Foi a 2 de maio de 2016 que o Leicester confirmou a ideia mirabolante que vinha a formar-se ao longo de semanas. Há praticamente uma década, o Leicester de Claudio Ranieri rasgou todas as expectativas, apostas e probabilidades e conquistou a Premier League, terminando a temporada com mais dez pontos do que o Arsenal, mais 11 do que o Tottenham e mais 15 do que Manchester City e Manchester United. Dez anos depois, o cenário não podia ser mais diferente.
Atualmente, o Leicester está no 14.º lugar do Championship, ou seja, na segunda metade da segunda divisão de Inglaterra. Martí Cifuentes foi despedido no último fim de semana, depois de uma derrota em casa com o Oxford United, e o clube tornou-se uma espécie de equipa iô-iô nas temporadas mais recentes, com promoções à Premier League seguidas de imediato por despromoções ao Championship e vice-versa. Este ano, porém, a subida parece uma miragem — e o pesadelo da queda para a League One começa a aparecer.
???? "Leicester City is like looking after my son. I have to do it right"
Former Premier League champions are mid-table in the Championship, but "Top" Srivaddhanaprabha tells @JNorthcroft about his plans to the bring glory days back to the King Power ????https://t.co/jU7sDpCRhf
— Times Sport (@TimesSport) January 27, 2026
Futebol à parte, a verdade é que o Leicester é um clube profundamente marcado pela tragédia. Depois da conquista da Premier League em 2016 e dos quartos de final da Liga dos Campeões na temporada seguinte, Vichai Srivaddhanaprabha morreu tragicamente na sequência de um acidente de helicóptero nas imediações do King Power Stadium em 2018. O empresário tailandês, dono do clube desde 2010, era uma figura adorada pelos adeptos, pelos funcionários, pelos jogadores e pela equipa técnica, deixando um vazio impossível de colmatar que ficou confirmado com a inauguração de uma estátua junto ao estádio.
De lá para cá, com a conquista da Taça de Inglaterra e da Community Shield em 2021 pelo meio, o Leicester ficou entregue a Aiyawatt Srivaddhanaprabha, mais conhecido apenas como Top, o filho mais novo de Vichai. Figura bem mais discreta do que o pai, passa mais tempo na Tailândia do que em Inglaterra, já que também herdou a gestão de toda a King Power, mas garante que mantém a ligação ao clube e que quer encurtar distâncias. Por agora, começou a reaproximação ao dar a primeira entrevista em praticamente uma década, juntando os principais jornais ingleses para explicar como pretende levar o Leicester novamente ao topo.
“Vejo todos os jogos, mesmo quando estou na Tailândia. Quando são 20h aqui são 3h da manhã na Tailândia e fico a ver os jogos até às 5h. Não é bom quando não ganhamos, estou acordado de madrugada e fico stressado”, garante. “Compreendo a dor dos adeptos. Compreendo a dor e a frustração de todo o clube. Também já fui adepto e sentia-me muito mal quando a minha equipa perdia. Agora sou dono de um clube há 16 anos e o sentimento continua a ser o mesmo. Continua a ser doloroso, se calhar até mais”, explica o empresário tailandês.
"We have to find a CEO, a new commercial director and a sporting director"
Leicester City owner Khun Top speaks to Rob Dorsett on the plan to get the club back to the Premier League ???? pic.twitter.com/2XEgbnkYGa
— Sky Sports News (@SkySportsNews) January 27, 2026
Ao The Times, ao The Guardian e ao The Telegraph, Top explicou que tem como prioridades contratar um novo CEO para substituir Susan Whelan, que deixou o Leicester em outubro, e também um novo diretor técnico para trabalhar diretamente com Jon Rudkin, diretor desportivo desde 2014. Ainda assim, garante que vai continuar a ter uma palavra a dizer em todas as decisões. “Estou muito envolvido com a equipa. Posso não falar muito com a comunicação social, mas estou muito envolvido no trabalho com a gestão e a equipa de futebol e claro que muita da responsabilidade é minha, quer estejamos a ganhar ou a perder”, sublinha.
O tailandês quer recuperar uma identidade que diz ter ficado perdida pelo caminho, já que o Leicester era uma equipa de contra-ataque, passou a ser uma equipa de posse e atualmente “não sabe o que é”. Contudo, e sem esquecer os problemas financeiros que o clube tem tido e a possível perda de pontos motivada por violação das regras de sustentabilidade, afasta o cenário de despromoção à League One. “Com esta equipa esse cenário não devia existir, sermos despromovidos outra vez. Os jogadores precisam muito do apoio dos adeptos. Ninguém quer ver-nos a jogar na League One. Tenho a certeza de que ainda temos chances de recuperar ou de pelo menos estar nos ‘playoffs'”, atirou.
Para além de escrever a história recente do Leicester como um “super drama da Netflix”, Top defende que o ponto de viragem negativa aconteceu na despromoção de 2021/22, com Brendan Rodgers, já que “não faz ideia” de como é que o clube caiu da Premier League. De lá para cá, a ida de Enzo Maresca para o Chelsea logo depois do regresso ao primeiro escalão, a saída de Jamie Vardy no último verão e o falhanço de várias contratações não ajudaram.
Com muitos jogadores do plantel a entrar no último ano de contrato, como Jannik Vestergaard ou Bobby Decordova-Reid, o Leicester vai apostar essencialmente na formação, olhando para o centro de treinos de Seagrave, que nos últimos anos recebeu um investimento de 100 milhões de libras, como a solução para muitos problemas. Top Srivaddhanaprabha não afasta a ideia de vender o clube algures no tempo, mas garante que antes disso quer deixá-lo novamente onde deve estar.
“No primeiro dia em que entrei no Leicester, a 12 de agosto de 2010 e com o meu pai, construímos planos. Adoramos futebol e adoramos o clube. Continuo a sentir o mesmo. Na primeira entrevista que dei, quando tinha 25 anos, disse que estava aqui a longo prazo. E vender o clube não é a maneira de sair disto, seja como for. Tenho de ter a certeza de que completo tudo antes de ir embora. Tenho de garantir que o clube fica num bom lugar. Depois, se aparecer algum príncipe, talvez sim, e o Leicester pode tornar-se o Manchester City… Mas tenho a certeza de que estamos muito longe disso. Continuo a adorar o clube e quero garantir que o vejo tornar-se bem sucedido outra vez. O Leicester é como um filho de que tenho de cuidar”, explica.
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