ena Pá 200 diz que aquele que for eleito no próximo dia 18 de janeiro deve pronunciar-se sobre matérias de política externa, dando o exemplo do “pato” Donald Trump e das “ameaças de invasão” da Gronelândia. “Sou o único candidato com várias personalidades e vou usá-las para as várias ocasiões com que me deparar”, acrescenta.
A preparação para o “banho de sangue” na Venezuela e a possível invasão do “pato” Donald
“Donald Trump é um agressor e anti-democrata”, afirmou André Pestana, quando o debate passou pelos temas de política externa que estão mais acesos na atualidade. O anterior dirigente do Sindicato de Todos os Profissionais da Educação (STOP) considera a detenção de Nicolás Maduro e da sua mulher em Caracas como um “rapto” levado a cabo pelo Presidente dos Estados Unidos da América, quem considera promover “o regresso ao faroeste”. “Hoje é Venezuela, amanhã pode ser qualquer outro sítio do mundo”, atirou.
Este tema levantou a primeira discordância entre os candidatos, depois de André Pestana ter introduzido a manifestação que se organizou esta segunda-feira em Lisboa, junto da estátua de Simón Bolívar na Avenida da Liberdade. Para Humberto Correia, “é um crime” que a estátua do estadista venezuelano tenha sido introduzida como substituta da estátua do navegador português João Vaz Corte-Real, que estava erguida naquele mesmo local.
Sublinhada esta divergência, o único candidato algarvio acrescenta que “Portugal não pode sair da NATO nem da União Europeia” e apela à união da Europa, referindo que a invasão da Gronelândia “não pode acontecer”. Ainda sobre a Venezuela, pede ao Governo que se prepare para um “banho de sangue” — uma eventual “guerra civil” que admite acontecer após a detenção do Presidente venezuelano.
Sobre a NATO todos concordam. André Pestana é “totalmente contra os 5% da NATO”, defendendo antes uma “guerra contra os baixos salários e a precariedade”. Humberto Correia diz que o “povo português não precisa de guerras” e que o “dinheiro investido em armas tem de ser canalizado para a Habitação”. Por fim, Manuel João Vieira dá o exemplo da “Bomba V” — um “raio laser que chega a qualquer sítio do mundo em cinco segundos” e que é “ficção científica pura” — para apelar a um investimento “inteligente” na Defesa.
A aposta na prevenção da doença e as “prostitutas psicólogas”
Para além da Habitação e da Defesa, os problemas na Saúde estão sempre no topo da agenda mediática. André Pestana acredita que existe uma “falta de investimento nos recursos humanos” e que as carreiras no setor “estão pouco valorizadas”.
“Menos consumo, menos lixo, menos poluição, mais Saúde e melhor planeta”. Estes são os cinco pontos defendidos por Humberto Correia, referindo que podem ser utilizados tanto no âmbito da Saúde, como da Educação. Reforçando uma aposta na prevenção da doença — “sobretudo na higiene dental” — garante que as pessoas “não precisam de hospitais se não consumirem venenos”.
Repetindo aquelas que têm sido as bandeiras da sua campanha presidencial, Manuel João Vieira acredita que “devia ser proibido estar doente” e compromete-se a “acabar definitivamente com a doença”. “Quem tossir vai para a ilha da Madeira ter aulas de ioga”, acrescenta.
O tema da Eutanásia também foi introduzido no debate e todos os candidatos presentes apresentaram uma resposta distinta. Para André Pestana, “não é necessário” qualquer referendo e deve ser legalizada após um processo “ponderado” e com olhos nos países onde já é uma possibilidade. Humberto Correia, conciso na sua resposta, admite que tem de haver um referendo se a medida for aprovada em Tribunal Constitucional.
Manuel João Vieira defende “uma espécie de prostituta psicóloga em cada esquina” como ferramenta para avaliar o estado psicológico e físico das pessoas, referindo que o tema da Eutanásia pode ser “objeto de referendo duro de roer”.