Tudo começou em 2020. Meio do nada para alguns, como concretização de todo um trabalho de base que foi sendo feito sem grande mediatismo mas visíveis resultados para quem estava mais por dentro do fenómeno. Até esse ano e ao Campeonato da Europa organizado por Áustria, Noruega e Suécia, Portugal participara em três Mundiais e cinco Europeus catapultado pela Geração de Ouro onde pontificavam nomes como Carlos Resende, Ricardo Andorinho, Filipe Cruz, Paulo e Sérgio Morgado, Eduardo Filipe ou Viktor Tchikoulaev, entre outros. Aí estava também Ricardo Costa, ponta direita que fez história no FC Porto e nos espanhóis do Ademar León e que em 2020 passou do Gaia para o Avanca como treinador antes de chegar ao Sporting, em 2021. A melhor fase de sempre do andebol nacional estava a chegar e com ligação ao antigo jogador.

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Nesse Europeu de 2020, a Seleção deu o primeiro passo para a consolidação na alta roda da modalidade. O conceito de impossível tornou-se um mero desafio à crença de uma equipa que jogava de olhos fechados por ter o mesmo núcleo duro há algum tempo, França e Suécia deixaram de ser adversários inalcançáveis e essa epopeia terminou com uma sexta posição que ainda hoje representa a melhor participação de sempre na prova. Feito seguinte: transformar esse resultado num ponto de partida e não de chegada. Foi isso mesmo que aconteceu, entre o trágico desaparecimento de Alfredo Quintana: Portugal chegou também ao melhor desempenho num Mundial em 2021, acabando em décimo lugar com quatro vitórias e duas derrotas, e conseguiu a inédita (e épica) qualificação para os Jogos Olímpicos de Tóquio. Não havia como voltar atrás.

Uma grande história sem o merecido final feliz: Portugal perde com Alemanha e termina Europeu no sexto lugar

Sempre com Paulo Jorge Pereira no comando dos Heróis do Mar, Portugal entrou num patamar de presenças consecutivas nas grandes competições internacionais. Também houve dores de crescimento, como se viu no Europeu falhado de 2022 com três derrotas, mas a Seleção ganhou por mérito próprio o destaque de começar a ser encarado como potencial candidato às fases finais de cada prova. Em paralelo com isso, e a partir de ano de 2023, chegaram ao conjunto principal uma nova fornada de “frutos” que tinham sido projetados através desse trabalho de base com finais em Mundiais e Europeus Sub-20, com os irmãos Martim e Francisco Costa, filhos de Ricardo Costa, a serem as principais figuras do “reforço” dessa base da equipa A que se foi renovando com o passar dos anos sem oscilação de rendimento. Mais: conseguiu fazer mais história.

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Depois da sétima posição no Europeu de 2024, muito perto de igualar ou até bater a melhor classificação na prova, a Seleção voltou a conseguir uma caminhada fulgurante no Campeonato do Mundo de 2025: “limpou” a primeira fase com triunfos diante de EUA, Brasil e Noruega, passou aos quartos com um empate diante da Suécia e vitórias com Espanha e Chile, chegou às meias-finais após bater a Alemanha no prolongamento. Não deu para mais, com derrotas frente à Dinamarca e à França, mas aquela quarta posição mostrou algo que parece fazer parte do ADN dos Heróis do Mar: por cada problema que existe, uma solução irá aparecer.

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Foi isso que voltou a acontecer num ponto muito específico como é a baliza. A evolução de Diogo Rêma, do FC Porto, confirmou que Portugal encontrara o seu número 1 mas as piores notícias apareceram logo nos minutos iniciais do último clássico entre dragões e Sporting, com o guarda-redes dos azuis e brancos a ter de ser operado a uma rotura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo. Já no estágio de preparação, Miguel Espinha, que depois de passagens por França e Espanha está no Vardar da Macedónia do Norte e que teve entradas importantes no Mundial de 2023, também saiu das opções. Assim, e além do habitual Gustavo Capdeville, foram chamados Diogo Valério, que está agora nos gregos do Olympiacos, e Pedro Tonicher, que depois de fazer formação entre Benfica e Sporting está nos espanhóis do Ciudad Encantada. Muito do que pode acontecer neste Europeu de 2026, a sétima fase final de grandes competições seguida, depende do rendimento que possam ter entre os postes com bons sinais deixados no Torneio Internacional de Espanha.

De resto, a convocatória de Paulo Jorge Pereira para a competição é mais um reflexo da renovação que o conjunto nacional continua a fazer. Além do supracitado Rêma, Miguel Martins e Alexandre Cavalcanti estão lesionados e Pedro Portela caiu da última convocatória no âmbito dessas mudanças geracionais que estão a ser feitas, destacando-se a chamada de três jogadores que foram vice-campeões mundiais de Sub-20 em junho de 2025: Filipe Monteiro (Sporting), Gabriel Cavalcanti (Benfica) e José Ferreira (FC Porto).

