Quem visse a cena do almoço na Batalha este domingo, dia inaugural da corrida a Belém, poderia pensar que já se vivia o fim da campanha presidencial. Bandeiras no ar, primeiro-ministro a empenhar-se em aparecer ao lado do candidato, apelos ao voto útil assumidos sem pudores. É costume que os apelos sejam mais dramatizados quanto mais a campanha avança, mas a caravana de Mendes sabe que não há tempo a perder — nesta primeira volta está “tudo em aberto” e o eleitorado da AD não pode relaxar. A passagem à segunda etapa de uma corrida tão dividida não são favas contadas.
Foi por isso, como se vai explicando na entourage de Mendes e Montenegro, que o primeiro-ministro não se inibiu: chegado ao palco, explicou passo por passo porque é que os eleitores não devem perder-se com “distrações”, concentrando o voto no “moderado” Mendes para evitar que cheguem “dois populistas” (leia-se Henrique Gouveia e Melo e André Ventura) à segunda volta.
Choveram críticas a Luís Marques Mendes, pelo “ato de fraqueza” da campanha, por precisar de mostrar o apoio do primeiro-ministro ou por pedir o voto útil tão cedo. Mas, na caravana do antigo líder social-democrata, não se hesita: o apelo, mesmo que precoce, é necessário e o eleitorado da própria AD é o primeiro que é preciso mobilizar, antes de tentar alargar as fronteiras da candidatura.
Porque o que interessa mesmo, neste momento, é “chegar lá”, à segunda volta. Depois de uma série de sondagens que o colocavam em primeiro ou segundo lugar, e com o candidato sempre a garantir que chegar à segunda volta era uma perspetiva que já o deixava otimista e tranquilo, o primeiro estudo da campanha — a tracking poll da TVI/CNN, divulgada esta segunda-feira à noite — veio agitar as águas e ensombrar a candidatura de Mendes: o candidato aparece em quinto lugar, o que equivaleria a uma derrota que não faz sequer parte dos piores pesadelos da equipa, atrás de todos os seus rivais da direita.
Cotrim é mesmo uma ameaça real
Esta primeira tracking l confirma que a dispersão do eleitorado da AD é uma preocupação real: é a base eleitoral mais dispersa, sendo que só o equivalente a três em cada dez eleitores de Luís Montenegro responderam que votarão em Marques Mendes; e metade dos que votaram AD dizem que preferem um dos seus quatro principais rivais (Gouveia e Melo, Cotrim, Ventura e Seguro) — o liberal é de longe o maior beneficiário líquido.
É por isso que há uma convicção estabelecida desde este início de campanha: a base eleitoral da AD é “sólida”, mas não pode falhar. “Mendes só vai à segunda volta se mobilizar o PSD”, alerta um destacado social-democrata, avisando que António José Seguro, mesmo sendo “desvalorizado”, também conta com uma base sólida. E sondagens negativas, acrescenta-se, até podem ser positivas para o PSD “acordar” e ir votar.
Fonte da campanha faz a mesma leitura: “A primeira volta até pode ser o oposto da segunda, mas sem passar à segunda o esforço é inútil“. “O problema é se no PSD se achar que Marques Mendes já está na segunda volt e não se empenhar tanto”. Mendes vai avisando nos seus discursos: dispersar votos favorece o “populismo” e o “experimentalismo”; no dia a seguir às eleições as bases naturais da AD podem acordar com uma surpresa desagradável.
Não sendo uma única tracking poll definidora nem conclusiva (e tendo em conta que coloca os cinco candidatos num espaço de cinco pontos percentuais, com uma margem de erro de quatro pontos), é mais um sinal de que, como se acredita no PSD, “está tudo em aberto”. Para o bem e para o mal. As restantes sondagens mostram diferenças marginais nas intenções de voto, separando os primeiros candidatos por dois ou três pontos percentuais, pelo que não excluem que Ventura, Seguro, Gouveia e Melo ou até Cotrim passem à segunda volta no lugar de Mendes.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Fazer como Soares e vencer as primárias da direita
Na campanha recorda-se a tese de Mário Soares, que nas presidenciais de 1986 — as únicas tão renhidas que foi preciso uma segunda volta, como agora se calcula que será — foi, durante a primeira volta, um candidato hostil para os comunistas; na segunda, arrumados os outros candidatos da esquerda, ganhou os votos do PCP, enquanto Álvaro Cunhal pedia que militantes e simpatizantes tapassem a cara do candidato no boletim e engolissem esse sapo. Em entrevista a Maria João Avillez, Soares explicaria: “Ganha a primeira partida, à esquerda, voltei-me, então, para o eleitorado no seu conjunto”.
