Numa altura em que as sondagens são amplamente favoráveis a António José Seguro e se multiplicam os apoios ao socialista, André Ventura continuou a trabalhar em duas vertentes: mostrar que “em Portugal há 50 anos de um sistema de interesses tão forte que leva pessoas absolutamente improváveis de dizer que apoiavam um socialista” e atirar-se ao rival por não querer mais do que um debate (apenas aceitou um de dois na televisão e disse não às rádios).

Foi numa curta ação de campanha no Montijo, depois de uma viagem relâmpago à Suíça para estar com emigrantes portugueses, que André Ventura reconheceu que pode haver “taticismo e cálculo” político nos apoios a Seguro, justificando que os partidos à direita podem “pensar que o Chega se vai tornar o maior partido da direita” porque “derrotou o PSD” — o que poderia, na visão do líder do Chega, dificultar a declaração de voto em si. Porém, alertou, “o PSD já foi derrotado nesta eleição, já não há nada a fazer”.

Ainda que sociais-democratas e liberais tenham procurado manter-se oficialmente neutros no endosso, André Ventura defendeu que “não vale de nada andar a dizer que não se vai tomar partido porque o espaço político não está representado, mas depois mete[-se] os peões políticos todos a dizer quem se vai apoiar”.

E especificamente ao posicionamento da Iniciativa Liberal e de Mariana Leitão, o candidato a Belém considerou que “só falta fazer um funeral político à frente do país todo”, frisando que não conhece nenhum partido liberal de direita na Europa “que vai apoiar um candidato socialista”. Antes, tinha referido que há quem esteja a “enterrar os seus espaços ideológicos por uma questão de mesquinhez, ou, mais grave que isso, [por] uma questão de interesse”.

“É neste ponto que eu quero apelar a esse povo não socialista, que a escolha que temos agora é entre o André Ventura e um socialista”, insistiu, assegurando que não ficou surpreendido com a declaração de voto de Mendes a Seguro e dizendo que fez uma “figura patética“.

“Acho mesmo patético, ridículo, mas isso é com quem o faz. Nós conseguimos passar à segunda volta, estamos firmes nessa luta contra o candidato do Partido Socialista, agora cada um assumirá as suas responsabilidades, porque o país não acaba no dia 8 de fevereiro. O país vai continuar e, como dizia o outro, enquanto houver estrada para andar, nós estaremos cá para fazer e para caminhar. A questão agora é daqueles protagonistas que decidiram cometer uma espécie de suicídio à frente do país todo, que eram tão antissocialistas, tão antissocialistas, até se tornarem socialistas e apoiarem um candidato socialista”, explicou.

Por outro lado, André Ventura focou-se em acusar António José Seguro de ter “medo” do debate e do escrutínio. “António José Seguro passou o tempo todo a dizer que eu não era democrata, que eu sou uma ameaça à democracia, que sou uma ameaça ao estado social e democrático. Ora, quem deixa de enfrentar os jornalistas não sou eu. Quem deixa de responder às questões dos jornalistas não sou eu. Quem não quer debater comigo é o António José Seguro. Estou disponível quando ele quiser, onde ele quiser, sobre o país. Não é sobre mais nada. Ele não precisa ter receio de mais nada”, disse Ventura.

Acusando o adversário da segunda volta das presidenciais de ser a “Miss Portugal” porque “ninguém lhe pode dizer nada e passa pelos pingos da chuva sem ter que se comprometer com nada”, concluiu que “isso é um mau exemplo para a democracia”.

Ventura “suspeita” que Seguro esteja “com medo de alguma coisa e que está com medo de ser sujeito ao escrutínio”. E, para justificar o pedido para mais confrontos frente a frente, recordou que na primeira volta houve 28 debates, alguns com “candidaturas que não tinham quase nenhuma expressão, como aliás as urnas vieram a confirmar” para vincar: “Debati com elas, debati com pessoas que tiveram 0,8%.”

“António José Seguro teve mais de 400 mil votos que eu, não teve mais 1 milhão, nem mais 2 milhões, separaram-nos 400 mil votos. Significa que tem que respeitar também este povo que votou em mim, tal como eu respeito o povo que votou nele. Uma das facetas desse respeito é aceitar debater e é aceitar o escrutínio.” Questionado sobre se este debate passa a ter uma relevância ainda maior, Ventura assegurou: “Infelizmente sim, tornar-se-á um momento central.”