O Macan é há muito o modelo da Porsche que mais vende, um SUV do segmento D com quase 4,8 metros de comprimento. Na Primavera de 2024, o construtor germânico decidiu suspender as vendas do Macan com motor a combustão nos mercados europeus (fora da Europa só terminarão no final de 2026), tendo iniciado as entregas a clientes do então novo Macan eléctrico na segunda metade desse ano. Um ano e meio depois, a Porsche afirma ter chegado à conclusão que cometeu um erro de avaliação ao retirar o Macan a combustão demasiado cedo e substituí-lo pelo novo Macan puramente eléctrico.
Quem admitiu o erro da marca alemã foi Oliver Blume, o homem que foi CEO da Porsche entre 2015 e o início de 2026. Em entrevista ao Frankfurter Allgemeine Zeitung, o ex-CEO da Porsche e actual CEO do grupo VW — que detém 75% da marca de desportivos germânica —, declarou que “nós estavamos errados em relação ao Macan”, referindo-se à estratégia decidida em 2019, que consistiu em retirar o modelo a combustão, substituindo-o por um novo Macan exclusivamente a bateria. Sucede que esta versão de Blume omite uma parte da história, uma vez que a Porsche não decidiu suspender as vendas do Macan a combustão, uma vez que o modelo foi, pura e simplesmente, impedido pela União Europeia de ser comercializado nos mercados do Velho Continente ao não respeitar as normas de ciberegurança, expondo os proprietários dos seus modelos a riscos excessivos. A marca alemã poderia fazer como muitas outras e reformular o software do veículo, entre outros pormenores, o que implicaria necessariamente um investimento considerável, mas optou por não o fazer para, provavelmente, maximizar os lucros e a distribuição de dividendos.
Agora e depois de a Comissão Europeia ter acedido a prolongar a comercialização de veículos com motores a combustão para além de 2035, a Porsche viu-se obrigada a reformular a sua estratégia e acelerar a concepção de um novo Macan a combustão, capaz de chegar ao mercado em 2028. Para que tal seja possível e com custos reduzidos, a marca alemã recorreu (mais uma vez) à Audi, de quem herdou o chassi do Q5 e as respectivas mecânicas (híbridas e PHEV).
Porsche perdeu 99% do lucro e o Macan EV bate a versão a gasolina
A Porsche parece querer passar a mensagem que as vendas do Macan eléctrico têm estado aquém do que desejaria, mas não seria expectável que o SUV eléctrico fizesse muito melhor, uma vez que apesar do Taycan contar com duas carroçarias distintas e ter usufruído recentemente de um restyling e de algumas melhorias, o facto é que o Macan a bateria ultrapassou o seu “irmão” eléctrico desde o primeiro momento. E segundo as informações do construtor, que ainda não divulgou os dados do 4.º trimestre de 2025, o Macan EV vendeu 18.278 unidades no 4.º trimestre de 2024, ou seja, no início da comercialização e quando a gama ainda não estava completa. Ora, este é um valor que não difere muito dos cerca de 21.000 Macan a combustão vendidos no período homólogo de 2023, quando o SUV mais pequeno da Porsche ainda liderava destacado as vendas da marca.
O que potencialmente não ajudará às vendas do Macan EV é o facto de a Porsche, mesmo depois de recorrer aos croatas da Rimac para obter a tecnologia de que necessitava para optimizar os seus modelos, ter perdido a vantagem de que usufruía face aos seus rivais, nos tempos dos motores a combustão. Basta comparar o Macan Turbo a bateria com o seu rival Model Y Performance para perceber que ambos os modelos se igualam em comprimento (4,784m para o Porsche versus 4,796m para o Tesla), largura (1,938m vs 1,982m), distância entre eixos (2,893m vs 2,890m), potência (639 cv com overboost vs 627 cv), velocidade máxima (260 km/h vs 250 km/h), aceleração 0-100 km/h (3,3 segundos com overboost vs 3,5) e autonomia (590 km vs 580 km). Porém, o Macan fica para trás no peso (2480 kg vs 2108 kg), em parte devido ao facto de necessitar de uma bateria grande com uma capacidade útil de 95 kWh, face aos apenas 79 kWh do Model Y. Certo é que sem esta bateria maior, o Porsche teria dificuldade em anunciar mais de 490 km em WLTP entre recargas, caso montasse igualmente um acumulador com 79 kWh.
Mas é provável que o maior problema do Macan EV resida na diferença do preço, uma vez que o Macan Turbo é proposto por 119.367€ (em Portugal), quanto o Model Y Performance se fica pelos 61.990€, praticamente metade do valor do rival, sem que as dimensões, a potência ou a performance o justifique. E para termos uma ideia da importância do factor preço, basta recordar que a Porsche comercializou 87.355 Macan em 2023 e 82.795 em 2024, enquanto a Tesla vendia, nos mesmos períodos, 1,22 milhões e 1,09 milhões de Model Y.