O sonho ficou pela metade, mas eles mostraram que é possível sonhar: Portugal perde final do Mundial Sub-21 com a Dinamarca

Os 18 convocados de Portugal para a fase final do Campeonato da Europa de 2026

  • Guarda-redes (3): Diogo Valério (Olympiacos), Gustavo Capdeville (Benfica) e Pedro Tonicher (Ciudad Encantada)
  • Pontas (4): António Areia (Tremblay HB), Diogo Branquinho (Sporting), José Ferreira (FC Porto) e Leonel Fernandes (FC Porto)
  • Laterais (6): Francisco Costa (Sporting), Gabriel Cavalcanti (Benfica), João Gomes (Gummersbach), Martim Costa (Sporting), Miguel Neves (Saint-Raphael) e Salvador Salvador (Sporting)
  • Pivôs (3): Luís Frade (Barcelona), Ricardo Brandão (FC Porto) e Victor Iturriza (Kuwait SC)
  • Centrais (2): Filipe Monteiro (Sporting) e Rui Silva (FC Porto)

Quais são os reais objetivos de Portugal para mais um Europeu?

A par da renovação natural que Portugal tem feito, a Seleção continua a beneficiar também de um fenómeno que não estava tão presente em anos anteriores: o tipo de época e de realidade que cada um dos jogadores vai tendo em 2025/26. Os cinco elementos do Sporting jogam Liga dos Campeões, a principal prova de clubes na Europa, com ambição de chegar à fase a eliminar (na última temporada foi aos quartos), os seis nomes de Benfica e FC Porto estão também num nível bastante competitivo via Liga Europeia e os restantes sete estão no estrangeiro em ligas mais ou menos competitivas mas com minutos de utilização. Tudo isso acabou por ser importante na preparação para a competição feita em Rio Maior antes do Torneio Internacional de Espanha, onde Portugal empatou com o Egito, goleou o Irão e ganhou com grande recuperação à Espanha.

“Costuma-se dizer que o sonho comanda a vida, mas, no nosso caso, é a pressão que comanda a vida. Nós gostamos dessa pressão porque é positiva, e eles [jogadores], enquanto continuarem a ser criativos, é sinal que não têm medo de falhar. Enquanto continuarmos nesta linha, vamos continuar a poder crescer. Este é um caminho que ainda não foi feito. Espero que possamos manter o mesmo rendimento, ou, pelo menos, parecido àquele que foi conseguido no último Mundial. O quarto lugar já seria excecional”, comentou Paulo Jorge Pereira depois do estágio em Rio Maior, antes de colocar toda a “euforia” sob perspetiva perante as últimas participações: “Toda a gente já tem a expectativa de que agora vamos ser campeões da Europa. Há meia dúzia de anos nós não nos apurávamos e agora já queremos ser campeões? Isto é um processo lento e também temos de meter na cabeça que algum dia podemos não conseguir uma qualificação”.

“A pressão comanda a vida e não temos medo”, diz selecionador português de andebol

“Agora, Portugal está muito mais competitivo, todos olham para Portugal de uma outra maneira. Já me cumprimentam porque havia treinadores que não me cumprimentavam. Hoje em dia, toda a gente cumprimenta toda a gente. Há mais respeito por Portugal e esta é a conquista que nós vamos tendo ao longo do tempo e vamos tratar de preservar. Modelo de jogo? Não vai haver muitas mudanças. Há algum detalhe que se possa incluir, que já se trabalhou bem nos jogos que fizemos. De resto, continuamos com este modelo de jogo muito sólido em termos ofensivos, baseado muito na relação da primeira linha com os pivôs e no 1×1 dos senhores ‘Costinhas’ [Martim e Francisco Costa]. Se conseguirem parar-nos, estão a fazer um excelente trabalho, porque somos do melhor que há no mundo em termos ofensivos”, salientou o técnico nacional, que é também treinador do Dínamo de Bucareste… e que fará o primeiro jogo diante da Roménia.

“O estágio correu muito bem, dentro do que estava previsto. A convocatória vai manter-se e estamos muito satisfeitos com a prestação de todos. Até agora, aquilo que estava previsto e a expectativa que tínhamos está a bater certo. Vamos ver se na competição conseguimos atingir o objetivo primordial, que é ficar no top 5. É um objetivo difícil, tendo em conta que jogamos na Dinamarca mas queremos melhorar o nosso melhor resultado de sempre, que é o sexto lugar de 2020. Ter estes jovens atletas a jogar pela primeira vez um Europeu faz parte de um processo de integração gradual que temos vindo a fazer há alguns anos. Por agora parece estar a correr bem. Noto que todos eles têm aquilo que é preciso para serem produtivos: a fome de vencer. Essa fome é essencial e esta juventude traz uma energia e uma luz espetaculares”, acrescentou.