São mais ou menos as mesmas contas que se vão fazendo na equipa de Marques Mendes: para já, é preciso vencer as “primárias da direita” e mobilizar ao máximo o eleitorado da AD, sem as tais “distrações” ou simpatias que levem os eleitores a escolher outros candidatos na primeira volta. Só na segunda fase, e garantindo que Luís Marques Mendes chega lá, é que se poderá adotar uma nova estratégia, apontando para o eleitorado como um todo.
Feitas estas contas, a equipa mantém-se confiante de que fez todo o sentido arrancar a campanha logo com a presença de Montenegro como convidado de honra: por um lado, a ideia é mesmo ativar a base natural do PSD; por outro, até ver o ciclo Montenegro tem sido de sucessos eleitorais quase ininterruptos para a AD, que domina agora o Governo, a maior parte das autarquias e as regiões.
Se é verdade que o aparecimento de Luís Montenegro — que não se garante que seja o único da campanha, não estando ainda fechado que não possa voltar a aparecer — pode colar mais Mendes ao Governo, por outro lado o Executivo conserva popularidade e, para a conquista de um lugar na segunda volta, as contas entre o eleitorado que se ganha ou se perde podem resultar num saldo positivo.
Montenegro a abrir para ativar eleitores
Duramente criticado por todos os adversários, Luís Marques Mendes desvalorizou os ataques e disse que a presença de Luís Montenegro na sua campanha foi antes um “sinal de força” e “um ato de união, convergência e entendimento pelos resultados de Portugal”. E ainda foi mais longe: “Para os que passam a vida a invocar Sá Carneiro por tudo e por nada, vale a pena lembrar que morreu a participar numa campanha presidencial”.
Além disso, como Mendes vai recordando, o candidato não renega o seu passado no PSD e a campanha conta com o apoio oficial do partido — pelo que mais vale considerar que esta aparição de Montenegro é “natural” e assumida e que os apoios do partido não são escondidos (nem poderiam sê-lo, uma vez que o aparelho de campanha do PSD vai aparecendo de forma consistente nas ações e na organização dos eventos).
É preciso então atacar as “distrações” que podem levar o eleitorado da AD a desviar o foco e a não garantir a Mendes a base eleitoral com que, em princípio, poderia contar mais facilmente. Daí que Montenegro tenha aparecido para lançar a campanha com a pontaria bem definida: “Não podemos facilitar, distribuir os votos de tal maneira que no dia 19 quando acordarmos este espaço esteja distribuído por tantos que os que passaram são outros — populistas, sejam os vindos do espaço civil e mesmo juvenil ou de um espaço mais disfarçado ou militarizado”, atacou, pedindo que ninguém facilite a passagem desses candidatos à segunda volta.
“Não podemos cair na armadilha de dividirmos e dispersarmos o voto” ficando sem “escolhas boas” na segunda volta, pedia Montenegro, excluindo “simpatias de momento” ou “impulsos” de votar noutros candidatos. Na candidatura, essas “simpatias” estão estabelecidas: o perigo é que os votantes olhem principalmente para João Cotrim Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo, dispersando os seus votos.
Esta segunda-feira, num almoço em Coimbra, Sebastião Bugalho — que faz parte da comissão política de Mendes — voltava a disparar contra esses concorrentes. Por um lado, contra Cotrim por se dizer representante de Pedro Passos Coelho, “pendurando-se no seu silêncio para dar a entender que tem o seu apoio”, e por não ter nenhuma reforma ou medida conhecidas e concebidas em seu nome (“Até Mortágua deu nome a um imposto…”); por outro, contra Gouveia e Melo por ter dito numa entrevista que teria feito greve em dezembro (“Não precisamos de um Presidente grevista”).
Ambos argumentos contra os adversários que também participam nas “primárias da direita” em que pode consistir esta primeira volta; e argumentos que poderiam impedir o eleitorado da AD de ser seduzido por candidatos que usam o nome de Passos em vão ou alinham com a esquerda na greve geral e na reforma laboral.
A identificação plena com a marca AD pode afugentar eleitores que porventura se sintam desconfortáveis com tamanha cumplicidade entre primeiro-ministro e candidato presidencial. Mas essa é uma questão para outra altura. Tal como fez Soares há 40 anos, primeiro importa ganhar as primárias à direita e depois, sim, descobrir uma fórmula para alargar o discurso. Para Mendes, seria bom sinal ter essa boa dor de cabeça. Para já, precisa de pedalar para chegar à segunda etapa da maratona de Belém.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR