A vereadora da Câmara Municipal de Coimbra Maria Lencastre Portugal anunciou este domingo a desfiliação do partido Chega, com efeitos imediatos, invocando razões relacionadas com o enquadramento do exercício do mandato, para o qual foi eleita em outubro.

Em comunicado enviado à agência Lusa, a autarca explicou que a decisão resulta de uma “incompatibilidade objetiva” entre orientações internas recentemente aprovadas pelo Chega e a forma como entende que deve ser exercido o mandato local, “assente na autonomia dos eleitos e na representação direta dos cidadãos”.

“As orientações para o exercício do Estatuto do Direito de Oposição 2026″, aprovadas pela Comissão Autárquica Nacional do Chega, introduzem procedimentos de articulação política interna que não são conciliáveis com o modelo de mandato livre consagrado na Constituição e no Estatuto dos Eleitos Locais”, evidenciou.

De acordo com Maria Lencastre Portugal, a decisão foi tomada de forma ponderada e responsável, salvaguardando a estabilidade institucional e o normal funcionamento dos órgãos autárquicos.

A autarca assegurou que manterá o lugar no executivo municipal, passando a exercer funções como vereadora independente, dando continuidade ao trabalho desenvolvido e ao cumprimento do programa eleitoral apresentado aos eleitores. “O meu compromisso mantém-se com Coimbra e com os cidadãos que represento”, concluiu.

Em outubro do ano passado, a Câmara Municipal de Coimbra passou a ser liderada por Ana Abrunhosa, eleita pela Coligação Avançar Coimbra (PS, Livre e Pan), que arrecadou cinco mandatos. Também a Coligação Juntos Somos Coimbra (PPD/PSD, CDS-PP, IL, NC, PPM, VP e MPT) assegurou cinco mandatos, enquanto o Chega elegeu um, Maria Lencastre Portugal, que agora anunciou a desfiliação do partido.

Iniciativa Liberal diz que cheira a teatro político e alerta para aproximação à presidente socialista Ana Abrunhosa

A desfiliação da vereadora do Chega “cheira a teatro político”, acusou a Iniciativa Liberal (IL), que espera não ver as suspeições confirmadas na atribuição de pelouros ou competências.

“A Iniciativa Liberal considera que este episódio cheira a teatro político. Um teatro mal encenado, tolerado, ou mesmo promovido, por Ana Abrunhosa [presidente da Câmara de Coimbra eleita pela Coligação Avançar Coimbra (PS, Livre e Pan)], para normalizar acordos de bastidores e preparar a redistribuição de poder dentro do executivo municipal”, destacou.

A IL reagiu, em comunicado, evidenciando que esta desfiliação não surpreende e vem mesmo confirmar “tudo aquilo que a IL Coimbra tem vindo a denunciar desde o início deste mandato”.

“O vereador da Iniciativa Liberal [Celso Monteiro, eleito pela Coligação Juntos Somos Coimbra] alertou expressamente para este cenário na reunião do executivo de 22 de dezembro [de 2025]. Nessa altura, ficou claro que a alegada estabilidade política em Coimbra assentava em equilíbrios artificiais, em alianças informais e na instrumentalização de mandatos ao serviço de jogos partidários”, referiu.

Para a IL de Coimbra, os acontecimentos de hoje “dão inteira razão a esses alertas”, ficando evidente que “quem votou no Partido Socialista acabou, na prática, por votar neste pântano político”. “Um pântano liderado por Ana Abrunhosa, onde o PS governa colado ao Livre, ao PAN, à CPC [Cidadãos por Coimbra] e, agora sem qualquer disfarce, ao Chega. A incoerência é total e a hipocrisia política absoluta: partidos que se dizem incompatíveis unem-se sempre que está em causa a manutenção do poder, dos cargos e da influência”, vincou.

O documento da IL de Coimbra diz ainda esperar que a presidente da Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa, não venha a confirmar as suspeições de “teatro político”, através da atribuição de pelouros ou competências a Maria Lencastre Portugal.