“Faça chuva ou faça sol, Ventura é um farol.” A música de claque foi produzida ali mesmo, em plena arruada pelas ruas de Braga, quando chovia a potes durante a passagem de André Ventura. O candidato do Chega, que tem tido sorte na meteorologia e já o tinha notado, espera que a chuva venha só abençoar e não seja um mau sinal. Uma apoiante, de bandeira na mão, tentava puxar o bom augúrio: não é um casamento, mas “arruada molhada é arruada abençoada.” Independentemente da molha, Ventura aproveitou para o tiro ao alvo ao primeiro-ministro e a Cotrim Figueiredo.
Foi mesmo debaixo de chuva, protegido por guarda-chuvas, que Ventura deu declarações aos jornalistas e, depois de Luís Montenegro ter dito que a “perceção de caos” no SNS “não é a realidade”, acusou o primeiro-ministro de uma “enorme falta de noção do país real”. “Não, doutor Luís Montenegro. A saúde em Portugal está lamentável, está de cacos. Quando alguém chamado doente urgente tem que esperar 20 horas para ser atendido num hospital. A saúde está de cacos“, acrescentou mais tarde no discurso em Guimarães.
Questionado sobre que poderes tem um chefe de Estado neste assunto, o candidato apoiado pelo Chega foi perentório: “O primeiro que [o PR] pode fazer é dizer ao primeiro-ministro que ele é o maior sem noção do país quando diz que não há caos na Saúde.” Para Ventura, essa chamada de atenção seria chamar o primeiro-ministro à “consciência”.
“Se o primeiro-ministro acha que não há nenhum caos na saúde e que isto é só uma questão de perceção, então está no país errado, não está no país certo. Ou então há um problema pior. Ou então há um problema pior. (…) Se o primeiro-ministro não conhece o país em que vive e os problemas que as pessoas estão a enfrentar esse é também o papel do Presidente da República, alertar para o país real em que se vive”, reiterou.
Para Ventura, Marcelo Rebelo de Sousa devia ter sido “muito mais exigente quando o Governo levou à Assembleia e depois à Presidência os diplomas sobre a reorganização do Serviço Nacional de Saúde” por considerar que já se sabia que “isto não estava a correr bem”. E, mais do que isso, Ventura disse que esta é “uma razão” para Marcelo “chamar a atenção do que está mal e não andar a cobrir o Governo e a levá-lo ao colo”.
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
De megafone laranja, mas para captar “votos de todos”
Com um megafone laranja emprestado por um apoiante que por ali passava, Ventura repetia o lema que tem feito eco durante toda a campanha: o candidato grita “18 de janeiro” e a comitiva afina “Ventura em primeiro”. Questionado sobre a ironia da cor laranja, o presidente do Chega deixava escapar que não quer só os votos da AD, mas “os votos de todos, daqueles que querem a mudança do país”.
Questionado sobre as palavras de João Cotrim Figueiredo, que admitiu não saber o que lhe “passou pela cabeça” quando não excluiu o apoio a André Ventura numa segunda volta, o presidente do Chega disse que “um candidato presidencial não pode andar um dia a dizer uma coisa, no outro dia a dizer que não sabe o que é que lhe passou pela cabeça”.
“Eu gostava que o João Cotrim Figueiredo parasse para pensar um bocadinho. Isto é uma eleição presidencial, não é uma eleição para o condomínio lá da casa dele. Nós temos de ter visão, temos de ter estabilidade e temos de saber o que é que queremos”, acrescentou.
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
Em Guimarães, num discurso em frente ao castelo, voltou à carga ao candidato liberal. “Os meus adversários quiseram fazer campanha com ataque permanente”, disse, frisando que Cotrim já veio dizer “não sei o que é que disse e não devia estar bom da cabeça”. Recordando isto, acrescentou: “João, este país não é para quem não está bem da cabeça.”
Sobre a acusação de assédio sexual por parte de uma ex-assessora da IL, Ventura não quer “fazer disso um tema de campanha eleitoral” — “Não acho mesmo que deva fazer disso um tema de campanha eleitoral.”
