Pela segunda vez desde que começou a guerra no Leste da Europa, a Rússia atacou a Ucrânia com um míssil hipersónico Oreshnik. Depois da primeira vez, os russos elogiaram o seu potencial: era tão eficaz que poderia chegar à sede da NATO em Bruxelas em menos de 20 minutos. Agora, reforçam: não há sistemas de defesa capazes de travar este míssil.

A utilização deste míssil, que em português significa aveleira (a árvore das avelãs), foi justificada por Moscovo como sendo uma resposta ao alegado ataque de Kiev à casa de Vladimir Putin em Novgorod — a Ucrânia e mesmo Donald Trump negam este ataque. A Comissão Europeia, pela voz da chefe da diplomacia de Bruxelas, disse que a “utilização deste míssil Oreshnik era uma clara escalada” dos ataques e representa “um aviso para a Europa e para os Estados Unidos da América.

Mas, afinal, o que torna este míssil uma ameaça para a segurança europeia e norte-americana? A Rússia defendeu que os objetivos do ataque desta madrugada foram conseguidos; até onde pode ir o Oreshnik?

Qual o perigo deste míssil Oreshnik?

Os peritos, citados pela Reuters, dizem que a grande vantagem deste míssil é poder transportar várias ogivas capazes de atingir diferentes alvos ao mesmo tempo — como acontece com os mísseis balísticos intercontinentais de maior alcance, como o RS-26 Rubezh, no qual o Oreshnik se inspira.

Outro perigo associado a este novo míssil reside na capacidade de transportar ogivas nucleares, apesar de nada apontar para a utilização de componentes nucleares no ataque da última madrugada. O Presidente da Rússia já detalhou que este míssil é impossível de intercetar e que tem um poder destrutivo comparável ao de uma arma nuclear, mesmo quando está equipado apenas com uma ogiva normal.

Esta sexta-feira, em resposta a Kaja Kallas, Kirill Dmitriev, enviado especial russo, acusou a chefe da diplomacia da UE de ser “pouco lúcida ou inteligente” por não admitir que nada pode travar este míssil. “Até ela devia saber que não há defesa área possível contra o Oreshnik”, escreveu no X.

Acrescentou ainda, em resposta à própria publicação, que o míssil se move dez vezes mais rápido que “a velocidade do som”. A Ucrânia disse que o míssil usado no ataque desta madrugada voou a cerca de 13 mil quilómetros por hora.

Especialistas citados pela Reuters dizem que os louvores gritados pelos russos e os elogios repetidos a este míssil são exagerados. Em dezembro de 2024, um mês depois da primeira utilização desta arma, peritos norte-americanos garantiram que não era uma carta tirada da manga pela Rússia. Disseram que seria, apenas, uma arma experimental e que provavelmente os russos não teriam mais de meia dúzia.

Desde o ano passado, a Rússia terá produzido em série o Oreshnik e terá fornecido esta arma à Bielorrússia.

Que impacto teve este míssil no último ataque?

Apesar do impacto destrutivo deste míssil, os danos do ataque desta madrugada foram limitados, uma vez que o Oreshnik levava apenas ogivas fictícias e não explosivos, segundo relatou uma fonte ucraniana à Reuters. Assim, atingiu uma empresa estatal em Lvivi e provocou “pequenas penetrações de estruturas” e fez algumas crateras.

Mas, então, se o Oreshnik tem um grande potencial, porquê equipá-lo apenas com ogivas fictícias? Porque o objetivo da Rússia não seria, segundo os especialistas, destruir e matar massivamente, mas antes enviar um alerta à NATO: os russos têm um míssil poderoso e podem usá-lo para atacar a Ucrânia ou membros europeus da aliança.

Por isso, os especialistas entendem que o alegado ataque à casa de Putin foi apenas uma desculpa para a Rússia poder intimidar a Europa e dissuadir os líderes europeus de apoiarem a Ucrânia com tropas no terreno, como defendeu o Presidente ucraniano.“Sem dúvida, a presença [militar] é importante para nós. (…) O Reino Unido e a França são as bases [da Coligação das Vontades]. A presença militar deles é obrigatória”, disse Zelensky, citado pelo Kyiv Independent.

Outros especialistas apontam para mais longe e garantem que é uma ameaça direta da Rússia aos EUA, depois do golpe provocado pela queda de Nicolás Maduro, velho aliado de Putin. Além da apreensão, por parte dos norte-americanos, de um petroleiro de bandeira russa no Atlântico Norte.

Para já, os peritos ouvidos pela Reuters têm confiança de que este míssil não seja usado novamente tão cedo, porque os russos têm uma capacidade limitada. Também podem travar novas intenções se acharem que os países da NATO perceberam a ameaça.

Líderes europeus em sintonia. Ucrânia acusa Rússia de crime de guerra

Numa reação conjunta, Keir Starmer, Emmanuel Macron e Friedrich Merz concordaram com Kaja Kallas: o lançamento do Oreshnik representa um ato “de escalada inaceitável”. Numa conversa telefónica com o Presidente francês e o chanceler alemão para debater a situação na Ucrânia, o primeiro-ministro britânico afirmou que a Rússia está “a usar acusações fabricadas para justificar o ataque”. Starmer reforçou que a NATO precisa de intensificar a sua presença na região para “dissuadir adversários como a Rússia”.

Os Serviços secretos da Ucrânia acusaram a Rússia de um crime de guerra com o uso desta arma na infraestrutura civil. “O Kremlin tentou destruir a infraestrutura de suporte de vida da região nas condições de uma deterioração acentuada nas condições climáticas”, lê-se na mensagem divulgada no Telegram. Adiantaram ainda que já tinham encontrado uma unidade de estabilização e orientação (os “cérebros” do foguete), peças do motor, fragmentos do mecanismo de orientação, entre outros detalhes, que pretendem usar como provas.