A Unidade de Contraterrorismo da Polícia Judiciária realizou buscas, esta terça-feira, numa megaoperação motivada pela prática de crimes de ódio contra imigrantes. Pelo menos 37 pessoas foram detidas — todas com ligações ao grupo nacionalista e de extrema-direita 1143, liderado por Mário Machado, apurou o Observador. Esta tarde, em conferência de imprensa, o Diretor Nacional da PJ confirmou que entre os detidos estão duas pessoas que “não são civis”. “Têm vínculo ao Estado, isso que fique bem claro”, garantiu Luís Neves, sem adiantar mais detalhes.
No entanto, em simultâneo, a PSP confirmou a detenção, pela PJ, de um polícia do Comando Distrital de Setúbal. “A PSP aguarda conhecimento concreto do sucedido, pelo que, assim que tivermos notícia sobre o(s) crime(s) de que o referido polícia é indiciado, (informação que neste momento ainda não possuímos), serão desenvolvidos os procedimentos disciplinares adequados e preventivos”. A RTP avançou que o outro detido com ligações ao Estado é um militar.
A investigação, que começou em fevereiro de 2024 após uma denúncia, identificou que Mário Machado continuou a liderar o grupo a partir da prisão. A PJ acrescentou que não estavam preparados, no imediato, ataques concretos, mas que a atuação surgiu de forma “preventiva” para evitar mortes. A operação em todo o território resultou na apreensão de diverso material, incluindo armas e muitos objetos alusivos ao grupo — que seria vendido entre membros e apoiantes para financiamento do 1143.
O objetivo da megaoperação, denominada “Irmandade”, foi, explicou a PJ em comunicado, desmantelar a organização criminosa responsável pela prática de crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, ameaça e coação agravadas, ofensas à integridade física qualificada e detenção de armas proibidas. O modus operandi desta organização passaria pela difusão de mensagens e outros conteúdos xenófobos e racistas nas redes sociais, que serviriam para incitar ao ódio contra imigrantes — publicações que motivavam depois ações violentas contra esses mesmos imigrantes.
Foram detidas 37 pessoas, com vastos antecedentes criminais e com ligações a grupos de ódio internacionais. Para além dos detidos, foram ainda “constituídos mais 15 arguidos e realizadas 65 buscas domiciliárias e não domiciliárias“, detalha a PJ.
“Os detidos, com idades compreendidas entre os 30 e os 54 anos, adotavam e difundiam a ideologia nazi, inerente à cultura nacional-socialista e extrema direita radical e violenta, agindo por motivos racistas e xenófobos, com o objetivo de intimidar, perseguir e coagir minorias étnicas, designadamente imigrantes“, realça a PJ, salientando que os visados são suspeitos de terem “fundado uma organização criminosa com o exclusivo propósito de desenvolver atividades que incitavam à discriminação, ao ódio e à violência racial, tudo isto no seio de uma estrutura hierárquica e fortemente estabelecida, com distribuição de funções”.
De acordo com a CNN, algumas das situações de crimes praticadas pelo Grupo 1143 foram agressões a imigrantes em manifestações, por exemplo à margem das comemorações do 25 de Abril, em Lisboa; e na estação de serviço de Aveiras, no último feriado de 5 de Outubro. Neste último caso, um imigrante indostânico, chamado Rachhpal Singh, foi insultado e depois agredido quando parou naquela estação de serviço, tendo necessitado de tratamento hospitalar na sequência dos ferimentos sofridos.
Segundo o Correio da Manhã, alguns dos visados têm ligações à claque organizada do Futebol Clube do Porto — os Super Dragões — nomeadamente Hugo Carneiro, conhecido por ‘Polaco’, número dois deste grupo. Há também elementos com ligações ao Grupo 1143, fação radical da Juventude Leonina, uma das claques do Sporting.
No âmbito da operação foi, ainda, apreendido um “vasto material de propaganda e merchandising alusivo à ideologia de extrema direita violenta, nomeadamente neonazi, bem como armas diversas”, acrescenta a PJ. Os detidos serão presentes esta quarta-feira no Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa para primeiro interrogatório judicial, tendo em vista a aplicação das respetivas medidas de coação.
Notícia atualizada às 17h com informação revelada por Luís Neves em conferência de imprensa