“Acho que o João [Cotrim Figueiredo] tem que ter a oportunidade de se defender, de responder. O caso terá a sua evolução judicial ou extrajudicial. Eu não quero fazer disto um assunto de campanha eleitoral. Não acho que deva fazer disto um assunto de campanha eleitoral. Estamos na reta final das eleições presenciais e temos que falar dos assuntos que interessam às pessoas”, justificou.
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
“O meu mandato não vai estar completo enquanto não for buscar todos os jovens”
Ao final da tarde, já de noite e em frente ao Castelo de Guimarães, André Ventura apostou forte no apelo ao voto e dedicou-se a diferenciar imigração de emigração num “momento em que o país é tão afetado, tão destruído, tão dilacerado”.
O candidato a Belém afirmou que os que vieram, leia-se imigrantes, “não mandam abaixo a nacionalidade” portuguesa e jurou: “Somos a única candidatura que não medo de dizer patriotas, que amamos este país, que a bandeira é o que nos move e que não aceitaremos que nenhuma outra as substitua.”
E focou-se nos emigrantes — depois de ter vencido no estrangeiro nas últimas legislativas — para sugerir que Portugal devia ser “um país rico, que conseguisse dar aos seus, que conseguisse fixar cá os seus jovens e não vê-los a sair todos os dias para irem para a Suíça, para o Luxemburgo, para a França”. “Não queremos mais jovens portugueses fora do país. Eu quero ir buscar cada um desses jovens portugueses, cada um para regressarem aqui à nossa pátria. Cada um deles. O meu mandato não vai estar completo enquanto não for buscar todos”, garantiu o presidente do Chega.
No mesmo sentido, questionou: “Que sentido faz continuarmos a ser um país cheio de imigração dos países do indostão e os nossos próprios estarem a ir para fora, [os] que cá estudaram, que aqui estiveram nas nossas universidades, e em vez de nos darem riqueza a nós, vão dar riqueza a outros países da Europa?”
Do “berço” para a “cabeça” do João. André Ventura quer um “terramoto”
Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador em Guimarães
No pontapé de saída para os “últimos dias”, Ventura fez ainda um forte apelo ao voto, agora que, ao contrário do que tem acontecido, as sondagens o colocam nos primeiros lugares. “Não podem ser só as sondagens a colocarem-nos em primeiro lugar, temos de ganhar. Nunca fomos de ganhar nas sondagens, se nos põem a ganhar é porque estamos a dar uma tareia monumental. Mas este país não se fez com sondagens, fez-se a acreditar que podíamos mudar”, afirmou, pedindo que “ninguém se condicione por boas sondagens”. “Nada está ganho”, resumiu.
“Essa mudança de um país que está a acordar tem de ser incentivada. Têm de ir votar e levar os outros a votar.”
Os 675 euros de donativos
A direção de campanha de André Ventura divulgou, esta terça-feira, a lista de donativos e diz que candidato à Presidência da República apenas recebeu 675 euros.
Na lista enviada aos jornalistas que cobrem a campanha do líder do Chega como candidato a Belém surge o nome de 17 pessoas que contribuíram, não podendo ser divulgado o nome por proteção de dados.
O valor mais baixo é de 10 euros e o mais alto de 100 euros, sendo que os donativos foram feitos entre 31 de dezembro de 2025 e 11 de janeiro deste mês. Segundo a mesma lista entre 31 de dezembro e dia 8 de janeiro não houve qualquer donativo.
Recorde-se que, no trabalho feito pelo Observador sobre os rendimentos dos candidatos a Belém, André Ventura, em 2019, declarava uma conta bancária como “conta presidenciais AVPR2021” onde tinha cerca de 14 mil euros — onde alegadamente estariam os donativos dessa altura.
No site da candidatura de André Ventura é possível fazer donativos em nome individual — sendo obrigatório introduzir os dados pessoais, como nome, morada e contribuinte. Há um limite legal de 12.500 euros e surge um aviso quando esse valor é ultrapassado.