O descarrilamento que provocou a colisão entre dois comboios de alta velocidade no passado domingo, 18 de janeiro, e que vitimou pelo menos 45 pessoas aconteceu num troço no qual o material renovado da linha coincide com o antigo, que já tem mais de 33 anos.

De acordo com o El Mundo, o local onde o comboio da Iryo descarrilou e provocou uma colisão com o da Alvia que seguia em sentido contrário foi precisamente num troço desta linha entre Madrid e a Andaluzia onde os carris mais recentes foram soldados com os antigos que já lá se encontravam.

A Comissão de Investigação de Acidente Ferroviários (CIAF) adiantou esta sexta-feira num relatório preliminar que a causa mais provável, com base nos elementos recolhidos até à data, é que uma fissura num carril terá provocado o descarrilamento. O facto das rodas do lado direito das carruagens 2, 3, 4 e 5 do Iryo apresentarem mossas sugerem que estas foram provocadas por uma deformação na linha.

Fissura num carril foi provável causa de descarrilamento em Adamuz, diz relatório preliminar da Comissão de Investigação

De acordo com o jornal espanhol, essa fissura estará no troço em que um carril antigo foi soldado com um novo, citando investigadores que verificaram “in situ que o ponto em que a via se partiu é aquele que liga os carris construídos e as travessas instaladas nesta última obra com outros mais antigos”.

A Adif — a empresa pública espanhola responsável pela gestão e manutenção das linhas de caminho de ferro, semelhante à Infraestruturas de Portugal — terá encomendado uma renovação deste troço em 2022 numa adjudicação no valor de 60 milhões de euros. Este ponto é particularmente sensível porque é onde ocorre a mudança de agulhas que permite aos comboios mudarem de carris, sendo troços onde existe mais desgaste sobre o material que num troço numa linha reta.

O trabalho foi finalizado em maio de 2025 e, de acordo com a gestora, passou todos os controlos de qualidade. No entanto, o El Mundo adianta que nem todos os materiais foram substituídos neste ato de renovação. As peças que permitem o desvio das agulhas foram renovadas, mas parte dos carris não, sendo isso constatável pelo facto de cada peça da linha ter inscrito o seu ano de fabrico.

Quem esteve no local pôde verificar que no local exato do acidente é possível ver que na linha lê-se “89”, correspondendo isso a 1989, o que significa que estas peças fazem parte do traçado original da linha, inaugurada em 1992. Os carris mais recentes unidos por soldadura a estes mais antigos têm o número “23”, o que indica que são de 2023. Como explicita o jornal, se “o critério para manter uma peça na infraestrutura é o seu estado de conservação acima da idade”, é também “lógico que quanto mais anos o material passa na via, mais se desgasta”.

Em conferência de imprensa, o presidente da Adif, Luis Pedro Marco de la Peña, não garantiu que o traçado mais antigo fosse “de 1992 ou de renovações posteriores”, mas admitiu que o acidente ocorreu na “soldadura no lado direito que une o carril pré-existente ao novo”.

Estes carris foram fabricados pela ArcelorMittal, um grupo siderúrgico multinacional que é o principal fornecedor da Adif para a implantação ou renovação das linhas. Marco de la Peña garantiu que vai ser investigada a qualidade do material entregue pela siderúrgica e que, se forem encontradas falhas, terá de enfrentar as consequências jurídicas daí decorrentes.