Uma fissura num carril poderá ter provocado o acidente ferroviário de domingo em Adamuz, Córdova, no sul de Espanha, refere nesta sexta-feira o relatório preliminar da comissão independente de investigação do desastre. “Pode colocar-se a hipótese de que a fratura do carril se produziu antes da passagem do comboio Iryo sinistrado e, portanto, do descarrilamento”, lê-se neste primeiro relatório da Comissão de Investigação de Acidente Ferroviários (CIAF).
Esta hipótese não é uma conclusão e terá agora ser corroborada por análises e cálculos detalhados, disse a CIAF, encarregada de investigar as causas do acidente, que envolveu dois comboios de alta velocidade (das empresas Iryo e Renfe) e que provocou 45 mortos.
Segundo o mesmo documento, os investigadores encontraram mossas nas rodas do lado direito das carruagens 2, 3, 4 e 5 do comboio Iryo, o primeiro que descarrilou, compatíveis com uma deformação num carril.
▲ As mossas são visíveis numa roda do lado direito da carruagem 4 do comboio Iryo. Na segunda imagem vê-se o possível ponto de rutura do carril
Comissão de Investigação de Acidente Ferroviários (CIAF)
O documento explica que as mossas observadas nestas quatro carruagens apresentam um padrão idêntico, com exceção da carruagem 5, que é considerada “diferente”. Segundo o relatório, estas marcas correspondem a impactos na “banda de rolamento exterior do carril”, compatíveis com um choque contra a cabeça do carril num ponto onde já não havia continuidade do carril antes da zona da fratura.
Os especialistas indicam que o facto de estas deformações surgirem na carruagem 5, e de a 6 ter sido a primeira a descarrilar, é compatível com a hipótese de que o carril se estar a inclinar ou a virar para o exterior (para o lado direito, no sentido da marcha) durante a passagem da carruagem 5. Como consequência, a 6 terá descarrilado devido a uma “perda total de continuidade” na superfície de rolamento, deixando de haver apoio para as rodas.
▲ Ilustração que mostra a possível rotura do carril. Em cima, mostra-se o funcionamento normal. Em baixo, o efeito produzido pela rotura do carril.
Comissão de Investigação de Acidente Ferroviários (CIAF)
Neste sentido, a CIAF indica que a inspeção realizada no local do acidente confirmou que “o carril, após o ponto de rutura ficou tombado e com marcas a indicar que tinha sido atingido lateralmente por uma roda, uma vez que estava deitado”. A carruagem 6 acabou por arrastar a 7 e a 8 no momento do descarrilamento, tendo estas três carruagens invadido a linha contrária segundos antes da passagem do outro comboio.
A Comissão revelou, ainda, que o carril já estava danificado quando o comboio da Iryo passou, uma vez que as rodas de outros comboios que passaram pelo mesmo local horas antes — entre as 17h21 e as 19h09 daquele domingo — apresentaram mossas “com um padrão geométrico semelhante com os do comboio envolvido no acidente”.
O material recolhido no local será agora enviado a um laboratório para determinar as possíveis causas da rotura do carril. “Quanto às causas da rutura do carril não se descarta nenhuma hipótese”, afirma a CIAF, esclarecendo que, uma vez determinadas, “novas linhas de investigação poderão ser estabelecidas com base nelas”.
O acidente ocorreu no domingo, por volta das 19h45 locais (18h45 em Lisboa) na localidade de Adamuz, na província de Córdova, no sul de Espanha, envolvendo dois comboios de alta velocidade. Um comboio da empresa privada Iryo, procedente de Málaga e com destino a Madrid, descarrilou e as três últimas carruagens invadiram a via contrária, por onde passou, 20 segundos depois, outro comboio de alta velocidade, um Alvia, da empresa pública Renfe, que fazia a ligação Madrid-Huelva. As duas primeiras carruagens do Alvia foram projetadas para fora dos carris depois do choque com os vagões do Iryo descarrilados.