Os dois pandas que estão no Japão sob “empréstimo” vão regressar à China, numa altura em que as relações entre os dois países se deterioraram. O Japão ficará sem pandas pela primeira vez desde 1972 e não está prevista a chegada de novos exemplares. Centenas de pessoas despediram-se neste domingo dos dois pandas.
Na próxima semana os dois pandas, que nasceram no jardim zoológico de Ueno mas que na prática são pertença da China, voaram, conta o The Guardian, do aeroporto de Tóquio Narita para a China, onde ficarão em quarentena por uns dias até à reunião com a sua irmã, Xiang Xiang, no centro de conservação na província de Sichuan. Em dezembro, a autarquia de Tóquio anunciou que os dois animais iriam regressar à China em janeiro com base num acordo feito com a China.
A afluência para a despedida dos pandas gémeos Xiao Xiao e Lei Lei no Japão obrigou o jardim zoológico de Ueno a recorrer a um sistema de lotaria, e os visitantes desfilaram em pequenos grupos com apenas alguns minutos para verem os dois animais. Lei Lei e Xiao Xiao regressarão à China na terça-feira, segundo o jornal japonês Asahi Shimbun.
A tensão diplomática entre o Japão e a China, motivada por comentários no Parlamento japonês da primeira-ministra nipónica, Sanae Takaichi, sobre Taiwan, colocou em dúvida a possibilidade do gigante asiático permitir o envio de novos exemplares para o arquipélago. Questionado na semana passada sobre a possibilidade de ser prorrogado o acordo de cedência dos pandas ou de virem a ser enviados para o Japão novos exemplares, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, recusou-se a dar uma resposta definitiva.
Com os empréstimos destes animais, Pequim leva a cabo uma conhecida “diplomacia do panda”, animais que cede a vários países, mas mantém a respetiva propriedade e, portanto, um monopólio mundial destes mamíferos, com a exceção de um exemplar, Xin Xin, que se encontra no México.
A diplomacia do panda já tem um longo historial, admitindo-se ter iniciado na dinastia Tang, entre 618 e 907 DC. Mas, com a formação da República Popular da China, em 1949, o país começou a usar os pandas gigantes como expressão de boa vontade com os aliados e concorrentes internacionais.
Segundo a BBC, o presidente chinês Mao Zedong enviou os primeiros “embaixadores” pandas à União Soviética, como presente, em 1957 para assinalar o 40.º aniversário da Revolução russa. Também ofereceu pandas à Coreia do Norte.
Um outro marco nesta “diplomacia” aconteceu em 1972, dois meses depois de Richard Nixon ter feito uma viagem à China, na tentativa dos Estados Unidos voltarem a ter relações cordiais com a China. Os dois pandas, Hsing-Hsing e Ling Ling, morreram nos Estados Unidos. Já em 1941, dois pandas tinham sido presenteados aos Estados Unidos como forma de agradecimento de Chiang Kai-Shek pela ajuda aos refugiados chineses durante a guerra da China contra o Japão.
No caso do Japão, os primeiros exemplares chegaram ao jardim zoológico de Ueno em 1972, depois da normalização das relações diplomáticas entre os dois países.
Desde então, o Japão acolheu e criou mais de vinte exemplares, gerando um grande entusiasmo entre a população local e notáveis ganhos económicos: só no parque zoológico de Ueno, estima-se que Xiao Xiao e Lei Lei tenham tido um impacto económico de mais de 30 mil milhões de ienes (cerca de 166 milhões de euros) no primeiro ano após a apresentação ao público em 2021.
Foi em 1984 os presentes passaram a empréstimos, com os zoológicos a pagarem para projetos de conservação da espécie. Pode custar até 1 milhão de dólares por ano para um casal de pandas.