Os primeiros relatos de passageiros e testemunhas no local do acidente entre dois comboios a poucos quilómetros de Córdoba, em Espanha, descrevem um cenário de escuridão, “massas de metal emaranhado” e pessoas com vários tipos de ferimentos. Mais de três horas depois do embate o resgate continua, com várias pessoas presas nas carruagens “retorcidas”, e um balanço que já ultrapassa duas dezenas de mortos, no que pode ter sido um dos acidentes com comboios mais mortal do país.

De acordo com o El País, um dos primeiros a chegar ao local do acidente foi o presidente da Câmara Municipal de Adamuz, Rafael Moreno, na companhia da polícia local. “Vi um passageiro mutilado ao ponto de ficar irreconhecível. Fomos os primeiros a chegar e havia um corpo cortado ao meio. Mas não havia luz; era de noite. O cenário é horrível”, disse o autarca. À TVE o responsável do Corpo de Bombeiros de Córdoba, Paco Carmona, explicou que estão a ser resgatadas pessoas com todos os tipos de ferimentos: “cortes, contusões, hematomas, fraturas expostas…”, descreveu, informando que o trabalho de resgate é dificultado porque as carruagens estão “retorcidas” e existem “massas de metal emaranhadas”, assentos e todo o tipo de obstáculos. “Temos dois comboios a cerca de 800 metros de distância um do outro e já acabámos de remover os mortos e feridos”, acrescentou, referindo-se ao comboio Iryo.

De dentro dos comboios, os passageiros relatam um tremor que se assemelha a um sismo. María San José, de 33 anos, seguia na carruagem 6 do Iryo, e relata ao El País que as carruagens 7 e 8 colidiram com a frente do outro comboio. A mulher diz que sentiu vibrações “e muitos estrondos”: “As malas começaram a cair e a bater até o comboio parar”, explica. “Pensámos que tinha sido um descarrilamento, mas quando saímos vimos as carruagens retorcidas e duas carruagens do outro comboio [da Renfe] tombadas”, acrescenta. Cerca de três horas depois do acidente a passageira ainda estava à espera de um autocarro, a cerca de seis quilómetros da cidade de Adamuz. “Não sabemos nada, ainda não percebemos o que aconteceu ou quantos mortos pode haver”.

Na primeira carruagem do comboio de alta velocidade Iryo que partiu de Málaga seguia o jornalista da Rádio Nacional de Espanha Salvador Jiménez, que em declarações à TVE, disse que pelas 19h45 se sentiu um tremor semelhante a um terramoto em todas as carruagens. De acordo com o jornalista, a tripulação recorreu imediatamente ao sistema de som para perguntar aos passageiros se havia algum profissional médico para ajudar os feridos nos dois últimos vagões. Jiménez relata ainda que os passageiros começaram a desembarcar e a dirigir-se para a estação de Adamuz, enquanto a tripulação usava martelos para partir os vidros e ajudar as pessoas a sair das carruagens descarriladas.

A sensação de tremor que se assemelha a um sismo também foi relatada por passageiros nas redes sociais. “Na nossa carruagem estão todos bem, mas noutras não sabemos. Há fumo e estão a pedir por médicos”, escreveu uma pessoa que partilhou um vídeo no qual é possível ver um dos funcionários da empresa de comboios a dar orientações aos passageiros. “Pedimos que permaneçam nos seus assentos. Os que não têm poltronas, podem seguir para as carruagens da frente onde há poltronas disponíveis”, diz o funcionário, identificado por um colete verde. “Se houver alguém com conhecimentos de primeiros socorros, por favor fique à frente das outras pessoas. Quando considerarmos seguro sair, vamos abrir as portas. Agora é mais seguro ficar aqui dentro, porque não sabemos as condições do lado de fora”.

Outra pessoa partilhou que seguia na carruagem número 5 e que todas as carruagens depois da número 6 descarrilaram. “Vamos no Iryo de Córdoba para Madrid, e uns 10 minutos depois de sair o comboio começou a tremer muito, e descarrilou da carruagem 6 para trás. Foi-se a luz. Estamos na carruagem 5. Felizmente, parece que todos estão bem”, escreveu, no momento do acidente. Mais tarde, revelou que os passageiros foram retirados e partilhou um vídeo que mostra a última carruagem do comboio bastante danificada e as equipas de resgate a trabalharem para retirar as pessoas através das janelas.

Ainda não são conhecidas as causas do acidente, que se deu pelas 19h50 locais (18h50 em Portugal Continental). Dentro de um dos comboios, da Iryo, seguiam 317 passageiros. Uma das vítimas mortais é o maquinista do comboio da Renfe, indica o Diário de Córdoba.