O que será possível fazer? Ganhar os dois primeiros encontros, frente a Roménia (com quem perdeu o último jogo, apesar de nem por isso ter perdido o primeiro lugar da qualificação) e Macedónia do Norte (com quem regista também um histórico positivo), é quase obrigatório, tendo em conta que termina a primeira fase com a Dinamarca, atual tetracampeã mundial e vice-campeã europeia. Duas vitórias nesta ronda inaugural devem ser suficientes para o apuramento para a segunda fase. Aí, tendo em conta os grupos, é provável que a Seleção se possa cruzar com Alemanha, Espanha ou Sérvia, França e Noruega. Serão todos encontros de nível máximo, com resultados diferentes nos últimos confrontos mas que permitem que a Seleção possa sonhar com uma inédita presença nas meias-finais ou, no limite, no encontro de atribuição do quinto e sexto lugares. Com outra vantagem: Portugal jogará sempre na Jyske Bank Boxen, na cidade dinamarquesa de Herning.

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Mathias Gidsel, lateral direito dos alemães do Fusche Berlim que foi a grande referência da Dinamarca no último título mundial, será um dos principais destaques da competição, a par da dupla de laterais francesa Elohim Prandi (PSG) e Dika Mem (Barcelona), do central alemão Juri Knorr (que trocou este ano o Rhein-Neckar Lowen pelos dinamarqueses do Aalborg), do lateral norueguês Sander Sagosen (Aalborg), do central sueco Jim Gottfridsson (Pick Szeged), do central islandês Gisli Kristjánsson (Magdeburgo), do guarda-redes croata Dominik Kuzmanovic (Gummersbach). do central neerlandês Luc Steins (PSG) ou do lateral espanhol Alex Dujshebaev (Kielce), mas a própria EHF destacou também um jogador português: Martim Costa. Ele, a par do irmão Francisco, será um dos principais triunfos nacionais para novo capítulo na história.

O calendário da competição de 2026 organizada por Dinamarca, Noruega e Suécia

Primeira fase (15 a 21 de janeiro)

  • Dia 15: Espanha-Sérvia (A, 17h), França-Rep. Checa (C, 17h), Alemanha-Áustria (A, 19h30) e Noruega-Ucrânia (C, 19h30)
  • Dia 16: Portugal-Roménia (B, 17h), Eslovénia-Montenegro (D, 17h), Islândia-Itália (F, 17h), Dinamarca-Macedónia do Norte (B, 19h30), Ilhas Faroé-Suíça (D, 19h30) e Hungria-Polónia (F, 19h30)
  • Dia 17: Áustria-Espanha (A, 17h), Ucrânia-França (C, 17h), Croácia-Geórgia (E, 17h), Sérvia-Alemanha (A, 19h30), Rep. Checa-Noruega (C, 19h30) e Suécia-Países Baixos (E, 19h30)
  • Dia 18: Macedónia do Norte-Portugal (B, 17h), Montenegro-Ilhas Faroé (D, 17h), Polónia-Islândia (F, 17h), Roménia-Dinamarca (B, 19h30), Suíça-Eslovénia (D, 19h30) e Itália-Hungria (F, 19h30)
  • Dia 19: Áustria-Sérvia (A, 17h), Rep. Checa-Ucrânia (C, 17h), Países Baixos-Croácia (E, 17h), Alemanha-Espanha (A, 19h30), França-Noruega (C, 19h30) e Geórgia-Suécia (E, 19h30)
  • Dia 20: Macedónia do Norte-Roménia (B, 17h), Montengro-Suíça (D, 17h), Polónia-Itália (F, 17h), Dinamarca-Portugal (B, 19h30), Eslovénia-Ilhas Faroé (D, 19h30) e Hungria-Islândia (F, 19h30)
  • Dia 21: Países Baixos-Geórgia (E, 17h) e Suécia-Croácia (E, 19h30)

Segunda fase (22 a 28 de janeiro)

  • Dia 22 (grupo I): 1.º C-2.º B, 2.º A-2.º C e 1.º A-1.º B
  • Dia 23 (grupo II): 1.º F-2.º E, 2.º D-2.º F e 1.º D-1.º E
  • Dia 24 (grupo I): 1.º C-1.º B, 1.º A-2.º C e 2.º A-2.º B
  • Dia 25 (grupo II): 1.º F-1.º E, 1.º D-2.º F e 2.º D-2.º E
  • Dia 26 (grupo I): 1.º A-2.º B, 2.º A-1.º C e 1.º B-2.º C
  • Dia 27 (grupo II): 1.º D-2.º E, 2.º D-1.º F e 1.º E-2.º F
  • Dia 28 (grupo I e II): 1.º A-1.º C, 2.º A-1.º B, 2.º B-2.º C, 1.º D-1.º F, 2.º D-1.º E e 2.º E-2.ºF

Meias-finais e final (30 de janeiro e 1 de fevereiro)

  • Dia 30: jogo 5.º/6.º lugares, 3.º I-3.º II
  • Dia 30: meias-finais, 1.º I-2.º II e 1.º II-2.º I
  • Dia 1 de fevereiro: final