A Google está a ser acusada de tornar a utilização dos seus produtos em escolas nos EUA uma forma de transformar os alunos em clientes para o resto da vida, ao mesmo tempo que reconhece que o YouTube tem vários aspetos problemáticos como ferramenta de ensino.
Estas informações foram desvendadas no âmbito de um processo judicial de que a gigante tecnológica está a ser alvo na Califórnia ao lado de outras empresas como a Meta, a ByteDance e a Snap por parte de um conjunto de famílias, distritos escolares e procuradores-gerais estaduais. Em causa está a assunção de que estas entidades disponibilizaram propositadamente produtos viciantes e prejudiciais para as crianças.
No caso da Google, o canal NBC dá conta de que foram adicionados ao processo documentos onde é demonstrado que a empresa encarou a sua penetração nas escolas como forma de habituar os alunos aos seus produtos. Num slide de uma apresentação interna datada de 2018 é demonstrado como a disseminação dos computadores Chromebook na sala de aula e a popularização da plataforma de vídeo YouTube como ferramenta de aprendizagem têm servido para criar “uma pipeline de futuros utilizadores”.
Noutro slide de 2020, é referido como a habituação dos estudantes ao ecossistema dos produtos Google pode fazer deles clientes de longa duração. “Quando se conquista a lealdade desde cedo, isso potencialmente dura para a vida”, é uma das frases a surgir na apresentação.
Um outro exemplo expõe o desejo da Google de que um dia os administradores escolares comecem a “mudar os seus orçamentos, de manuais escolares para subscrições do YouTube”. Esse objetivo, todavia, choca com a admissão interna revelada numa apresentação de 2018 de que o público considera a plataforma de vídeo problemática para os alunos porque “não há como bloquear conteúdos, comentários e anúncios inseguros.”
O artigo da NBC revela outros exemplos de que como a Google está ciente das falhas do YouTube como plataforma de ensino, como o facto do seu motor de busca não estar otimizado para apresentar resultados que potenciem o ensino. Uma das provas apresentadas é de que a plataforma recomendou o vídeo “Will Ferrell Hilarious Acceptance Speech” (“Discurso de aceitação hilariante de Will Ferrell”) do utilizador “cocksandballs123” no separador lateral a alguém que tinha pesquisado conteúdo sobre “equações lineares”.
A Google não respondeu oficialmente às perguntas do canal televisivo quanto às informações potencialmente comprometedoras presentes nestes documentos, mas um porta-voz da empresa, Jack Malon, reagiu via email que os exemplos divulgados “caracterizam erroneamente” o trabalho da tecnológica. Além disso, defende que a Google não comercializa diretamente o YouTube para as escolas, mas sim responde “à forte procura por parte dos educadores por conteúdo de alta qualidade e alinhado com o currículo”. “Os administradores mantêm controlo total sobre o uso da plataforma e as escolas devem obter o consentimento dos pais antes de conceder acesso a alunos menores de 18 anos”, defendeu.
Este tem sido o argumentário por parte das empresas visadas por este processo, de que os queixosos têm descrito os seus produtos de forma incorreta e atribuindo-lhes culpa por danos que não causaram. Para tal, têm recorrido a uma lei federal, a Secção 230, que as protege de responsabilidades quanto a conteúdos danosos criados pelos seus utilizadores.
De resto, este é apenas um de vários processos que irão decorrer ao longo do ano, de famílias e distritos escolares avançar com processos às tecnológicas pelo cariz alegadamente aditivo dos seus produtos para as crianças e pela forma como estes prejudicam a sua educação. Este caso em concreto, a decorrer no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Norte da Califórnia, contou com um volte-face na semana passada, com a Snap — empresa responsável pela plataforma Snapchat — a chegar a acordo com os queixosos antes de ir a julgamento, por uma verba não revelada.
As outras empresas, porém, vão mesmo bater-se nos tribunais. Centenas de distritos escolares quiseram avançar com um processo conjunto, mas uma juíza de Maryland decidiu em 2025 que avançam apenas seis para servir como potenciais indicadores ou exemplos — o primeiro a decorrer será em julho, por um distrito escolar do Kentucky. Além disso, vão também seguir cinco processos movidos por pessoas individuais.
O tema dos efeitos potencialmente nocivos da tecnologia nos mais jovens e no seu processo educativo não se cinge aos EUA. Em 2025, o governo português aprovou o diploma que proíbe a utilização de smartphones nas escolas para alunos do 1.º e do 2.º ciclo, seguindo os exemplos de países como a Austrália, a França e o Reino Unido.