Com 92 anos e largas décadas como juiz, a extensão dos casos julgados por Alvin K. Hellerstein é tão impressionante quanto a sua abrangência. Esta segunda-feira, quando entrar no imponente edifício judicial de 27 andares, em Nova Iorque, para ouvir Nicolás Maduro, o magistrado não vai estranhar a presença massiva de jornalistas de todo o mundo. Afinal, a atenção mediática não é novidade para quem esteve no início do #Metoo, decidiu indemnizações do 11 de setembro e está a julgar um ex-general venezuelano acusado de tráfico de droga.

“Sinto que é minha obrigação ouvir e só depois aplicar a lei, tal e qual como a entendo”, chegou a dizer numa entrevista. A postura séria e imparcial do experiente juiz é destacada pela imprensa norte-americana. A par disso, goza de um profundo conhecimento dos temas que vão a julgamento, dada a recente ligação ao caso do general Hugo ‘El Pollo’ [o Frango] Carvajal.

“Toneladas de cocaína” e “passaportes falsos”. O que diz a acusação da Justiça dos EUA a Maduro, à primeira-dama e ao seu braço-direito

Criado numa família de judeus ortodoxos, Hellerstein pouco se afastou de Nova Iorque. Nasceu em 1933 na “cidade que nunca dorme” e licenciou-se em direito na Universidade de Columbia, a menos de dez quilómetros do tribunal que esta segunda-feira recebe Nicolás Maduro. “Quando me tornei juiz, não importava se era ortodoxo ou não”. Defensor da imparcialidade, independentemente da educação, identidade ou valores religiosos, chegou a ser funcionário dos tribunais a que agora preside e passou pelos serviços legais do Exército antes de começar uma carreira de várias décadas como advogado penal.

Quando trocou o lugar de defensor pelo papel de juiz, Hellerstein já somava muita experiência em tribunais e granjeava uma reputação de imparcialidade, mesmo sendo um membro proeminente da comunidade judaica de Nova Iorque. Foi em 1998, descreve o jornal ABC, que foi nomeado por Bill Clinton para o posto que ainda ocupa passados 30 anos na ‘comarca’ Sul de Nova Iorque — por onde passam alguns dos casos mais importantes da justiça norte-americana.

Nicolás Madura na chegada ao tribunal de Nova Iorque, 5 de janeiro de 2026 Captura de ecrã vídeo em direto

Antes do caso de Maduro, o processo mais mediático que lhe passou pelas mãos terá sido o de Harvey Weinstein, o superprodutor de Hollywood envolvido num escândalo sexual que alavancou o movimento #Metoo. Além disso, julgou pedidos de indemnizações relativos aos atentados terroristas do 11 de setembro e a revelação de abusos cometidos pela CIA na prisão de Abu Ghraib, no Iraque.

O passado judicial já o levou a decidir sobre um tema que também cruzava Trump e a Venezuela. Em maio, foi um dos juízes que declararam ilegal a intenção da Casa Branca de utilizar a Lei de Inimigos Estrangeiros de 1798 para deportar imigrantes venezuelanos para El Salvador saltando mecanismos processuais legais.

Antes disso, Hellerstein tinha considerado que o reembolso feito por Trump a Michael Cohen — que facilitou pagamentos para silenciar a atriz pornográfica Stormy Daniels — não constituía um ato oficial relacionado com a presidência dos EUA. Apesar do longo historial com diferentes casos, a imprensa norte-americana destaca a ligação do veterano juiz ao narcotráfico na Venezuela. Além do caso que agora chega a tribunal, Hellerstein tem estado ocupado com o julgamento do venezuelano Hugo Carvajal.

As imagens da chegada de Nicolás Maduro ao tribunal de Nova Iorque

‘El Pollo’, como ficou conhecido, foi líder dos serviços de informação do ‘chavismo’ e acabou detido, em Espanha, em 2019, tendo sido extraditado passados quatro anos para os Estados Unidos da América. Foi acusado, com Maduro e outros quatro líderes da ditadura venezuelana, de narcotráfico. No último verão, recorda o El País, o antigo general confessou o crime de narcoterrorismo e tem estado a colaborar com as autoridades norte-americanas.

Com tanta experiência, espera-se que Hellerstein seja o juiz capaz de liderar uma fundada acusação contra Maduro. No entanto, como chegou a admitir Trump, há a possibilidade, ainda em aberto, de o caso ser transferido para a Florida.

Para já, Maduro, capturado no sábado pelos EUA, tem apenas agendada uma audição, esta segunda-feira, para responder a quatro acusações: narcoterrorismo, tráfico de cocaína, posse de armas, posse de armas para atacar os EUA. As acusações estendem-se à sua mulher, ao seu filho e a outros dois oficiais de relevo no seu governo.

A confirmar-se que se mantém em Nova Iorque, o julgamento decorre no edifício Daniel Patrick Moynihan, descrito pelo New York Times como uma torre “imponente” de granito, mármore e carvalho perto da Chinatown. O mesmo tribunal onde foi condenado Juan Orlando Hernández, ex-Presidente das Honduras, entretanto perdoado por Donald Trump.