O dia 18 está cada vez mais perto, e António Filipe vai afinando a mira ao adversário que arrisca roubar-lhe o eleitorado: António José Seguro. Esta terça-feira, num discurso na Amora, concelho do Seixal, em mais uma tentativa de se afirmar como candidato da convergência à esquerda, o comunista voltou a visar o candidato “que nem de esquerda se assume”.

Numa altura em que as sondagens vão mostrando que Seguro está bem posicionado para passar à segunda volta, Filipe alertou para o risco de eleger um candidato que alinha com as políticas da direita. “Fazer de conta que se é de esquerda e pactuar com políticas de direita só beneficia a direita e a extrema-direita. Porque se alguém, afirmando-se de esquerda ou em nome da esquerda faz políticas de direita, a esquerda fica com a fama e a direita fica com o proveito”.

Nesse sentido, aproveitou para estender a crítica a mais adversários, particularmente aos que têm proclamado a própria moderação. António Filipe fala num “campeonato da moderação”, em que “todos querem ser moderados”. E numa primeira reação às declarações de João Cotrim Figueiredo, que assumiu no dia anterior que tem visto um André Ventura diferente nos últimpos tempos, ironizou: “Há até uns candidatos a dizer que os candidatos de extrema direita até parecem moderados”.

Nada disto convence o candidato, que defende um outro rumo, e que moderação é conversa de quem “quer deixar tudo na mesma, ou para pior”. “Não precisamos disso. Isto não vai lá com apelos à moderação. Vai lá com políticas de esquerda. E para enfrentar o peso que a direita tem hoje na vida política nacional, é preciso uma perspectiva de esquerda”.

“Não vamos em cantos de sereia, em apelos às ditas moderações, em apelos aos pactos disto ou daquilo, quando há valores tão importantes que é preciso defender e que é preciso projetar no futuro”, referiu, numa nova crítica a António José Seguro, que traz como bandeira eleitoral a necessidade de um pacto para a saúde. Para António Filipe, o país não precisa de pactos mas sim de soluções concretas para os problemas do dia-a-dia.

Já sobre sondagens — que não são animadoras e o colocam a não alcançar mais do que 2% dos votos — o candidato voltou a desvalorizar. “Não ando na vida política de calculadora na mão, não faço cálculos relativamente a eventuais resultados. Isso deixo aos comentadores. E, naturalmente, em função daquilo que for o resultado, o veredito popular é sempre para aceitar e eu continuarei com a minha intervenção política tal como venho feito até aqui”.

“Creio que tenho feito uma campanha afirmativa”, afirmou também. “As iniciativas que tenho vindo a realizar têm demonstrado uma grande adesão à minha candidatura. A campanha está a correr bem, mas vamos esperar pelo resultado”, referiu, voltando a frisar que os únicos números que interessam são os que saiam da noite de dia 18 de janeiro.

António Filipe voltou a contar com caras conhecidas do PCP na campanha. No Seixal, esteve a líder parlamentar comunista, Paula Santos, que garantiu que o companheiro de partido “dá garantias de uma intervenção que rompa com o atual estado de coisas”.

De manhã, já tinha estado com João Ferreira, candidato presidencial em 2021. Num discurso no final de uma arruada em Queluz, o vereador em Lisboa descreveu António Filipe como o candidato que “não vacila” contra o desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde e pelo direto à habitação, educação e cultura, e acima de tudo na defesa dos valores democráticos.

“É o candidato que conhece melhor a Constituição. Mas não é um saber feito de saber académico. É um conhecimento e um saber feito das lutas que travou para defender cada um dos direitos consagrados na Constituição sem os quais não há democracia. E por isso aqui não se vacila também na luta em defesa da democracia”.

Em dia de nova manifestação da CGTP, João Ferreira lembrou que nesta candidatura “sabe-se o que representam as ameaças contidas no pacote laboral, que tudo vai piorar”. O candidato presidencial em 2021 sublinhou que António Filipe esteve ao lado dos trabalhadores “desde a primeira hora, dizendo claramente que ela devia ser combatida e derrotada”.

“Estás bom, António?” Encontro entre adversários na manifestação da CGTP

Catarina Martins e António Filipe começaram em pontos diferentes da manifestação convocada pela CGTP, em Lisboa, para exigir a retirada do pacote laboral por parte do Governo, mas houve tempo para um curto encontro à frente do Largo do Calhariz. Foi aqui que o candidato apoiado pela CDU se posicionou estrategicamente desde o início, uns metros acima do Largo do Camões, acompanhado de uma pequena comitiva que foi aplaudindo a passagem dos milhares de pessoas que seguiam rumo a São Bento.

Depois de saudar Tiago Oliveira, secretário-geral da CGTP, e vários apoiantes ou simpatizantes que o vieram cumprimentar, António Filipe avistou Catarina Martins — trocaram dois beijinhos, um pequeno abraço e poucas palavras. Não houve tempo para mais: o encontro não durou mais do que um minuto, porque a antiga líder do Bloco de Esquerda escolheu percorrer o trajeto previsto para a manifestação. Já o comunista ali permaneceu, assistindo à passagem da multidão.

Em declarações aos jornalistas, lembrou que assumiu “desde a primeira hora” a sua oposição ao pacote laboral e voltou a garantir que como Presidente da República usaria “todos os poderes constitucionais” para impedir “um retrocesso desta magnitude” de ser posto em prática.

António Filipe reiterou o apelo a “todos os trabalhadores” para que transformem o dia 18 de janeiro num “momento de luta” contra o anteprojeto do Governo, votando numa candidatura que lutará contra a proposta “sem qualquer hesitação”. “Quando forem votar no próximo dia 18, pensem no pacote laboral e nos candidatos que o defendem, os candidatos que mudaram o discurso depois da greve geral — mas não mudaram de opinião –, e na candidatura que sempre esteve ao lado dos trabalhadores”.

Para o candidato, este é um ponto crucial na ida às urnas que o separa dos adversários. “Eu mostrei ao que venho”, afirmou. “Estou com os trabalhadores que lutam pelos seus direitos e neste caso contra o pacote laboral. Cada candidato fará o que bem entender e os eleitores no dia das eleições também farão o que bem entenderem”.