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“Leais sempre, traidores nunca!”. O grito fez-se ouvir durante a noite desta segunda-feira pela cidade de Caracas pela voz de vários grupos de civis venezuelanos. Reconhecíveis pelas roupas pretas e pelo facto de andarem fortemente armadas, estas milícias urbanas, apoiantes do regime chavista, são conhecidas na Venezuela como “colectivos“. Três dias depois do ataque norte-americano que depôs Nicolás Maduro, os “colectivos” voltaram a sair às ruas da Venezuela em peso.
No rescaldo do ataque, os herdeiros políticos de Maduro mostraram uma frente unida e apelaram à população para se mobilizar a favor da libertação do Presidente deposto, ao mesmo tempo que a Presidente interina, Delcy Rodríguez, se mostrou disponível para “colaborar” com os Estados Unidos. Nas ruas, notou-se a ausência de uma forte aparelho militar — cenário expectável no seguimento do ataque — e a capital estava “tensamente tranquila”.
No dia do ataque norte-americano, Alejandro Velasco, historiador da América Latina na Universidade de Nova Iorque, argumentava ao New York Times que esta calma era uma estratégia ponderada do regime para demonstrar a Washington a sua capacidade de manter a lei e a ordem. “Imagino que os ‘colectivos’ tenham recebido ordens para não dar nas vistas”, elaborou o especialista.
Contudo, esta ordem — se é que alguma vez existiu — durou pouco. Ao longo do fim de semana, as milícias voltaram a ocupar as ruas, processo que culminou nas demonstrações mais visíveis da noite passada. Ao lado dos “colectivos”, pelas ruas de Caracas, estava Diosdado Cabello, ministro da Justiça e da Administração Interna, considerado o “braço direito” de Nicolás Maduro.
“Ele é muito má pessoa, muito rancoroso. Eu não sei quantas pessoas tem do seu lado. Esperemos que o Exército fique do lado do povo e ele perca algum controlo”, comentou um cidadão venezuelano, Jorge, à BBC. Os sentimentos de Jorge sobre Diosdado refletem-se no “medo” que diz sentir dos “colectivos” que lhe são fiéis — medo que é partilhado por muitos outros venezuelanos.
“A pressão [destes grupos] sobre as pessoas tem sido muito maior. E ainda que estejamos habituados a vê-los, fica-se sempre intimidado nestes dias, com tanta tensão”, declarou um residente da favela de Catia, no oeste de Caracas, ao El Espanol. Depois das demonstração na noite de segunda-feira, que contaram com a presença do ministro, as ações continuaram esta terça-feira. Relatos na imprensa local e nas redes sociais davam conta da presença dos “colectivos” em estabelecimentos comerciais, mas também em algumas das principais artérias da capital, onde circularam de mota — em grupos pequenos, mas que, de armas punho e motores a acelerar, não passaram despercebidos.
Os “colectivos” consolidaram-se como um dos “pilares fundamentais” do regime ainda durante a liderança de Hugo Chávez. Depois do golpe de Estado contra o governo chavista em 2002, grupos que atuavam a nível local passaram a ser armados e financiados por Caracas como forma de combater dissidentes. A sua presença é particularmente visível em protestos anti-regime, como instrumento de repressão da oposição — esta ação foi visível no rescaldo das eleições de 2024, consideradas fraudulentas.
Hoje, os “colectivos” são milícias civis armadas que respondem perante o governo e atuam ao lado das autoridades policiais e militares, enfrentando poucas ou nenhumas consequências pela utilização de força excessiva ou mesmo letal no desempenho das suas funções — o que contribui para o clima de medo que a sua presença nas ruas gera. Ao New York Times, Alejandro Velasco explica que as suas características dificultam uma contabilização exata do número de membros, mas estima que sejam vários milhares.