O Governo britânico aprovou, esta terça-feira, a construção de uma embaixada chinesa junto à Torre de Londres, no centro da cidade, noticiou a agência Reuters. Os planos deste projeto têm sido, desde 2018, alvo de vários protestos e críticas devido aos perigos de segurança adjacentes e a receios de espionagem.
A autorização consta de um documento oficial assinado pelo ministro da Habitação, Comunidades e Governo Local britânico, Steve Reed, que “concede permissão de planeamento e autorização para edifício” para a embaixada. O plano tinha sido inicialmente chumbado em 2022 e esteve parado durante três anos.
Em 2018, o complexo Royal Mint Court foi comprado pelo Governo chinês, tendo sido escolhido não só pela sua dimensão, mas também pela localização estratégica, muito próxima da Torre de Londres e do distrito financeiro de the City.
Uma das principais preocupações levantadas pelos britânicos, segundo o The Telegraph, está relacionada com a proximidade de cabos de fibra óticas utilizado pelas empresas financeiras, por onde passam diariamente milhões de dados privados. Ora, essa proximidade da futura embaixada a todos esses fios poderá aumentar o receio da prática de espionagem chinesa no Reino Unido.
Os riscos foram, porém, descartados pelos serviços secretos britânicos, que garantem que não existe qualquer ameaça específica à segurança nacional que justifiquem travar o projeto. Numa carta enviada aos ministros e tornada pública pelo Governo, os chefes dos serviços secretos MI5 e do GCHG reconheceram que, “como acontece com qualquer embaixada estrangeira em solo britânico, não é realista esperar eliminar completamente todos os riscos potenciais”.
“No entanto, o trabalho coletivo entre as agências de inteligência e os departamentos [governamentais] do Reino Unido para formular um pacote de medidas de mitigação de segurança nacional para o local foi, na nossa opinião, especializado, profissional e proporcional”, acrescentaram os chefes das secretas.
O próprio ministro Steve Reed sublinhou que nem o Ministério dos Negócios Estrangeiros nem o do Interior (equivalente ao português da Administração Interna) levantaram problemas com base na localização ou nas infraestruturas subterrâneas existentes, acrescentando que os próprios proprietários dos cabos não manifestaram preocupações.
A obra irá, assim, avançar. Os planos do novo complexo incluem 208 quartos e uma grande sala que os críticos do projeto temem, alegando que poderá ser utilizada por Pequim para deter ou interrogar dissidentes chineses que procuraram refúgio no Reino Unido.
A embaixada chinesa em Londres será a maior da Europa, concentrando mais de 200 funcionários e substituindo sete edifícios diplomáticas atualmente espalhados pela cidade, algo que, segundo Reed e o MI5, facilitará a monitorização das atividades. O ministro garantiu, ainda, que qualquer espionagem, assédio a dissidentes ou vigilância ilegal deverá ser tratada através de outros mecanismos legais e não pelo sistema de planeamento urbano.
A decisão da construção de uma grande embaixada na capital britânica surge num momento político sensível: as relações entre o Reino Unido e a China têm oscilado ao longo dos últimos anos, embora os acordos comerciais se tenham mantido fortes. Este anúncio surge antes da visita do primeiro-ministro, Keir Starmer, à China — a primeira de um líder britânico desde 2018.
Deputados reagem à decisão e aliados do Reino Unido instam Governo a não “abrir a caixa de Pandora”
Vários deputados, incluindo conservadores e trabalhistas, têm criticado a posição do Governo. Priti Patel, a ministra-sombra dos Negócios Estrangeiros, acusou Starmer de “minar a segurança nacional”, afirmando, na rede social X, que o primeiro-ministro está a oferecer a Xi Jinping “um grande centro de espionagem no coração da capital” que “prejudica os interesses” do país.
Labour's decision to grant the Chinese Communist Party their super embassy spyhub in the heart of London is wrong.
Keir Starmer has undermined our national security and rewarded a regime that's damaging our interests, threatening Hong Kongers living here, and continues to…
— Priti Patel MP (@pritipatel) January 20, 2026
Também o antigo líder do Partido Conservador, Iain Duncan Smith falou numa decisão “terrível” que ignora os avisos de segurança e a atuação do Partido Comunista Chinês. “É uma decisão desastrosa para a segurança, a soberania e a confiança” do país, disse na rede social X.
Approving the decision for a Chinese mega-embassy at Royal Mint Court near the Tower of London is strategically reckless and a terrible decision. Residents’ legal challenges will almost certainly expose the extent of government involvement behind the scenes. All the evidence… pic.twitter.com/6VSgMQSM5p
— Iain Duncan Smith MP Chingford & Woodford Green (@MPIainDS) January 20, 2026
Já a Associação de Moradores do Royal Mint Court admite avançar para uma revisão judicial da decisão, desde que consiga angariar as 145 mil libras (cerca de 166 mil euros) necessárias para pagar o processo.
A aprovação do Governo em construir uma grande embaixada chinesa em Londres provocou reações internacionais. Pelo menos cinco aliados do Reino Unido mostraram-se preocupados com a decisão. Os Estados Unidos, Nova Zelândia, Suécia, Países Baixos e Suíça instaram o Governo a não “abrir a caixa de Pandora”.
“Já tivemos intervenções do Governo holandês, do parlamento suíço, do parlamento sueco e duas intervenções da Casa Branca sobre os riscos que os cabos que passam ao longo do Royal Mint Court representam para as infraestruturas do Reino Unido”, anunciou Sarah Champion, presidente da comissão parlamentar de desenvolvimento internacional, citada pelo Telegraph.
Também John Brennan, que liderou a CIA de 2013 a 2017, afirmou que os serviços de informação britânicos “terão muito trabalho“, uma vez que a China irá usar a embaixada para espiar o Reino Unido. “Os chineses são muito vorazes em termos da sua sede de informação, seja ela sobre segurança, finanças, tecnologia e assim por diante”, disse em entrevista ao LBC, sublinhando que “o Governo britânico pode tomar medidas para tentar restringir as atividades nesta megaembaixada”.