Dois dias de campanha, uma sondagem negativa e apelos ao voto útil sem fim. A tracking poll da CNN, que coloca Luís Marques Mendes em quinto lugar (com os primeiros cinco candidatos muito próximos e dentro da margem de erro), foi usada pelo candidato para servir um propósito: mobilizar ao máximo o seu eleitorado natural, para assegurar que não fica à porta da segunda volta.
Prometendo não “perder o entusiasmo” com esta sondagem tal como não embandeirou “em arco” com outras — embora, em rigor, muitas vezes tenha usado sondagens positivas para se dizer confiante na passagem à segunda volta –, Mendes aproveitou para carregar no apelo ao voto útil: “Apelo a que os eleitores do centro não dispersem votos. Se houver grande dispersão corro o risco de perder a eleição, sejamos francos. Se houver concentração posso ganhar, provavelmente”.
Feita a dramatização necessária, num momento em que o PSD teme que o seu eleitorado disperse (e a sondagem parece apontar para isso mesmo), Mendes disse-se ainda assim “surpreendido” por acreditar que o resultado não “bate” com o acolhimento que sente na rua. Além disso, considerou “curiosa” a proximidade dos primeiros candidatos — o que significa que “está tudo em aberto” — e positivo que os inquiridos acreditem que que vai passar à segunda volta.
“Não vou mudar nada. Vou continuar a trabalhar com humildade, sem triunfalismo”, prometeu em declarações aos jornalistas, depois de uma manhã passada a distribuir desejos de bom ano pelos vendedores do mercado e pelos grupos de crianças que por ali cantavam as janeiras. Sempre ao lado da mulher, Sofia, muitas vezes a ponta de lança para contactos e uns minutos de conversa simpática com quem passa.
Com o aparelho do PSD sempre representado, Mendes ainda se meteu com o secretário-geral e líder parlamentar, Hugo Soares, enquanto este bebia um café, aproveitando para voltar a fazer a distinção entre ser apoiado pelo PSD e ser apoiante deste Governo.
— O senhor é de cá?
— O senhor aparecia na televisão! Estava quase sempre certo, mas batia muito nos laranjinhas…
— É a independência! Habituem-se…
Fora do mercado, Mendes aproveitaria ainda para lançar um recado, dirigido sobretudo à oposição mas também aos “laranjinhas”, quando assumiu que a sua “principal tarefa” se for eleito Presidente será “negociar os Orçamentos de Estado para evitar crises”.
Lembrando que partidos como o PS distinguiram a decisão de viabilizar o OE deste ano da que poderão tomar no próximo, o candidato considerou que essa incerteza é “má”. “Faço desta questão essencial porque o país precisa de estabilidade (…) um Governo tem de ter tempo para apresentar resultados . O que vou fazer é juntar as partes, aproximar posições para fazer pontes de entendimento”.
“Quando não se trata de evitar o chumbo é mais difícil. É previamente que se criam condições”, defendeu, assumindo que é também por causa deste compromisso que “está tudo em causa nesta eleição”. “Os portugueses devem agir com coração e razão. Não se pode entrar em brincadeiras nesta fase do campeonato”, apelou. Mais um argumento para defender o pragmatismo do voto útil.
Quanto aos adversários que têm falado em Sá Carneiro, e à resposta que Cavaco Silva lhes dirigiu num artigo de opinião publicado no Observador, Mendes concordou com o seu apoiante, “talvez o melhor Presidente da democracia”. “Vários adversários meus falam de Sá Carneiro não para, homenagear mas por oportunismo puro. Era contra tudo aquilo que alguns deles apregoam: não era radicalismo, extremismo, arrogância e experimentalismo”.
Também a invocação de Passos é abusiva e de um “certo oportunismo”: “A única decisão que tomou foi não tomar decisão nenhuma”. E Mendes quer, sobretudo, que o eleitorado da AD se lembre disso na altura de votar.